Foto: Jorge EFO Silva (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia
Olho-de-cabra
Ormosia arborea
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: coronheira, angelim, tento, tento-macanaíba, macanaíba, corunheira, pau-ripa, tento-grande, pau-de-santo-inácio, arvoeiro, assacu-mirim, coroa-de-frade
Botânica
Pela classificação do APG II, a coronheira pertence ao gênero Ormosia, na subfamília Faboideae (Papilionoideae) e na família Fabaceae (chamada Leguminosae no sistema de Cronquist). Está na ordem Fabales e no clado das Eurosídeas I. Seu nome aceito é Ormosia arborea (Vell.) Harms, publicado em 1924, tendo como sinônimo botânico Abrus arboreus Vell. O nome do gênero remete às sementes coloridas, tradicionalmente aproveitadas em adornos; já o epíteto arborea aponta para o fato de ser a espécie de maior tamanho dentro do gênero.
Trata-se de uma planta semidecídua que varia de arvoreta a árvore, podendo os exemplares adultos mais vigorosos alcançar perto de 20 m de altura e 70 cm de DAP (diâmetro medido a 1,30 m do solo). O tronco vai de reto a um pouco tortuoso, normalmente com fuste curto de no máximo 7 m. A ramificação é dicotômica e a copa, frondosa e bem enfolhada. A casca chega a 5 mm de espessura, sendo a parte externa (ritidoma) finamente rugosa e de cor marrom-escura. As folhas são compostas imparipinadas, com 9 a 11 folíolos glabros e bastante coriáceos, de nervuras salientes na face dorsal, medindo de 10 a 24 cm de comprimento por 5 a 10 cm de largura. As flores variam do violáceo-claro ao lilás e se agrupam em amplas panículas terminais. O fruto é um legume de duas valvas com pericarpo lenhoso, de 5 a 11 cm de comprimento por 2,3 a 4 cm de largura, abrigando de 1 a, raramente, 3 sementes. As sementes são arredondadas e bicolores, vermelhas com manchas pretas.
Uso e ecologia
As sementes, de forte cor vermelha com uma mancha negra lateral, são muito usadas em bijuterias como pulseiras, brincos e colares. A madeira é moderadamente densa (cerca de 0,70 g/cm³), de cor castanho-avermelhada, textura média, decorativa e com resistência mediana ao ataque de organismos xilófagos. É indicada para construção civil e marcenaria fina, sendo aplicada em painéis, lambris e lâminas faqueadas para acabamentos internos. A lenha tem boa qualidade como combustível, mas a madeira não serve para celulose e papel. As folhas têm propriedades medicinais.
É uma espécie secundária tardia, classificada como clímax ou clímax exigente em luz. Sua distribuição é ampla, porém descontínua e de frequência muito baixa: na natureza, a dificuldade de germinação faz com que ela quase sempre apareça isolada ou em poucos exemplares. Ocorre principalmente na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Semidecidual (com até 30 indivíduos por hectare em formações Submontana e Montana de Minas Gerais e São Paulo), Floresta Ombrófila Densa (com até dois indivíduos por hectare na Bahia, norte do Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e São Paulo), Floresta Ombrófila Mista no Paraná e restingas no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de zonas de contato entre essas formações. No Cerrado, aparece em cerradão (Savana Florestada) no estado de São Paulo. Também é encontrada em ambientes ripários de Goiás, Minas Gerais, Paraná e São Paulo.
A floração vai de outubro a novembro em São Paulo e de dezembro a fevereiro no Paraná. Os frutos amadurecem de setembro a outubro em São Paulo, de setembro a dezembro no Paraná, em outubro em Goiás e de outubro a novembro no Espírito Santo, permanecendo na árvore por vários meses depois de maduros.
A polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão de frutos e sementes é autocórica do tipo barocórico, ou seja, ocorre pela ação da gravidade.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a se abrir sozinhos, o que se percebe pela exposição da cor vermelha das sementes. Depois de colhidos, são lavados e expostos ao sol para completar a abertura e soltar as sementes. Cada quilo reúne de 800 a 1.400 sementes, que apresentam comportamento ortodoxo e mantêm a viabilidade por mais de um ano de armazenamento. A dormência tegumentar é intensa, pois a testa resiste muito à entrada de água, tornando a germinação lenta e desuniforme. Recomenda-se a escarificação mecânica com lixa ou a química com ácido sulfúrico (70% v/v por 10 ou 15 minutos, ou concentrado a 94% por 20 a 30 minutos), sendo que 30 minutos é tempo excessivo e prejudicial, por gerar muitas plântulas anormais. Por praticidade, a escarificação química costuma ser preferível à mecânica. Sementes sem tratamento, ou apenas imersas em água por 24 ou 48 horas, não germinaram. Em laboratório, o substrato de areia favoreceu a germinação das sementes tratadas com ácido sulfúrico.
Indica-se semear uma única semente por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes grandes de polipropileno. Quando preciso, a repicagem pode ser feita de 1 a 4 semanas após a germinação. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar e começa entre 14 e 97 dias depois da semeadura, com poder germinativo variável: geralmente de 32% a 98,6% nas sementes tratadas e de apenas 0% a 2% nas não tratadas. O desenvolvimento das mudas é lento, atingindo o tamanho ideal para plantio definitivo cerca de 10 meses após a semeadura, embora no viveiro da Embrapa Florestas tenham alcançado 20 cm de altura aos 4 meses. Apenas 20% das plântulas formaram nódulos espontâneos, pequenos e pouco numerosos, e não houve incidência de micorriza arbuscular nem colonização pelos fungos Glomus etunicatum e Gigaspora margarita.
A coronheira é uma espécie de esciófila a heliófila, com tolerância moderada ao frio. Quando jovem, cresce de forma monopodial. É recomendada para plantios mistos.
O crescimento da espécie é lento.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 800 a 2.300 mm. As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná), uniformes ou periódicas na faixa costeira do sul da Bahia e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica vai de nula, no litoral sul do Rio de Janeiro, de Santa Catarina, do Paraná e no extremo nordeste do Rio Grande do Sul, até forte no inverno do oeste de Minas Gerais e do centro de Mato Grosso. A temperatura média anual fica entre 17,6 ºC (Jaguariaíva, PR) e 25,6 ºC (Chapada dos Guimarães, MT). A mínima absoluta registrada foi de -3,5 ºC, em Londrina (PR), e as geadas, de 0 a quase 12 por ano em média (até 28 no Paraná), são raras na maior parte da área. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af, Aw, Cfa, Cwa e Cwb.
Em ambiente natural, a coronheira prefere solos bem drenados, ocupando topos de morros, encostas íngremes ou formações litorâneas sobre cordões arenosos.