Mororó
Bauhinia cheilantha
- até 7,80 mAltura
- Pequeno portePorte
Também conhecida como: unha-de-boi, unha-de-vaca, miroró, mororó-verdadeiro, pata-de-vaca
Botânica
Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à família Fabaceae (denominada Leguminosae em Cronquist), subfamília Cercideae, gênero Bauhinia. A espécie é Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud., tendo Pauletia cheilantha Bong. como sinônimo botânico. O nome do gênero foi dado por Linnaeus em homenagem aos irmãos Jean e Gaspard Bauhin, médicos e botânicos suíços do século 16 — uma escolha apropriada, já que as folhas dessas plantas são formadas por dois folíolos unidos na base. A origem do epíteto cheilantha é desconhecida. Já o nome popular mororó deriva de moró (nutrir) e rô (produzir), em referência às folhas, que servem de alimento.
Planta decídua de hábito que vai do arbusto à árvore, alcançando nos exemplares maiores cerca de 7,80 m de altura e 30 cm de DAP na fase adulta. O tronco é irregular, com fuste muito curto ou inexistente, já que a planta costuma se bifurcar desde a base. A ramificação é dicotômica, com copa pouco densa de ramos curtos; os mais novos são flexuosos e cobertos por pelos ferrugíneos. A casca chega a 0,68 cm de espessura, sendo a externa fibrosa, de tom castanho-claro-acinzentado e levemente rugosa. As folhas parecem simples, mas na realidade reúnem dois folíolos parcialmente fundidos até cerca de 1/3 do comprimento ou pouco abaixo do meio; o pecíolo, piloso e de coloração rufa, mede de 1,5 cm a 3 cm e é dilatado nas extremidades como pulvinos. A lâmina tem de 8 cm a 12 cm tanto de comprimento quanto de largura (às vezes maior em ramos jovens), com face superior verde-fosca e face inferior pilosa, esbranquiçada quando jovem e ferrugínea na maturidade, de margem inteira. As inflorescências surgem em racemos terminais de até 20 cm. As flores são hermafroditas, brancas, com até 8 cm; os botões florais, clavados e sulcados, medem de 3,5 cm a 6 cm. O fruto é um legume samaroide castanho de leve pilosidade, com valvas torcidas em mais de uma volta, medindo de 10 cm a 15 cm por 1,2 cm a 1,8 cm e contendo de 13 a 19 sementes, das quais várias abortam no fruto maduro. As sementes são obovadas a oblongas, planas ou ligeiramente convexas, com 3 mm a 8,2 mm de comprimento, 4,3 mm a 5,9 mm de largura e 1,6 mm a 2,5 mm de espessura; o tegumento é castanho-escuro, levemente brilhante e córneo, e o hilo basal aparece em forma de ferradura aberta.
Uso e ecologia
Madeira moderadamente densa (0,66 g/cm³ a 15% de umidade), de coloração castanho-clara e resistente à decomposição. Tem uso restrito na construção de cercas, apriscos, currais e pequenas edificações rurais, além de servir como lenha e carvão. Não é adequada para celulose e papel. O mororó é uma das melhores forrageiras da Caatinga: muito palatável, é apreciada por bovinos e caprinos, que consomem desde plântulas até folhas, flores e frutos; presta-se à produção de feno na seca e oferece bom aporte proteico quando bem manejada. Seu valor nutritivo varia com a fase fenológica, sendo maior na fase vegetativa, com teor de proteína bruta de 9,7% a 20,7% e de tanino de 3,67% a 12,2%. Em uma pesquisa com 32 produtores rurais da região de Xingó (Alagoas, Bahia e Sergipe), 31 apontaram a espécie como apreciada pelos caprinos. Na medicina popular, a casca é usada como adstringente e peitoral, as folhas como diuréticas e as flores como purgativas, sendo a planta também empregada no controle do diabetes e do colesterol alto — efeitos geralmente associados aos compostos fenólicos (sobretudo flavonoides) de suas folhas.
