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Foto de Murici

Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF

Murici

Byrsonima sericea

Malpighiaceae Mata AtlânticaCerradoCaatinga
  • até 21,5 mAltura
  • Grande portePorte
Raras / ameaçadasFrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: murici-vermelho, murici-da-fruta-miúda, murici-pitanga, murici-da-mata, murici-do-porco, murici-de-mata, pau-de-curtir, capixingui, murici-penima, murici-do-brejo, murici-das-capoeiras, murici-miúdo, fruta-de-perdiz, mantimento-de-pobre, muriúba, murixi, buricí, pau-de-semana

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, ao clado das Eurosídeas I, à ordem Malpighiales (classificada como Polygalales no sistema de Cronquist), à família Malpighiaceae e ao gênero Byrsonima. A espécie, descrita por A. DC., reúne diversos sinônimos botânicos, entre os mais citados Byrsonima brasiliensis Griseb., Byrsonima chrysophylla Mart. e Malpighia rutilans Salzm. O nome do gênero deriva do grego burseus (couro curtido ou corrosivo) somado a onímeni (ser útil), aludindo ao emprego da planta em curtumes; o epíteto sericea remete aos pelos sedosos da face inferior da folha. Já o nome popular murici vem do tupi mborici, que significa "faz resinar".

Descrição botânica

Trata-se de uma arvoreta ramosa ou escandente, podendo chegar a árvore perenifólia. Os exemplares de maior porte alcançam por volta de 21,5 m de altura e 70 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) na fase adulta; em ambiente de restinga, porém, não passa de um pequeno arbusto de cerca de 3 m. O tronco é razoavelmente reto, com fuste curto que raramente ultrapassa 5 m. A ramificação é dicotômica e a copa, ovalada e densa, atinge até 7 m de diâmetro. A casca chega a 10 mm de espessura, com superfície externa (ritidoma) áspera e tom castanho-acinzentado. As folhas são simples, opostas, de textura cartácea e formato elíptico-lanceolado, brilhantes na face superior e revestidas de pelos áureo-brunos na inferior, medindo de 6,5 a 13,5 cm de comprimento por 2 a 5,5 cm de largura, com pecíolo de 5 a 15 mm. As inflorescências formam racemos axilares ou terminais de 4 a 12 cm, sustentados por pedúnculo de 15 a 25 mm; cada uma reúne normalmente de 40 a 50 flores, mas só uma pequena fração (em geral 10% ou menos) chega a frutificar. As flores são hermafroditas e zigomorfas, com corola amarela de pétalas unguiculadas — a superior modificada em estandarte — e cálice de cinco sépalas dotadas de dez glândulas produtoras de óleo (elaióforos), que em alguns indivíduos estão ausentes. O fruto é uma drupa esférica, trilocular, de polpa carnosa e coloração verde mesmo quando madura, medindo cerca de 0,65 por 0,86 cm e pesando aproximadamente 0,50 g. A semente é pequena, com endocarpo lignificado.

Uso e ecologia
alimentícioapícolamedicinalmadeireiropaisagismorecuperação de áreas
Produtos e utilizações

Os frutos têm grande importância alimentar: além de consumidos in natura, rendem sucos, sorvetes, geleias, licores e doces. Amassados em água, liberam uma massa carnosa que, dissolvida e misturada à farinha (adoçada ou não), dá origem à conhecida "cambica de murici" ou "sambereba", preparo rico em vitaminas, gorduras e de alto valor nutritivo; diluída e sem farinha, vira um refresco apreciado. Pela fartura e pelo valor nutricional, a planta ganhou o apelido de "mantimento de pobre". A espécie é melífera, produzindo néctar e pólen. Na medicina popular rural, todas as partes da planta são empregadas no tratamento de diversas enfermidades; o chá das folhas combate diarreias e infecções intestinais e protege a mucosa do intestino. A casca contém de 15% a 20% de tanino. A madeira é moderadamente densa (0,71 a 0,78 g/cm³), com alburno pouco distinto do cerne, grã revessa e textura média; é muito suscetível ao apodrecimento, mas resiste bem ao ataque de cupins. Presta-se a usos internos na construção civil — caibros, vigas, ripas, assoalhos e marcos de portas e janelas — e à fabricação de móveis, além de lenha e carvão (teor de cinzas de 1,23% e poder calorífico de 18.082,7 kJ/kg). Não é adequada para celulose e papel.

