Foto: 葉子 (CC0) via GBIF
Mogno
Swietenia macrophylla
- até 70 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: mogno-brasileiro, aguano, araputanga, cedro-i, cedrorana
Botânica
Pertencente à família Meliaceae (sub-família Swietenioideae), o mogno tem como nome científico Swietenia macrophylla King, descrito originalmente por Hook. f. em 1886. São registrados diversos sinônimos botânicos, entre eles Swietenia candollei Pittier, Swietenia tessmannii Harms, Swietenia krukovii Gleason, Swietenia belizensis Lundell e Swietenia macrophylla var. marabaensis Ledoux & Lobato. O gênero homenageia o médico holandês Gerard van Swieten, enquanto o epíteto macrophylla faz referência ao tamanho avantajado das folhas (literalmente, "folha grande"). Fora do Brasil a espécie recebe nomes como mara (Bolívia), caoba (México e Peru) e orura (Venezuela); no comércio internacional é tratada como mahogany, acajou nos países de língua francesa e caoba nos de língua espanhola.
Árvore que varia de perenifólia a decídua, podendo alcançar cerca de 70 m de altura e 3,50 m de DAP nos exemplares adultos de maior porte — um indivíduo derrubado no sul do Pará chegou a render 25 m³ de madeira. O tronco é ereto, ligeiramente acanalado e sustentado por raízes tabulares (sapopemas) que se expandem de 2 a 3 m na base; o fuste, retilíneo e cilíndrico, pode atingir 27 m sem ramificações. A ramificação é dicotômica e a copa, estreita, exibe folhagem densa de verde intenso, com râmulos cilíndricos, glabros e lenticelados. A casca chega a 25 mm de espessura: por fora é áspera, de cor pardo-avermelhada escura a castanho-clara, com escamas planas separadas por fissuras profundas, e por dentro apresenta tom rosado a avermelhado, de sabor bastante amargo e adstringente; em árvores jovens (por volta dos 6 anos) ela é fina, parda e cheia de lenticelas. As folhas são compostas, paripinadas e dispostas em espiral, medindo de 25 a 45 cm, com 8 a 12 folíolos opostos (às vezes alternos) de 7 a 15 cm por 3,5 a 6 cm, oblongo-elípticos a oblongo-ovados, glabros e fortemente assimétricos na base. As inflorescências são tirsos axilares densos e piramidados de 15 a 25 cm. As flores, unissexuais porém reunidas na mesma inflorescência, são actinomorfas e medem de 6 a 8 mm; as masculinas, mais numerosas e perfumadas, e as femininas, semelhantes mas com anteras minúsculas e estéreis. O fruto é uma cápsula lenhosa e ovoide de 10 a 22 cm de comprimento por 6 a 10 cm de largura, ereta, de coloração marrom e deiscência septífraga, com uma robusta coluna central que abriga cerca de 40 sementes. As sementes são aladas, leves, de cor vermelho-pardacenta, com 8 a 25 mm de comprimento, 8 a 10 mm de largura e 3 a 4 mm de espessura (sem a asa).
Uso e ecologia
O mogno é uma das madeiras mais valorizadas do mundo. Moderadamente densa (0,48 a 0,85 g/cm³ a 12-15% de umidade), tem cerne castanho-claro levemente amarelado que escurece para tons castanhos uniformes e intensos, alburno estreito e contrastante de cor branco-amarelada, grã direita a levemente irregular, textura média e uniforme, superfície lustrosa com reflexos dourados e sabor levemente amargo. Apresenta resistência moderada ao apodrecimento e alta a cupins de madeira seca, mas pouca durabilidade em contato com solo úmido; é pouco permeável a preservantes sob pressão, embora muito fácil de trabalhar e de receber acabamento refinado. O lenho varia conforme o habitat: mais duro e compacto em terrenos secos, mais macio em locais úmidos e mais vermelho e duro em capoeiras. Equivalente ao mogno verdadeiro das Antilhas (Swietenia mahagoni), o mogno-brasileiro é empregado em mobiliário de luxo, portas entalhadas, lambris, compensados, painéis, decoração de interiores, esquadrias, folhas faqueadas e laminados, instrumentos científicos de precisão, indústria de aviação e instrumentos musicais, especialmente pianos. No Acre, a casca é aproveitada como tintura de roupas e em curtumes. Atenção: nomes como mogno-africano (gênero Khaya) e mogno-filipino (espécies de Shorea e Parashorea, da família Dipterocarpaceae) designam madeiras de menor qualidade, apenas superficialmente parecidas com o mogno verdadeiro.
