Foto: Ane Sasil (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia
Mutamba
Guazuma ulmifolia
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: mutamba-preta, mutamba-verdadeira, guaxima-macho, guaxima-torcida, periquiteira, cabeça-de-negro, coração-de-negro, chico-magro, envireira, embireira, pau-de-bicho, pau-de-mutamba, mutambo, camacã, amoreira, algodão, araticum-bravo, maria-preta, marolinho, umbigo-de-caçador, umbigo-de-vaqueiro, babosa, buxuma, embira, fruta-de-macaco, pau-de-pomba, pojó
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a mutamba pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Malvales e família Sterculiaceae. Seu nome científico é Guazuma ulmifolia Lamarck, descrito em 1789. Entre os sinônimos botânicos figuram Guazuma guazuma (L.) Cockerell, Guazuma tomentosa H.B.K., Guazuma ulmifolia var. tomentosa (H.B.K.) K. Schum e Theobroma guazuma L. Quanto à origem dos nomes, o termo do gênero, Guazuma, tem raiz mexicana, enquanto o epíteto ulmifolia faz alusão à semelhança das folhas com as do olmo-europeu (Ulmus).
Trata-se de uma planta perenifólia, que varia de arvoreta a árvore, podendo perder as folhas após estiagens prolongadas. Os exemplares adultos de maior porte alcançam cerca de 30 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito. O tronco é reto, curto e levemente tortuoso, costuma ramificar-se desde baixo e o fuste pode chegar a 12 m. A ramificação é dicotômica, formando uma copa densa, larga e tipicamente umbeliforme, com galhos horizontais e um pouco pendentes e folhas dispostas em duas fileiras ao longo dos ramos. A casca, de até 12 mm de espessura, tem a parte externa acinzentada a café-escura, áspera, sulcada longitudinalmente, que se solta com facilidade em placas retangulares ou tiras; a casca interna é fibrosa, rosada e com estrias brancas. As folhas têm filotaxia alterna, são simples, ovaladas ou lanceoladas, medem de 5 a 18 cm de comprimento por 2 a 6 cm de largura, têm consistência membranácea, ápice mais ou menos agudo, margem ligeiramente serrilhada ou crenada e de 3 a 5 nervuras saindo da base; são tomentosas, com pelos estrelados em ambas as faces, sobretudo na nervura principal, tornando-se glabras e brilhantes quando velhas. As inflorescências surgem em panículas ramificadas em pedúnculos axilares de 2,5 a 5 cm, na base das folhas. As flores são pequenas (5 a 10 mm), alvo-amareladas, levemente perfumadas e com cinco pétalas. O fruto é uma cápsula subglobosa, seca, dura e verrucosa, que vai do verde ao negro, mede de 1,5 a 3,5 cm e se abre em cinco segmentos por fendas no ápice ou por poros; contém em média 46,6 sementes envoltas por uma polpa doce e mucilaginosa. As sementes são ovoides, duras, de cor castanha a negra, com 3 a 5 mm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,50 a 0,68 g/cm³), de cor branco-amarelada a bege-rosada com linhas mais escuras, alburno marrom-claro e cerne marrom-rosado; tem grã entrecruzada, textura fina a mediana e brilho mediano. É pouco durável e muito suscetível a cupins e térmites de madeira seca, mas torna-se duradoura quando protegida da chuva e da umidade; é moderadamente difícil de preservar e fácil de serrar e trabalhar, com bom acabamento. Presta-se a obras internas, carpintaria, forros, marcenaria, caixotaria, laminados, tanoaria, coronhas de armas, cabos de ferramentas, saltos de sapato, caixões, postes e até violinos. É também excelente como lenha e carvão, com poder calorífico de 18.400 kJ/kg e teor de cinzas de 0,98% — historicamente, seu carvão chegou a ser usado na fabricação de pólvora em Santo Domingo, em Porto Rico e na Guatemala. Rende ainda pasta celulósica (até 44% de celulose), e a casca fornece tanino e um líber fibroso resistente, empregado em cordoaria e tecidos. Os frutos são comestíveis e apreciados, frescos, secos, crus ou cozidos, com sabor de figo seco; em Mato Grosso são usados em chás (substituto do chá-mate) e, no Ceará, o extrato mucilaginoso do caule serve para clarificar o caldo de cana na produção artesanal de rapadura. Na medicina popular, folhas, casca e raízes são usadas em diversas regiões contra disenteria, diarreia, problemas gastrointestinais, doenças renais e hepáticas, afecções respiratórias e da pele, além de servir como agente para o parto; também é matéria-prima do tradicional Óleo de Mutamba, tônico capilar contra a queda de cabelo. Vale notar que a eficácia e a segurança de muitos desses usos ainda carecem de comprovação científica.
É uma espécie pioneira, secundária inicial ou clímax exigente de luz, típica de formações secundárias e capoeiras abertas. Cresce em locais abertos, margens de rios e córregos, florestas exploradas e ambientes alterados, sendo rara na floresta primária — característica que a fez ser tratada como invasora e indesejável em alguns contextos. Sua dispersão é ampla, porém irregular e descontínua. É comum nas orlas de cerradão, no Pantanal Mato-Grossense e às margens de pequenos cursos d'água. Aparece na Mata Atlântica (florestas estacionais decidual e semidecidual, ombrófila densa e restinga), na Amazônia (floresta ombrófila densa de várzea, no Amazonas), no Cerrado (savana e cerradão), na Caatinga (savana-estépica, em Minas Gerais) e no Pantanal, além de ambientes ripários, brejos de altitude e campos rupestres. Quanto ao clima, ocorre onde a precipitação anual varia de 800 mm (CE) a 2.500 mm (PE), com temperaturas médias entre 17,9 ºC e 26,7 ºC e mínima absoluta registrada de -2,2 ºC (Uberaba, MG).
