Foto: Roberto Fiadone (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Murta
Blepharocalyx salicifolius
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: maria-preta, murtinha, guamirim, guruçuca, pitanga-da-várzea, vassourinha, cambuí, guabiju, multinha-do-campo, pitangueira-do-banhado, piúna-preta, murteira, guabiroba
Botânica
A murta pertence à família Myrtaceae, ordem Myrtales, e foi descrita por Humboldt, Bonpland e Kunth. Recebeu o nome científico Blepharocalyx salicifolius, publicado em Linnaea, em 1856. A espécie acumula uma sinonímia botânica extensa, entre cujos nomes mais comuns na literatura estão Blepharocalyx gigantea, Blepharocalyx lanceolatus, Blepharocalyx suaveolens e Blepharocalyx tweediei var. longipes. O nome do gênero une o grego blepharis (pestana) ao latim calyx (cálice), em referência às sépalas externas, cujas margens superiores apresentam pelos semelhantes a pestanas. Já o epíteto salicifolius alude ao salgueiro (Salix), pois os ramos terminais finos, flexíveis e pendentes lembram os dessa árvore.
Pode se apresentar desde um arbusto entouceirado até uma árvore perenifólia. No Brasil, os maiores exemplares chegam perto de 20 m de altura e 40 cm de DAP na fase adulta, mas na Argentina a espécie atinge até 40 m de altura e 150 cm de DAP. O tronco costuma ser reto e cilíndrico, com fuste de até 6 m. A ramificação é tortuosa e grossa no início, com raminhos terminais delgados e pendentes ao estilo do salgueiro, formando uma copa ampla e bem densa. A casca alcança até 20 mm de espessura, é de cor marrom-escura e densamente fissurada no sentido do comprimento, lembrando a do cinamomo (Melia azedarach), da qual se diferencia pelas fissuras mais profundas, e também a da batinga (Eugenia rostrifolia). As folhas são cartáceas, elípticas a estreitamente elípticas, de 1,5 a 7 cm de comprimento por 0,4 a 2,5 cm de largura, de pubérulas a glabras, com ápice acuminado e mucronado e base cuneada; o pecíolo mede de 0,3 a 0,5 cm. O tamanho e o formato das folhas variam bastante conforme a região. As inflorescências são dicásios axilares ou terminais, simples ou compostos, menores que as folhas, de 3 a 6 cm, reunindo de 3 a 7 flores, sendo séssil a do centro. As flores são pequenas, perfumadas, de pétalas brancas e muitos estames diminutos. O fruto é uma baga globosa de cor púrpura-escura, de 5 a 6 mm de diâmetro, coroada por uma cicatriz quadrangular, e guarda de 1 a 4 sementes (média de 1,64). A semente é reniforme e mede de 4 a 5 mm.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,71 a 0,82 g/cm³ e massa específica básica de 0,515 g/cm³), de cor branco-escura, textura média e grã direita. Tende a rachar com facilidade durante a secagem, tem resistência mediana e boa durabilidade. É aproveitada em serraria e em peças roliças para obras internas e externas e tabuados em geral. Para fins energéticos é muito valorizada como lenha e carvão, sendo indicada para florestas energéticas voltadas ao abastecimento de caldeiras industriais; o carvão tem poder calorífico de 7.047 kcal/kg. Para celulose e papel, porém, não é adequada, já que as fibras medem 0,97 mm e o teor de lignina com cinzas é de 34,16%. A planta contém diversos compostos fitoquímicos — flavonoides, triterpenos, compostos fenólicos, taninos e antocianinas distribuídos entre folhas, frutos, caule, raiz e casca — e produz óleo essencial rico em cineol, com rendimento de 0,17%. Na medicina popular, é empregada contra o câncer e como reguladora da pressão arterial, além de indicada para tosses, bronquites, reumatismo, artrite, psoríase, hemorroidas, sinusites, contusões e entorses.