Aspectos ecológicos

Classificada como pioneira a secundária inicial, é uma espécie comum e em geral abundante, embora sua distribuição ao longo da área de ocorrência seja bastante descontínua. Tem preferência por capoeiras e pelas bordas de florestas e capões. Aparece no bioma Mata Atlântica, na Floresta Estacional Semidecidual (formações de Terras Baixas em Pernambuco e Submontana em Minas Gerais, com até 42 indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (formações de Terras Baixas, Submontana e Montana, em Alagoas, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e Sergipe) e na vegetação de restinga (Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e Sergipe). No Cerrado, está presente no cerrado stricto sensu (Bahia, Ceará, Distrito Federal e Minas Gerais) e no cerradão (Ceará, Minas Gerais e Piauí, de 0 a 40 indivíduos por hectare). Na Caatinga, ocorre em Minas Gerais. Também é encontrada em ambientes fluviais ou ripários (Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais e Paraíba) e em brejos de altitude do Nordeste (Paraíba e Pernambuco).

Floração e frutificação

A floração ocorre de setembro a novembro em Minas Gerais, de setembro a abril em Pernambuco, de outubro a fevereiro no Ceará, de novembro a dezembro em Sergipe, de dezembro a janeiro na Paraíba e no Piauí, e de dezembro a março na Bahia. Os frutos amadurecem de fevereiro a maio no Ceará e em Pernambuco e de março a abril na Bahia, em Minas Gerais e no Piauí.

Fauna associada

Espécie hermafrodita e xenógama: apesar de autocompatível, predomina a polinização cruzada. A polinização cabe sobretudo a abelhas — coletoras de óleo e pólen das famílias Anthophoridae (Centris caxiensis) e, somente de pólen, Apidae (Melipona scutellaris), Mellitidae e Halictidae (Augochloropsis aff. crassigena), com eficiência de 40% a 80%. A dispersão é marcadamente zoocórica, principalmente pela avifauna; a presença de porcos influencia a distribuição das sementes, e por isso a planta é mais frequente em áreas povoadas. Em fragmentos florestais de Recife (PE), foram observados saguis (Callithrix spp.) alimentando-se das drupas e formigas saúvas carregando os frutos maduros caídos no chão.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair naturalmente, ou recolhidos do chão logo após a queda. Em seguida, são amontoados em sacos plásticos até a polpa se decompor parcialmente, o que facilita extrair a semente por lavagem em água corrente. Cada quilo reúne cerca de 6.500 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo e conservam a viabilidade por até um ano.

Produção de mudas

Recomenda-se semear de uma a duas sementes ou o caroço em saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno. A repicagem deve ocorrer quando as mudas alcançarem de 5 a 6 cm de altura. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 34 e 99 dias após a semeadura e poder germinativo irregular, de 18% a 100%.

Características silviculturais

A espécie vai de heliófila a esciófila e não tolera baixas temperaturas. O hábito é variável e irregular, sem dominância apical definida, e como não faz derrama natural exige podas de condução e de galhos de modo periódico e frequente. Pode ser plantada em consórcio misto, a pleno sol, junto a espécies pioneiras ou secundárias iniciais, e rebrota da touça. Consta da lista de espécies da flora paulista ameaçadas de extinção, na categoria em perigo.

Crescimento e produção

Não há dados sobre o desempenho em plantios, mas o crescimento é considerado lento.

Clima

A precipitação média anual varia de 650 mm a 2.500 mm (ambos os extremos registrados em Pernambuco), com chuvas uniformes ou periódicas na faixa costeira de Alagoas, Bahia e Pernambuco e periódicas nos demais locais. A deficiência hídrica vai de nula a forte conforme a região. A temperatura média anual fica entre 19,6 ºC (Machado, MG) e 26,6 ºC (Fortaleza, CE), com mínima absoluta de -1,4 ºC em Machado (MG); geadas são ausentes na maior parte da área de ocorrência e raras no sul de Minas Gerais e em São Paulo. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af, Am, As, Aw, Cwa e Cwb.

Solos

Ocorre naturalmente em solos arenosos dos tabuleiros nordestinos, mas também aparece em terrenos argilosos e de alta fertilidade química.