A floração ocorre em diferentes épocas conforme a região: de fevereiro a outubro no Mato Grosso do Sul; de setembro a dezembro em São Paulo e Minas Gerais; de novembro a abril em Pernambuco; e de janeiro a agosto no Amazonas. Os frutos amadurecem de junho a novembro em Minas Gerais, de julho a agosto no Ceará e no Paraná, de agosto a outubro em São Paulo e de outubro a novembro na Paraíba, podendo permanecer na árvore por mais tempo. É comum encontrar, num mesmo exemplar, flores, frutos imaturos e frutos maduros simultaneamente. A planta começa a se reproduzir por volta dos 5 anos de idade.
A espécie é monoica e sua polinização é feita principalmente por abelhas e diversos pequenos insetos. A dispersão de frutos e sementes é essencialmente zoocórica, com destaque para aves e peixes, mas também por mamíferos, incluindo o gado e, possivelmente, cavalos e outros animais. Os frutos são muito apreciados por macacos e outros animais, o que reforça o valor da árvore na atração de fauna e na recuperação de áreas degradadas.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando passam de marrom a preto, no início da abertura espontânea, ou recolhidos do chão após a queda; em seguida, são postos ao sol para secar e facilitar a quebra manual e a liberação das sementes. Recomenda-se a quebra mecânica cuidadosa dos frutos secos para não danificar as sementes, que depois são limpas e guardadas em sacos de papel ou pano. O principal obstáculo à produção em viveiro é a mucilagem que recobre a semente, a qual precisa ser removida para boa germinação. Há de 159 mil a 225 mil sementes por quilo. As sementes têm dormência por barreira mecânica no tegumento, superada por escarificação química com ácido sulfúrico (15 ou 50 minutos) ou por imersão em água quente — a 80 ºC por 1 a 2 minutos seguida de água corrente por 24 horas com lavagem manual, ou a 85–90 ºC por 5 a 8 minutos e mais 12 horas em água à temperatura ambiente. São sementes ortodoxas: mantêm a viabilidade por mais de 90 dias em armazenamento e por pelo menos 6 meses em câmara fria a 5 ºC, conservando o poder germinativo mesmo a -18 ºC. Em laboratório, a temperatura ideal de germinação é constante a 30 ºC, encerrando-se o teste-padrão em 28 dias.
A semeadura é feita em canteiros a pleno sol ou diretamente em sacos de polietileno ou tubetes de 50 cm³, com substrato rico em compostos orgânicos ou húmus de minhoca; há quem recomende canteiros de areia. A repicagem deve ocorrer de 2 a 4 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa de 6 a 14 dias após a semeadura, desde que feita a superação da dormência. O poder germinativo é variável e irregular, dado o grande número de sementes inviáveis, podendo chegar a 80% (e a menos de 60% com sementes de um ano ou mais). As mudas ficam prontas para plantio a partir de 4 meses. A espécie tem incidência média de micorriza arbuscular, mas é altamente dependente desses fungos. As mudas podem ser produzidas entre pleno sol e 40% de luz, em substratos como 80% de húmus + 20% de casca de arroz carbonizada, 60% de húmus + 20% de casca de arroz carbonizada + 20% de vermiculita fina, ou 100% de esterco de gado curtido.
Heliófila e de crescimento rápido na ausência de competição, a mutamba não tolera baixas temperaturas. Tem hábito monopodial, galhos finos e não faz desrama natural. Por sua autoecologia, presta-se a plantios homogêneos a pleno sol — na América Central, observou-se fechamento de copas já aos 12 meses no espaçamento 2 x 2 m — e também a plantios mistos com espécies secundárias, brotando vigorosamente da touça. Um de seus maiores potenciais está nos consórcios agrossilvipastoris: é usada na arborização de pastos (o gado e os equinos comem frutos e folhagem, sobretudo na seca) e, na Bolívia, é recomendada para cortinas quebra-ventos, com mudas espaçadas de 3 a 5 m. Há também programa de melhoramento genético em curso: a partir de 200 árvores candidatas foram selecionadas 60 superiores, com ganhos médios de 30,85% em altura e 21,90% em diâmetro de copa.
O crescimento é rápido. Em Rolândia (PR), estimou-se uma produção volumétrica de até 31 m³ por hectare ao ano aos 8 anos de idade, com fator de forma de 0,49.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 800 mm, no Ceará, a 2.500 mm, em Pernambuco, com chuvas periódicas e deficiência hídrica que varia de pequena a forte conforme a região. A temperatura média anual fica entre 17,9 ºC (Franca, SP) e 26,7 ºC (Itaituba, PA); a média do mês mais frio entre 15,3 ºC e 25,8 ºC e a do mês mais quente entre 19,7 ºC e 29 ºC, com mínima absoluta de -2,2 ºC (Uberaba, MG). As geadas vão de ausentes, no Norte, a até três por ano no Sul-Sudeste. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am, As, Aw, Cfa, Cwa e Cwb.
É uma espécie calcífila, característica e indicadora de solos mesotróficos, mas pouco exigente, ocupando tanto sítios secos quanto úmidos, em especial os de textura arenosa; é mais frequente onde o pH supera 5,5. Na América Central, foi plantada com boa sobrevivência mesmo em terrenos com pedras soltas na superfície. Adapta-se a solos compactos, embora com desenvolvimento lento, e é sensível à competição com plantas invasoras, não se dando bem em solos muito compactados ou muito argilosos. A inundação temporária do local de plantio pode causar morte regressiva do ápice, sem chegar a matar a árvore.