Foto: Gonzalo Roget (CC BY) via GBIF
Muquém
Albizia inundata
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: biguazeiro, bigueiro, canafístula, canafístula-de-boi, timbó-branco
Botânica
Pelo sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), o muquém pertence à família Fabaceae, subfamília Mimosoideae, ordem Fabales, no clado das eurosídeas I. Seu nome científico válido é Albizia inundata (Mart.) Barneby & J. W. Grimes, publicado pela primeira vez em 1996. Entre os sinônimos botânicos registrados estão Albizia polyantha, Acacia inundata, Acacia poliantha e Arthrosamanea polyantha. O nome do gênero homenageia Filipe de Albizzi, nobre florentino do século 18 em cujo jardim a primeira espécie do grupo foi descrita, a partir de exemplares trazidos das matas ao sul do Mar Cáspio, no Irã. Já o epíteto inundata faz referência ao hábito da planta de crescer em várzeas que alagam periodicamente.
Árvore perenifólia (sempre-verde): mesmo após estiagens prolongadas, assim que perde as folhas já emite folhagem nova. Os exemplares adultos de maior porte alcançam cerca de 15 m de altura e até 60 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é aproximadamente reto e cilíndrico, com fuste em geral curto, de no máximo 5 m. A ramificação é dicotômica e a copa, arredondada. A casca chega a 5 mm de espessura, sendo a parte externa quase lisa e de tom verde-acinzentado a marrom-acinzentado. As folhas são compostas bipinadas, reunindo de 1 a 4 pares de pinas opostas, cada uma com 6 a 13 pares de folíolos opostos, oblongos, glabros, membranáceos e macios, com cerca de 2 cm de comprimento e aroma agradável que transmite ao tato uma sensação de frescor. As flores, pequenas e de cor branca a amarela, surgem em capítulos globosos de pedúnculo curto, agrupados em panículas terminais. O fruto é um criptolomento deiscente, geralmente reto, achatado, apiculado, de textura fina e coriácea, rugoso e marrom-escuro, medindo de 6 a 15 cm de comprimento por 1,3 a 1,5 cm de largura. As sementes vêm envoltas por uma polpa escura e brilhante, de cheiro adocicado e enjoativo, com efeito laxativo.
Uso e ecologia
No Nordeste, o muquém figura entre as forrageiras mais valiosas, pois tanto a rama quanto as vagens são nutritivas e bem aceitas pelos animais. A madeira é moderadamente densa (cerca de 0,65 g/cm³), de textura média, grã direita e coloração acastanhada, com alburno e cerne pouco distintos; por ter baixa resistência, é pouco durável. Costuma ser usada em obras internas, construção civil, marcenaria leve e entalhe, forros, tábuas de divisória e caixotaria. O cepo serve a barbeiros para afiar navalhas, e o tronco é aproveitado na confecção de coxos e gamelas. Não é adequada para celulose e papel, mas produz lenha e carvão de boa qualidade — embora no sertão cearense haja a crença de que sua fumaça causaria cegueira. Na medicina popular, o cozimento e a infusão da casca são empregados em banhos e lavagens adstringentes, e o macerado de raízes, brotos ou sementes é usado por vaqueiros para tratar pisaduras e mordidas de morcego em cavalos. Vale lembrar que esses registros de uso medicinal são apenas factuais e não devem orientar prescrições ou substituir cuidados médicos.
Trata-se de uma espécie pioneira, típica e exclusiva de ambientes fluviais e ripários (matas ciliares), comum nos trechos alagáveis (várzeas) e nas margens dos rios do sertão. Tem ampla distribuição, porém bastante descontínua, e aparece sobretudo em capoeiras e capoeirões. Na Caatinga, ocorre na savana-estépica do semiárido em Pernambuco e na floresta estacional decidual no Ceará. No Pantanal, é encontrada em mata inundável no Mato Grosso e no Pantanal Mato-Grossense, no Mato Grosso do Sul. Aparece ainda em floresta estacional semidecidual aluvial no Mato Grosso do Sul, com densidade de até 19 indivíduos por hectare.
A floração vai de agosto a novembro no Ceará e de setembro a outubro no Mato Grosso do Sul. A frutificação ocorre de novembro a janeiro no Ceará.
Planta hermafrodita, é polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, sobretudo barocórica (por ação da gravidade). Tem grande potencial melífero, fornecendo néctar e pólen de boa qualidade.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a abrir sozinhos. Em seguida, são expostos ao sol por alguns dias até a abertura completa e a liberação das sementes. Cada semente vem dentro de um pequeno "envelope", e esse conjunto já pode ser usado na semeadura, pois extrair a semente verdadeira de seu interior é muito trabalhoso. Há cerca de 890 sementes por quilo. Não é necessário tratamento pré-germinativo, e as sementes apresentam comportamento fisiológico ortodoxo no armazenamento.
As sementes podem ser plantadas diretamente no local definitivo, sem necessidade de produção prévia de mudas; uma vez enraizadas, as plantas raramente morrem e resistem bem às secas mais severas. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência ocorre de 7 a 14 dias após a semeadura, em geral com alta taxa de germinação. A espécie associa-se a bactérias do gênero Rhizobium, formando nódulos abundantes.
Espécie heliófila, não tolera baixas temperaturas. Seu hábito é variável e costuma ser irregular, com perda de dominância apical e bifurcação desde a base ou formação de galhos grossos, embora ocorra também a forma monopódica; há desrama natural. Recomenda-se o plantio misto, e a planta também se multiplica por brotação de raízes. Em sistemas agroflorestais, presta-se à formação de quebra-ventos, faixas arbóreas entre lavouras e pastagens arborizadas, inclusive em áreas que alagam ou encharcam durante parte do ano.
Há poucos dados sobre o desempenho da espécie em plantios, mas o crescimento é considerado lento.
A precipitação média anual varia de 600 mm, em Pernambuco, a 1.600 mm, no Mato Grosso, com chuvas periódicas e forte deficiência hídrica no Nordeste e no Pantanal Mato-Grossense. A temperatura média anual fica entre 25 °C (Corumbá, MS) e 26,5 °C (Floresta, PE); no mês mais frio varia de 21,1 °C a 24,1 °C e, no mais quente, de 27,2 °C a 27,7 °C. A mínima absoluta registrada foi de 1,4 °C, em Corumbá (MS). Não ocorrem geadas. Pela classificação de Köppen, o clima é BShw' (semiárido quente) no Ceará e em Pernambuco e Aw (tropical com inverno seco) no Mato Grosso do Sul.
Prefere terrenos argilosos de beira de rio e várzeas que alagam periodicamente, além de chapadões de barro vermelho e solos areno-argilosos de baixios frescos.