Em termos sucessionais, é uma espécie secundária tardia ou clímax exigente em luz, encontrada no interior e nas bordas de ambientes ripários. No bioma Mata Atlântica, aparece na Floresta Estacional Decidual (formação Submontana) no Rio Grande do Sul, na Floresta Estacional Semidecidual (formações Montana e Alto-Montana) em Minas Gerais, na Floresta Ombrófila Densa (Alto-Montana) no Paraná e na Floresta Ombrófila Mista, ou Floresta de Araucária (formações Aluvial e Montana), no Paraná e no Rio Grande do Sul, onde chega a 3 a 58 indivíduos por hectare, além de áreas de restinga no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. No Cerrado, ocupa o cerrado lato sensu em Goiás e no Distrito Federal e o cerradão em São Paulo, Goiás e Distrito Federal, onde é muito frequente, sobretudo no cerradão distrófico. No bioma Pampa, surge em estepes e campos do Rio Grande do Sul. Aparece ainda em ambientes ripários, campos de murundu (Uberlândia, MG), campos rupestres mineiros, carrasco e florestas de brejo e turfosas em São Paulo.
A floração varia conforme a região: de julho a novembro em Minas Gerais; de agosto a dezembro em São Paulo; de setembro a outubro no Distrito Federal e em Goiás; em outubro no Rio de Janeiro; de outubro a dezembro em Santa Catarina; de outubro a fevereiro no Paraná; e de dezembro a janeiro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de novembro a abril em São Paulo, de dezembro a maio no Paraná, em janeiro em Santa Catarina e de março a maio no Rio Grande do Sul.
A espécie é monoica e a polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é zoocórica, realizada principalmente por aves e pelo lagarto-teiú (Tupinambis teguixin). Por terem frutos muito apreciados pelos pássaros, é uma planta atrativa para a fauna.
Plantio e silvicultura
Os frutos são colhidos diretamente da árvore, com escada e podão, quando começam a mudar de cor. Para o beneficiamento, esfregam-se os frutos em peneiras de malha adequada sob água corrente, a fim de remover a polpa, secando-se em seguida as sementes à sombra, em local arejado. O despolpamento é importante, pois as sementes limpas germinam mais de 80%, quase o dobro do que ocorre quando se semeia o fruto inteiro. Cada quilo reúne de 55.000 a 64.257 sementes. Não é preciso tratamento pré-germinativo. A semente é recalcitrante e começa a perder a capacidade de germinar de 15 a 20 dias após a colheita, não tolerando armazenamento prolongado. Em laboratório, recomenda-se germinar a 25 ºC, em substrato de vermiculita.
A semeadura é feita em sementeiras com vermiculita como substrato, e a repicagem deve ocorrer de 5 a 7 semanas depois, para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa de 30 a 50 dias após a semeadura, com poder germinativo bastante variável, entre 24,8% e 83%.
Trata-se de uma espécie heliófila que suporta baixas temperaturas. Seu hábito é variável: há indivíduos de fuste retilíneo e crescimento monopodial e outros de tronco irregular, levemente tortuoso e com bifurcações. É recomendada para plantio misto, a pleno sol. No Sul do Brasil, é tradicionalmente cultivada no sistema agroflorestal de Faxinal.
Existem poucos dados sobre o crescimento da murta em plantios.
A precipitação média anual vai de 830 mm, na Chapada Diamantina (BA), a 2.200 mm, em São Paulo, com chuvas bem distribuídas na Região Sul e regime periódico nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula na Região Sul (exceto no sul do Rio Grande do Sul) e varia de pequena a forte conforme a região e a estação. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 21,9 ºC (Uberaba, MG), e a mínima absoluta registrada foi de -10,4 ºC (Caçador, SC), podendo chegar a -17 ºC sobre a relva. A espécie tolera de 0 a 30 geadas por ano, com máximo de 81 no Planalto Sul-Brasileiro e em Campos do Jordão (SP), região onde pode até nevar. Ocorre em climas de Köppen Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente em litossolos, em solos úmidos e compactos, de aclive suave e drenagem bastante lenta.