Foto: Tiago Lubiana (CC0 1.0) via inaturalist
Mirindiba-rosa
Lafoensia glyptocarpa
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: merindiba-rosa, sete-cascas, mirindiba, louro-de-são-paulo, mirindiba-bagre, mirinduva
Botânica
Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à divisão Angiospermae, ao clado das rosídeas, à ordem Myrtales e à família Lythraceae, dentro do gênero Lafoensia. O binômio aceito é Lafoensia glyptocarpa Koehne, com primeira descrição publicada na Flora Brasiliensis (Martius), volume 13(2), página 353. O nome do gênero presta homenagem a Dom Juan de Lafõens, da Casa de Bragança e integrante da Academia de Lisboa, enquanto a origem do epíteto glyptocarpa permanece incerta.
Trata-se de árvore semidecídua que, quando adulta, pode alcançar cerca de 25 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco vai de reto a levemente tortuoso, com fuste que chega a 10 m de comprimento, e a ramificação é dicotômica, com casca lisa nos ramos jovens. A casca, de até 10 mm de espessura, tem ritidoma (casca externa) sulcado. As folhas são simples, oblongas, glabras, de margens onduladas e face superior brilhante; no ápice possuem um nectário extrafloral que libera uma secreção adocicada, atraindo formigas que defendem a folhagem contra outros herbívoros. As flores são hermafroditas, de pétalas brancas que se desprendem com facilidade. O fruto é uma cápsula esférica e deiscente, fortemente sulcada, com 4 a 4,8 cm de comprimento por 3,6 a 4,3 cm de largura e peso entre 22 e 33 g, abrigando de 117 a 180 sementes. As sementes têm formato oval-elíptico, medindo de 2,5 a 2,8 cm de comprimento por 1,2 a 1,4 cm de largura.
Uso e ecologia
A madeira tem massa específica aparente de 0,90 a 0,96 g/cm³, com alburno e cerne de tom amarelo-claro pálido, às vezes com manchas róseas uniformes. Apresenta superfície lisa, brilho irregular, textura fina e grã direita, sem cheiro ou gosto marcantes; protegida da umidade, oferece boa durabilidade. É empregada na construção civil e naval, em obras internas (caibros, ripas e esquadrias), em obras expostas (marcenaria, carpintaria e dormentes) e na fabricação de móveis. Como combustível, rende lenha de qualidade apenas regular, e não serve para celulose e papel. A madeira ainda fornece matéria tintorial de cor violeta. Das folhas, estudos fitoquímicos identificaram saponinas e flavonoides (3-O-galactosídeo de campferol e 3-O-glucosídeo); o pó de folhas e frutos, testado contra o caruncho Acanthoscelides obtectus em feijão armazenado, mostrou ação repelente e mortalidade sobre adultos, sem prejudicar a oviposição.
Classifica-se como espécie secundária tardia. Em ambiente natural, suas sementes germinam tanto sob o dossel quanto em clareiras, e foi observada se regenerando em um fragmento de Floresta Estacional Semidecidual Montana, em Viçosa (MG). Ocorre no bioma Mata Atlântica, em Floresta Estacional Semidecidual na formação Montana (Minas Gerais e Paraíba) e em Floresta Ombrófila Densa nas formações de Terras Baixas (Espírito Santo), Submontana (Rio de Janeiro) e Montana (Minas Gerais). Aparece também em matas ciliares no Espírito Santo, em vegetação arbustivo-subarbustiva semidecídua densa sem espinhos em Pernambuco, em brejos de altitude do Nordeste na Serra do Teixeira (Paraíba), em mosaico de Floresta Tropical Supermontana no Planalto de Poços de Caldas (sul de Minas Gerais) e em refúgio vegetacional no semiárido de Buíque (PE).
A floração varia conforme a região: ocorre de dezembro a janeiro no Rio de Janeiro e de junho a agosto em São Paulo. Os frutos amadurecem de agosto a outubro em São Paulo e em outubro no Rio de Janeiro.
A polinização é feita sobretudo por morcegos filostomídeos, com destaque para Glossophaga soricina, Phylostomus hastatus e Platyrrhinus lineatus. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, realizada pelo vento. As folhas, dotadas de nectário extrafloral, atraem formigas que atuam na proteção contra herbívoros.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos na transição do verde para o castanho-escuro, e a extração das sementes pode ser feita à mão, quebrando-se o fruto com um cacetete. Cada quilo reúne de 22.000 a 22.700 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Por terem comportamento fisiológico ortodoxo, toleram bem o armazenamento. No teste-padrão de germinação em laboratório, recomenda-se fotoperíodo de 8 horas de luz branca, substrato de vermiculita (30 g por gerbox) e temperatura de 30 °C ou alternada de 20 °C a 30 °C, com 90 a 135 mL de água.
Indica-se a semeadura em sementeiras, com posterior repicagem das plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 18 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio. A repicagem deve ser feita ao surgirem as primeiras folhas definitivas, de 2 a 4 semanas após a germinação, quando a raiz principal tem cerca de 5 cm. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência começa por volta de 5 dias depois da semeadura.
É uma espécie heliófila que, ainda jovem, suporta sombreamento de intensidade média, além de tolerar geadas fracas. O hábito é variável, em geral bifurcado, com tronco curto e sem dominância apical bem definida; como não faz derrama natural, precisa de podas periódicas de condução e de galhos para ganhar altura comercial. Recomenda-se plantio misto a pleno sol, associado a espécies pioneiras. A espécie rebrota da touça.
Há poucos registros sobre seu desenvolvimento em plantios, mas o crescimento é considerado lento.
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 700 mm, em Pernambuco, a 2.200 mm, no Rio de Janeiro, com chuvas periódicas e deficiência hídrica de moderada a forte no inverno, no oeste de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila entre 17,7 °C (Poços de Caldas, MG) e 25 °C (Buíque, PE); a média do mês mais frio fica entre 18,5 °C (Garanhuns, PE) e 21,3 °C (Rio de Janeiro, RJ), e a do mês mais quente, entre 22,2 °C (Garanhuns, PE) e 26,5 °C (Rio de Janeiro, RJ). A mínima absoluta registrada foi de -2,2 °C, em Uberaba (MG), em 21 de julho de 1981. As geadas são ausentes na quase totalidade da área e raras no oeste mineiro. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af e Am no Rio de Janeiro, Aw no Espírito Santo, oeste de Minas Gerais, Serra do Teixeira (PB) e Pernambuco, e Cwb no sul e sudeste de Minas Gerais.
Desenvolve-se em solos ácidos, de fertilidade média a baixa, textura entre franco-argilosa e argilosa e drenagem regular.