Foto: Luis Rubio-Yépez (CC BY) via GBIF
Monjoleiro
Acacia polyphylla DC.
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: espinheiro-preto, espinheiro-vermelho, espinheiro, minjoleiro, angico-branco, arranha-gato, maricá, munjolo, gorocaia-com-espinho, monjolo, espera-um-pouco, monjolo-teta-de-porco, monjoleira, monjolo-ferro, angico-monjolo, cauvi-jacaré, gorocaia, gorocalha, gorucaia, monjoleiro-branco, paricá-branco, acácia, acácia-monjolo, angiquinho, fava-de-espinho, juquiri-guaçu, paricarana-de-espinho
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (denominada Leguminosae no sistema de Cronquist) e à subfamília Mimosaceae, a espécie é classificada no gênero Acacia, dentro da ordem Fabales segundo o sistema APG II. Seu nome científico aceito é Acacia polyphylla DC., tendo como sinônimo botânico Senegalia polyphylla (DC.) Britton & Rose. O nome do gênero deriva do grego akakia (espinho), referência aos numerosos acúleos do tronco e dos ramos; já o epíteto polyphylla combina os termos gregos polys (muitos) e phyllon (folha), aludindo à abundância de folhas. A espécie recebe dezenas de nomes regionais no Brasil, variando conforme o estado, e também é conhecida no exterior como cari cari (Bolívia), baranoa (Colômbia), jukeri guasu (Paraguai) e pashaco negro (Peru).
Árvore semidecídua a decídua e provida de espinhos, que perde toda a folhagem na estação seca. Os exemplares adultos maiores alcançam cerca de 15 m de altura e 30 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco varia de reto a tortuoso, recoberto de acúleos, com fuste que chega a 10 m de comprimento. A ramificação é cimosa e a copa, alta e em forma de guarda-chuva, exibe folhagem verde-escura e ramos também aculeados, lembrando a farinha-seca (Albizia niopoides) e o angico-branco (Anadenanthera colubrina var. colubrina). A casca tem espessura de até 1 mm; o ritidoma externo é liso e grisáceo, com aspecto áspero e tonalidade que vai do verde-escuro ao marrom-acinzentado, eventualmente soltando placas longitudinais escuras e exsudando goma em abundância quando ferido. Apresenta lenticelas horizontais, manchas brancas e pequenas cicatrizes, e nos exemplares jovens há acúleos. As folhas são compostas, bipinadas e paripinadas, verde-claras quando jovens e verde-escuras na fase adulta, com duas glândulas arredondadas. Medem de 20 cm a 26 cm de comprimento e têm de 10 a 16 jugas, em geral com 15 a 17 pares de pinas multifolioladas de 6 cm a 8 cm; cada pina reúne de 24 a 36 pares de folíolos lineares, de base assimétrica e ápice apiculado, pilosos no dorso, sésseis e ensiformes. A raque é canaliculada, com caxim na base e uma glândula arredondada logo acima, havendo outra glândula na inserção do último par de pinas. As inflorescências formam espigas capituliformes reunidas em panículas multifloras terminais ou axilares, globosas, de 10 cm a 20 cm de comprimento, com vários capítulos de 1 cm a 1,5 cm de diâmetro e dez flores cada. As flores são pequenas, sésseis, perfumadas e de cor creme a branca. O fruto é um legume oblongo, achatado e coriáceo, de margens levemente espessadas e cor castanha, com 10 cm a 15 cm de comprimento por 2 cm a 3 cm de largura, abrigando de 10 a 15 sementes. As sementes são castanhas, elípticas e achatadas, com 5 mm a 7 mm de diâmetro; exemplares oriundos da Caatinga e do Cerrado apresentaram 2% de poliembrionia.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,74 g/cm³ a 0,79 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno e cerne pouco distintos, de cor branca e listras vermelho-claras, grã direita, textura média, sem brilho nem cheiro perceptível. Trata-se com facilidade por creosoto e por CCA-A, é simples de aplainar e serrar, aceita prego e rende boa superfície ao receber verniz. Não tem aplicação industrial, mas serve para marcenaria, obras internas e trabalhos de torno; seu uso principal, porém, é energético, fornecendo lenha de qualidade e carvão. A madeira também é apta para celulose, com fibras de 0,83 mm de comprimento e teor de lignina com cinzas de 29,08%. A casca, rica em taninos, é usada em curtumes, e nela foram encontrados antraderivados, esteroides e triterpenoides, enquanto o lenho contém cumarina, esteroides e triterpenoides. A forragem da espécie tem bons teores de proteína bruta, a resina é empregada na medicina popular contra a tosse e a árvore tem valor ornamental quando floresce, prestando-se à arborização urbana e rural. A espécie possui grande potencial para recuperar áreas degradadas e restaurar ambientes ripários, inclusive em solos permanentemente encharcados.