Classifica-se como espécie clímax tolerante à sombra, ainda que suas sementes possam germinar no sub-bosque e a planta apareça tanto nos estágios iniciais quanto nos tardios da sucessão da floresta tropical. Trata-se de uma espécie rara: em inventário no Acre, foram encontradas apenas 11 árvores em 1.847 ha. Ocupa o dossel superior ou a posição de emergente em florestas primárias e secundárias avançadas próximas a fontes de semente, e na Costa Rica observou-se regeneração natural tanto em pastagens abandonadas quanto em floresta secundária. No bioma Amazônia ocorre em Floresta Ombrófila Aberta (Acre e Rondônia) e em Floresta Ombrófila Densa de terra firme, onde cresce isolado ou em pequenos grupos — raramente mais de 4 a 8 indivíduos por hectare. No bioma Mata Atlântica está presente na Floresta Estacional Decidual do norte de Tocantins.
A floração ocorre de agosto a setembro no Acre e no Amazonas e de agosto a outubro em Tocantins; quando introduzido em São Paulo, floresce de outubro a janeiro. Os frutos amadurecem de junho a julho no Amazonas, de julho a outubro no Acre e de agosto a setembro em Mato Grosso e no Pará, levando cerca de um ano para se desenvolver. A produção regular de frutos começa por volta dos 15 anos de idade. Em plantios fora da área natural, frutificou de julho a novembro em São Paulo, em agosto no Espírito Santo e em setembro em Minas Gerais.
A polinização é atribuída a abelhas e mariposas, polinizadores comuns das meliáceas, embora ainda não se conheçam com precisão as espécies envolvidas. A dispersão das sementes ocorre principalmente pelo vento, no meio e no fim da estação seca, formando uma chuva de sementes em formato parabólico a partir da árvore-mãe; na Bolívia a distância média foi de 32 a 36 m (máximo de 80 m) e no sul do Pará as sementes podem ser levadas a mais de 1 km pelos ventos fortes do fim da seca. A água também tem papel relevante: na Bolívia, onde o mogno costuma surgir ao longo de antigos cursos de rio, as sementes flutuam e conservam a capacidade de germinar por até 10 dias após a embebição.
Plantio e silvicultura
A produção anual de sementes viáveis é abundante. Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a se abrir espontaneamente e, em seguida, expostos ao sol para liberar as sementes; convém remover a asa para reduzir o volume e facilitar a semeadura. Cada quilo reúne de 1.300 a 2.700 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. As sementes são ortodoxas e toleram a dessecação. Diversos estudos indicam que a viabilidade se conserva melhor sob baixa temperatura e umidade controlada — por exemplo, em câmara seca a 12 ºC e 30% de umidade relativa, ou refrigeradas, situação em que o índice germinativo se manteve acima de 90% após um ano. Em ambiente e embalagens comuns a viabilidade cai rapidamente, sobretudo a 30 ºC. A germinação em laboratório é favorecida por temperatura alternada entre 20 ºC e 30 ºC, independentemente do substrato.
