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Foto de Oiticica

Foto: Gabriel M. Rolim (CC BY) via GBIF

Oiticica

Licania rigida

Chrysobalanaceae CaatingaMata Atlântica
  • até 10 mAltura
  • Médio portePorte
FrutíferasMedicinaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: oiticiqueira

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a oiticica pertence à ordem Malpighiales (em sistemas mais antigos, como o de Cronquist, era enquadrada em Rosales) e à família Chrysobalanaceae. Seu gênero é Licania, situado no subgênero Moquilea e na seção Microdesmia. A espécie foi descrita por Bentham, sob o nome Licania rigida Benth., com primeira publicação no Jour. Bot. Hooker (vol. 2, p. 220, 1840). Tem como sinônimo botânico Pleuragina umbrosissima. O nome do gênero, Licania, teria origem em "calignia", designação vernacular dada à espécie-tipo na Guiana Francesa, possivelmente um anagrama; já o epíteto rigida faz referência às folhas notavelmente rígidas da planta. O nome popular oiticica provavelmente deriva do tupi uiti-icica, algo como "o oiti resinoso ou grudento".

Descrição botânica

Árvore de comportamento perenifólio (sempre-verde), a oiticica figura entre as poucas espécies arbóreas da Caatinga que mantêm a folhagem mesmo na estiagem, renovando as folhas com brotação nova entre maio e junho. É uma das árvores mais imponentes do Nordeste e tem vida longa, estimada entre 50 e mais de 100 anos. Os maiores exemplares chegam perto de 10 m de altura e 60 cm de DAP na fase adulta. O tronco costuma ser tortuoso e de forma irregular, muitas vezes constituído por vários troncos reunidos que se ramificam perto do solo; o fuste é curto, com no máximo cerca de 4 m. A ramificação é fortemente dicotômica e a copa, ampla e densa, lembra um guarda-chuva, com 15 m a 20 m de circunferência e ramos quase horizontais, grossos e flexíveis que se espalham por área superior a 20 m de diâmetro. A casca tem até 10 mm de espessura, com ritidoma (casca externa) cinza que se desprende em pequenas placas irregulares. As folhas são simples, alternas, de formato oblongo-elíptico a oblongo-lanceolado e textura coriácea tão rígida que produz som quase metálico ao toque; a face superior é verde-escura e brilhante, e a inferior, esbranquiçada, fosca, áspera e tomentosa, com nervuras salientes. A lâmina mede de 6 cm a 20 cm de comprimento por 4 cm a 8 cm de largura, e o pecíolo é curto. As inflorescências são panículas terminais e axilares de 20 cm a 25 cm, com 8 a 10 ou mais ramos. As flores, hermafroditas, dispõem-se densamente nos ramos secundários, têm forma quase esférica com 2 mm a 5 mm em cada eixo, hipanto amarelado por fora e amarelo por dentro, sépalas alvo-esverdeadas e pétalas brancas, com pilosidade muito fina; cada flor permanece aberta por cerca de 4 dias e o estigma fica mais úmido ao amanhecer. O fruto é uma drupa fusiforme ou oblonga, às vezes arredondada e levemente enrugada, de 2,5 cm a 7,5 cm, com casca verde que ganha manchas arroxeadas no sentido longitudinal ao amadurecer e tom amarelo-escuro quando seca, contendo uma única semente. O caroço fica envolvido por massa amarelada, fibrosa e rala, de cheiro característico.

Uso e ecologia
óleo industrialmedicinalapícolaalimentíciorecuperação de áreas
Produtos e utilizações

O principal valor da espécie está no óleo extraído de suas sementes, com teor de até 60% e elevado poder secativo. Esse óleo substitui o de tungue (Aleurites fordii) na fabricação de tintas e, entre as décadas de 1930 e 1950, foi importante fonte de renda no sertão e na indústria nordestina de óleos, sabões e derivados. Hoje é empregado em tintas para a indústria automobilística e impressoras a jato, além de vernizes. A espécie também desponta como matéria-prima para biodiesel no Semiárido, com colheita entre dezembro e fevereiro, período de escassez de renda para a agricultura familiar; por extração com hexano, as amêndoas apresentaram teor médio de óleo de 54% em base seca, com variação de cerca de 2% atribuída a fatores genéticos, grau de maturação e conservação dos frutos. O óleo varia de amarelado a castanho, e estudos indicam que o biodiesel de oiticica tem massa específica e viscosidade cinemática altas, sendo recomendável misturá-lo a outros biodieseis ou ao diesel de petróleo. Na alimentação animal, em períodos de seca extrema, o gado consome as folhas mais tenras. O sabão artesanal de oiticica é preto, de odor forte e desagradável, e historicamente foi usado para lavar roupas. Análises fitoquímicas detectaram ácidos graxos (ácidos oleosteárico e licânico), taninos e flavonoides. As folhas, muito rígidas e coriáceas, servem para polir artefatos de chifre. A madeira é densa (0,80 g/cm³), com cerne amarelo-avermelhado, textura média, grã direita, homogênea e rija, e fibras entrelaçadas resistentes ao esmagamento; ainda assim, é frágil, quebradiça, apodrece rápido e praticamente não tem uso, inclusive como lenha, considerada de péssima qualidade pela população.