Espécie pioneira ou de início de sucessão, secundária inicial ou clímax exigente em luz. O monjoleiro é frequente nas formações secundárias, com presença marcante em todos os estágios sucessionais, surgindo de forma esparsa em pastagens, áreas abandonadas e beiras de estrada. Atua como colonizadora de afloramentos rochosos e encostas de morros, onde forma agrupamentos densos, mas também aparece sobre solos profundos e em clareiras de floresta primária. Não é uma árvore longeva. Está presente na Mata Atlântica (Floresta Estacional Decidual submontana em Goiás e Minas Gerais, com 2 a 261 indivíduos por hectare; Floresta Estacional Semidecidual em Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com 1 a 43 indivíduos por hectare; e Floresta Ombrófila Densa no Rio de Janeiro), na Amazônia (Floresta Ombrófila Aberta no Acre e Floresta Ombrófila Densa submontana no Acre, Amazonas e Pará, com até 12 indivíduos por hectare), no Cerrado (cerrado stricto sensu no Distrito Federal, Minas Gerais e Roraima, e cerradão no Distrito Federal e em São Paulo) e na Caatinga (Savana-Estépica na região de Jaíba, MG). Também ocorre em ambientes fluviais e ripários no Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e São Paulo.
A floração acontece de dezembro a abril em São Paulo, de janeiro a abril em Santa Catarina, de janeiro a fevereiro no Paraná e de fevereiro a março em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de março a maio no Paraná, de março a agosto em Minas Gerais, em junho em Santa Catarina, de agosto a setembro em São Paulo e de agosto a outubro no Acre. A reprodução começa cedo, já aos 2 anos de idade.
Espécie monóica. A polinização é feita por mariposas, borboletas e abelhas, com destaque para a abelha europeia ou africanizada (Apis mellifera), e as flores melíferas produzem néctar. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, ocorrendo tanto por gravidade (barocoria) quanto pelo vento (anemocoria).
Plantio e silvicultura
A árvore produz anualmente grande quantidade de sementes, o que assegura boa regeneração natural. Os frutos devem ser coletados diretamente da planta quando começam a abrir espontaneamente e, em seguida, deixados expostos para que liberem as sementes por conta própria. Cada quilo reúne cerca de 9.600 sementes. Não é necessário tratamento pré-germinativo, mas convém imergir as sementes em água fria por 2 horas antes da semeadura, para tornar a germinação mais rápida e uniforme. As sementes têm comportamento ortodoxo: nas condições naturais de laboratório, passam a perder viabilidade após 8 meses, mas, guardadas em saco de papel ou frasco de vidro em câmara fria a 5 ºC, mantêm-se viáveis por até 14 meses, sobretudo no recipiente de vidro. Lotes com 58% de germinação inicial, secos e armazenados a 5 ºC e a -18 ºC, alcançaram, respectivamente, 64% e 66% de germinação.
Recomenda-se semear em sementeiras, com posterior repicagem, ou diretamente em sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio; a repicagem é feita quando as plântulas atingem de 3 cm a 5 cm de altura. A germinação é epígea-foliácea (fanerocotiledonar), inicia-se de 3 a 10 dias após a semeadura e costuma render de 55% a 95% de poder germinativo, com as mudas chegando ao tamanho de plantio cerca de 4 meses após a semeadura. As plantas novas pegam bem no campo. As mudas permanecem sob cobertura (sombrite em estufa ou nos canteiros) por cerca de 30 dias; depois, a cobertura é retirada e elas ficam a pleno sol. Não se observou formação de nódulos radiculares no campo nem no viveiro. Na propagação vegetativa, a enxertia por garfagem em fenda cheia, usando ramos ponteiros do próprio porta-enxerto, alcançou 100% de pegamento.
Espécie heliófila, que exige luz abundante para regenerar. Seu hábito é irregular, com tendência ao acamamento do caule e a bifurcações desde a base, além de desrama natural deficiente, o que torna necessária a poda de condução e de galhos. Por apresentar bom desempenho, recomenda-se o plantio puro a pleno sol; a espécie também rebrota da touça ou cepa. Em sistemas agroflorestais, é bastante utilizada como árvore de sombra.
O monjoleiro cresce rapidamente, podendo render produção volumétrica de até 17 m³/ha/ano aos 10 anos de idade. Em plantios, registraram-se aos 10 anos altura média de 15,06 m e DAP de 13,0 cm (espaçamento 3 x 2 m, em Dois Vizinhos, PR); aos 5 anos, 10,32 m de altura e 15,5 cm de DAP (1,5 x 1,5 m, em Rio Branco, AC); e ao 1 ano, 4,67 m de altura e 6,7 cm de DAP (3 x 1,5 m, em Ilha Solteira, SP).
A precipitação média anual varia de 900 mm, em Minas Gerais, a 2.500 mm, em Roraima, podendo chegar a 2.750 mm no Acre, sob regime de chuvas periódicas. A deficiência hídrica vai de pequena a forte conforme a região, sendo forte no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila de 19,9 ºC (Monte Belo, MG) a 26,2 ºC (Tefé, AM); a média do mês mais frio fica entre 16,1 ºC (Londrina, PR) e 25,8 ºC (Tefé, AM), e a do mês mais quente entre 22,5 ºC (Brasília, DF) e 26,6 ºC (Tefé, AM). A mínima absoluta registrada foi de -3,5 ºC (Londrina, PR). Ocorrem em média de 0 a 3 geadas por ano, com máximo de sete no Paraná, mas predominam locais sem geadas ou com geadas raras. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am, As, Aw, Cfa, Cwa, Cwb e Bshw.
Cresce naturalmente em solos variados, tanto férteis quanto pobres, mas não tolera terrenos encharcados. No Distrito Federal, a distribuição das populações está associada a solos florestais, especialmente os ricos em cálcio.