A semeadura pode ser feita com 1 a 2 sementes por saco de polietileno ou tubete grande de polipropileno, a cerca de 1 cm de profundidade para garantir vigor inicial. A repicagem, se necessária, deve ocorrer cerca de um mês depois, quando as plântulas têm 7 a 8 cm, mas é melhor evitá-la por provocar alta mortalidade. A germinação é hipógea (criptocotiledonar) e a emergência começa entre 13 e 86 dias após a semeadura; lavar as sementes em água corrente por dois dias ajuda a remover o pó que as envolve e possíveis inibidores, acelerando a embebição. O poder germinativo de sementes frescas vai de 42% a 98%. As mudas levam cerca de 90 dias para atingir 20 a 30 cm, e o transplante para o campo deve ser feito a partir dos 6 meses. Nos primeiros 2 a 3 meses é essencial manter o solo bem úmido e protegido do sol; o fósforo é provavelmente o nutriente mais limitante para o crescimento das mudas. Quanto à propagação vegetativa, a auxina ANA (2,0 a 5,0 mg/L) favorece o enraizamento de ápices e brotações.
Embora considerado heliófilo, o mogno tolera níveis moderados de luz, podendo sobreviver sob o dossel graças ao baixo ponto de compensação luminosa, e cresce bem quando surge em clareiras — há registros de plantas que resistiram até 6 anos sob baixa luminosidade. Não suporta baixas temperaturas e tende a se ramificar, exigindo podas de condução e de galhos. O grande entrave do cultivo é o ataque da broca Hypsipyla grandella, que destrói a dominância apical, leva ao desenvolvimento arbustiforme e deprecia o valor comercial das toras. Por isso, recomendam-se plantios mistos bem diversificados, com no máximo cerca de 20 árvores de mogno por hectare, e o consórcio com outras espécies: no Nordeste, a associação com sabiá ou sansão-do-campo (Mimosa caesalpiniifolia) reduziu sensivelmente o ataque da broca e, no Cerrado do Distrito Federal, o consórcio com baru (Dipteryx alata) aumentou a sobrevivência em relação ao plantio homogêneo. A espécie também se presta a sistemas de enriquecimento em faixas e linhas, e é cultivada em toda a faixa tropical do planeta. Vale lembrar que Swietenia macrophylla consta da lista oficial de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, na categoria "em perigo", devido à exploração intensa, o que torna prioritária a conservação genética.
O crescimento varia de lento a moderado. Nas Antilhas registraram-se incrementos de 15 a 20 m³/ha/ano e, em sítios pobres, de 7 a 11 m³/ha/ano. A rotação estimada situa-se entre 40 e 60 anos, mas as árvores já podem ser aproveitadas a partir dos 25 anos, quando atingem cerca de 22 m de altura e 60 a 70 cm de DAP. Há registros de indivíduos com 10 a 12 m de altura aos 10 anos e, sob condições ótimas, de mudas que alcançam 3 m no primeiro ano e 6 m em dois anos. No Pará, nos projetos de reposição florestal registrados no Ibama entre 1976 e 1996, a espécie foi a segunda mais utilizada, presente em 28% das empresas.
Cresce em regiões com precipitação média anual de 1.200 mm (Maranhão) a 2.900 mm (Pará), com chuvas periódicas, mas foi introduzido com sucesso em áreas muito mais chuvosas, chegando a 8.000 mm na Índia. A deficiência hídrica vai de pequena a moderada na maior parte de sua área. A temperatura média anual fica entre 24,8 ºC (Tarauacá, AC) e 26,7 ºC (Itaituba, PA), com mínima absoluta de 6 ºC registrada em Rio Branco (AC); não ocorrem geadas. Pelo sistema de Köppen, predominam os climas Am (tropical chuvoso, com curta estação seca) e Aw (tropical com verão chuvoso e inverno seco).
Ocorre em solos bastante variados, desde aqueles sujeitos a alagamentos periódicos (hidromórficos) até os de terra firme. Na Amazônia, associa-se com frequência a depósitos terciários de origem vulcânica e aluvial, em solos francos, roxos de terra firme e de textura argilosa. Tolera desde solos profundos mal drenados, argilosos, ácidos e pantanosos, até solos alcalinos bem drenados de planaltos calcários, incluindo os derivados de rochas ígneas e metamórficas. Seu melhor desenvolvimento, porém, dá-se em solos profundos, férteis e bem drenados, com pH entre 6,5 e 7,5.