Aspectos ecológicos

Por ser uma espécie tolerante, a oiticica tende a se comportar como secundária inicial, e não como pioneira. Endêmica do Nordeste e típica da Caatinga, é muito abundante e de distribuição mais ou menos contínua, com preferência por formações secundárias e áreas abertas; é comum também no sopé de serras de clima ameno e na faixa de transição entre litoral e sertão. Tem forte ligação com ambientes ripários, formando matas ciliares ao longo de rios e riachos temporários do Semiárido e concentrando-se nas margens das bacias do Piauí, do Ceará, do Rio Grande do Norte e da Paraíba. No bioma Caatinga, aparece na Savana-Estépica (Caatinga do Sertão Árido) do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. No bioma Mata Atlântica, ocorre na Floresta Estacional Semidecidual da formação Montana, na Paraíba, e na Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas do Rio Grande do Norte (com até 168 indivíduos por hectare) e Submontana de Pernambuco (até 11 indivíduos por hectare). Surge ainda em brejos de altitude, em carnaubais (dominados pela carnaúba, Copernicia prunifera), onde se associa ao marizeiro (Geoffroea spinosa), e em vegetação de restinga, em Pernambuco.

Floração e frutificação

A floração vai de junho a outubro no Ceará, de julho a agosto em Minas Gerais e de julho a dezembro no Rio Grande do Norte, onde a planta pode florescer até três vezes por ano. Os frutos amadurecem de novembro a fevereiro no Ceará e de janeiro a março em Minas Gerais. A reprodução começa entre os 5 e os 10 anos de idade, e a produção de frutos é bastante irregular de um ano para outro, em boa parte por causa da falta de umidade no solo. Para resistir aos anos de seca, a árvore acumula reservas no caule e nas raízes na forma de água, taninos, carboidratos, ácidos orgânicos, mucilagem e outras substâncias.

Fauna associada

A polinização é feita sobretudo pela abelha irapuá (Trigona spinipes) e por diversos pequenos insetos. A dispersão de frutos e sementes ocorre por zoocoria, com destaque para aves como papagaio, louro-estrela e periquito-maracanã, além de morcegos, mas se dá principalmente por hidrocoria, pelas correntes de água na estação chuvosa. A árvore também é apícola, fornecendo pólen e néctar à abelha irapuá, que costuma instalar colmeias no próprio tronco.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos maduros podem ser derrubados batendo-se com vara nos galhos ou recolhidos do chão. Em seguida, são espalhados em terreiro amplo para secar ao sol, revolvendo-os diariamente com rodo ou rastelo para evitar fermentação. Em média, uma árvore produz 75 kg de frutos secos por ano, mas há registros excepcionais de até 1.500 kg; a produção é extremamente variável, podendo passar de cerca de 1.300 kg em um ano para apenas 50 kg ou menos no seguinte. Há cerca de 200 sementes por quilo. Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento fisiológico recalcitrante e perdem a viabilidade rapidamente. Em laboratório, são fotoblásticas neutras: temperaturas baixas reduzem e temperaturas elevadas (30 ºC) aceleram a velocidade de germinação.

Produção de mudas

Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 10 cm de diâmetro ou em tubetes grandes de polipropileno. Como a raiz cresce mais depressa que a parte aérea, o recipiente deve ser fundo o bastante para acomodá-la. No viveiro, deve-se evitar a exposição a pleno sol, pois as mudas se desenvolvem melhor sob sombra. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), tardia e desuniforme, com emergência em cerca de 50 dias e taxa em geral superior a 50%. As mudas atingem o ponto de plantio com poucos centímetros de altura, por volta de 5 meses após a semeadura. Além da reprodução por sementes, a espécie também se propaga por estaquia e enxertia.

Características silviculturais

Estudos com diferentes níveis de luz mostram que a oiticica se adapta melhor a condições sombreadas, comportando-se mais como planta de ambiente florestal do que de área aberta; ela não tolera baixas temperaturas. O hábito é irregular, sem dominância apical e com ramificação pesada, e a derrama natural é insatisfatória, exigindo desrama ou poda de condução frequente e periódica. Recomenda-se o plantio misto, posterior às pioneiras, para garantir sombreamento na fase inicial; ainda assim, por alocar bastante biomassa na raiz, os indivíduos sobrevivem a pleno sol, apenas com crescimento mais lento. No Nordeste, indica-se o consórcio com sabiá ou sansão-do-campo (Mimosa caesalpiniaefolia), ou o plantio em faixas abertas na vegetação secundária e em linhas. Por ter copa densa, em Minas Gerais é recomendada em sistemas agroflorestais para sombreamento de pastagens, oferecendo sombra regular de 3 m a 4 m de diâmetro.

Crescimento e produção

Há poucas informações sobre o crescimento da oiticica em plantios, mas sabe-se que é lento.

Clima

A precipitação média anual varia de 600 mm, no Ceará, a 2.000 mm, em Pernambuco, com chuvas periódicas e deficiência hídrica de moderada a forte na Zona da Mata pernambucana e forte no Semiárido. A temperatura média anual fica entre 25,6 ºC (Iguatu, CE) e 27,2 ºC (Mossoró, RN); a média do mês mais frio vai de 23,6 ºC a 26 ºC e a do mês mais quente de 27,3 ºC a 29 ºC. A mínima absoluta registrada foi de 7 ºC, em Iguatu, CE, em 30 de junho de 1961. Não há ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, predominam os climas As (tropical com verão seco), Aw (tropical com inverno seco) e BSh (semiárido quente).

Solos

A oiticica é planta típica de terrenos com solos aluvionais (Neossolos Flúvicos), profundos, baixos e de alta fertilidade, próximos a rios e riachos, mas sempre fora do leito menor. Costuma formar longas e estreitas alamedas à beira dos barrancos ou cobrir as várzeas com o verde-escuro de sua ramagem densa. Os solos precisam ser profundos para abrigar o longo sistema radicial da planta e permitir que ela resista a estiagens prolongadas, razão pela qual não se prestam terrenos impermeáveis, excessivamente argilosos, alagadiços ou de drenagem deficiente.