Espécie pioneira e endêmica da Caatinga, onde se distribui amplamente e integra o banco de sementes do solo. Aparece na Savana-Estépica (Caatinga do Sertão Árido) em Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, com densidade de até 408 indivíduos por hectare. Também ocorre no Cerrado (savana stricto sensu, no Piauí) e na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Decidual (Terras Baixas no Rio Grande do Norte e Submontana no norte de Minas Gerais) e Semidecidual (Montana, na Paraíba). É ainda encontrada em áreas de tensão ecológica entre Caatinga e Floresta Estacional Decidual no Sertão de Canudos (BA), em brejos de altitude nordestinos da Paraíba e de Pernambuco (até 140 indivíduos por hectare), em carrascos do Ceará e do Piauí e em inselbergues da Paraíba.
A floração ocorre de outubro a dezembro, no Ceará, e de fevereiro a março, em Alagoas. Os frutos amadurecem em dezembro, em Sergipe; de fevereiro a abril, em Pernambuco; e de maio a junho, em Alagoas.
As flores fornecem néctar e pólen às abelhas mamangavas (Xylocopa spp.), responsáveis pela polinização. A dispersão é autocórica, sobretudo barocórica: o fruto apresenta deiscência explosiva e violenta, arremessando as sementes para longe da planta-mãe.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando passam do verde para o marrom-acinzentado; acompanhar a maturação fisiológica é importante para conhecer o período de viabilidade das sementes. Como a deiscência é explosiva, as sementes são arremessadas a grande distância quando os frutos atingem o ponto ideal, de modo que a colheita deve ser antecipada — basta uma leve pressão dos dedos para abrir a vagem e extrair as sementes manualmente, ou expor os frutos colhidos ao sol até que se abram. Há cerca de 3.200 sementes por quilo. Embora o tegumento não seja impermeável e permita germinação sem tratamento prévio, a maioria das sementes responde melhor a algum tratamento: sementes recém-colhidas apresentam dormência tegumentar que pode ser quebrada por escarificação mecânica com lixa d'água ou química (imersão em ácido sulfúrico p.a.). O comportamento fisiológico é ortodoxo, mantendo a viabilidade por mais de um ano em ambiente não controlado; armazenadas por 10 meses em câmara fria e seca (19 °C e 65% UR), as sementes tiveram a viabilidade aumentada, com germinação de 76% a 97%. A temperatura de 25 ºC é a mais indicada para a germinação em laboratório.
Recomenda-se semear duas sementes por saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura e 75 cm de diâmetro, ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando necessária, a repicagem é feita de 2 a 4 semanas após o início da germinação, e as plântulas formam um sistema radicular vigoroso. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa de 2 a 35 dias após a semeadura. O poder germinativo foi de 37% sem tratamento e de 89% com tratamento pré-germinativo. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio cerca de 5 meses após a semeadura. As raízes não nodulam em associação com bactérias do gênero Rhizobium. A espécie também se propaga com facilidade por estacas de brotações de raízes e de cepas.
Espécie heliófila e sensível ao frio. Tem hábito irregular, muito bifurcado, com ramificação pesada e sem dominância apical definida; não faz derrama natural, exigindo podas de condução e de galhos. Pode ser plantada a pleno sol, em plantio misto, sobre vegetação secundária e em linhas. Por ser um arbusto espinhoso na fase adulta, é recomendada para cercas vivas em sistemas agroflorestais.
Há poucos dados sobre o desempenho do mororó em plantios, mas seu crescimento é lento.
A precipitação média anual varia de 260 mm, em Cabaceiras (PB), a 1.400 mm, em Pernambuco, sob regime de chuvas periódicas, com deficiência hídrica forte no norte de Minas Gerais e de forte a muito forte durante quase todo o ano no interior do Nordeste. A temperatura média anual fica entre 21 ºC (Triunfo, PE) e 27,6 ºC (Serra Negra do Norte, RN); a do mês mais frio, entre 18,4 ºC e 25,9 ºC, e a do mês mais quente, entre 23,3 ºC e 29,2 ºC nas mesmas localidades. A mínima absoluta registrada foi de 6,5 ºC, em Montes Claros (MG), em 30 de junho de 1979. Geadas estão ausentes na área de ocorrência natural. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos As (tropical com verão seco), Aw (tropical com inverno seco) e Bsh (semiárido quente).
Sendo uma planta xerófila, o mororó tolera solos pedregosos de textura tanto argilosa quanto arenosa. Seu melhor desenvolvimento, porém, foi observado em solos férteis e argilosos, ainda que com pedras, cujo pH varia de 5,9 a 6,9.