Foto: Smartse (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Marupá
Simarouba amara
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: marupá-preto, praíba, jangadeiro, tamanqueira, pau-paraíba, caraíba, craíba, paraíba, paraíba-da-serra, caxeta, caixeta, pau-de-perdiz, marupaúba, paraparaíba, paparaúba, pipariúba
Botânica
Pela classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à ordem Sapindales e à família Simaroubaceae, dentro do clado das eurosídeas II. O gênero é Simarouba, e a espécie foi descrita por Aublet, com publicação em 1775 na obra Histoire des plantes de la Guiane Françoise. Entre os sinônimos botânicos registrados estão Simarouba glauca Hemsley e Simarouba officinalis DC. Quanto à etimologia, o nome do gênero deriva da denominação da planta nas Guianas, enquanto o epíteto amara faz alusão ao seu sabor bastante amargo.
Trata-se de uma árvore que pode ser perenifólia ou semidecídua. Os exemplares maiores chegam a cerca de 25 m de altura e 80 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo) quando adultos; já nos campos rupestres da Bahia e no cerrado stricto sensu de Rondônia assume porte arbustivo, ficando entre 3 m e 8 m. O tronco é reto e de seção cilíndrica, com fuste que alcança até 22,5 m. A ramificação é fracamente dicotômica, resultando em copa estreita e porte elegante. A casca tem até 20 mm de espessura: externamente é quase lisa a levemente rugosa, com finas fissuras verticais e coloração parda-acinzentada-clara, tornando-se dura nos indivíduos mais velhos; internamente apresenta tom amarelado a rosa-claro com veteado esbranquiçado, sabor muito amargo e odor agradável que lembra grama fresca. As folhas são compostas e imparipinadas, reunindo de 3 a 6 pares (eventualmente até nove) de folíolos, num total de 7 a 21, com peciólulos de 0,3 cm a 0,5 cm nem sempre opostos. Os folíolos são oblongos, de base atenuada e ápice em geral obtuso, medem de 5 cm a 10 cm de comprimento por 3 cm a 3,5 cm de largura, têm consistência semicoriácea, face superior verde-brilhante e face inferior verde-clara e fosca, glabra, com margem íntegra e nervuras secundárias paralelas. O pecíolo é longo, de 6 cm a 10 cm. As flores surgem em panículas terminais eretas e densas, muito ramificadas, com 20 cm a 30 cm de comprimento; são minúsculas, abundantes e de cor branca, amarelada ou esverdeada, sendo as femininas com 5 a 6 sépalas e as masculinas pentâmeras. O fruto é uma drupa globosa de carpelo único, sulcada nas faces superior e inferior, com 0,6 cm a 1 cm de comprimento por 4 mm a 7 mm de largura. A semente é elíptica e mede de 0,5 cm a 0,8 cm.
Uso e ecologia
A madeira do marupá é leve, com massa específica aparente entre 0,352 g/cm³ e 0,55 g/cm³ a 12-15% de umidade. Cerne e alburno são indistintos, de coloração branco-palha, levemente amarelada ou rosada. Tem grã direita a irregular, textura média, superfície um pouco áspera e pouco lustrosa, é macia ao corte, com cheiro pouco perceptível e gosto levemente amargo. Trata-se com facilidade usando creosoto ou solução CCA-A, é fácil de trabalhar, aceita prego e oferece bom acabamento. Sua durabilidade natural é relativamente longa e a madeira resiste bem ao ataque de insetos, o que dispensa preservação. É empregada na confecção de caixas para documentos e caixotes de mercadorias leves, na indústria de tamancos, em acabamentos internos da construção civil (rodapés, molduras, tábuas para forros), além de contraplacados, compensados, embalagens leves, brinquedos, móveis, saltos de sapato, palitos de fósforo, esquadrias e instrumentos musicais. Também fornece lenha de qualidade razoável. As fibras e os caracteres anatômicos indicam aptidão para a produção de pasta de papel e celulose, com teor de 44% de celulose. Quanto aos constituintes fitoquímicos, a raiz contém princípios antraquinônicos de ação terapêutica comprovada, e casca, raízes e folhas concentram quassinoides semelhantes aos do quinino; a madeira possui substâncias insetífugas, sendo pouco atacada por insetos graças ao sabor amargo.
O marupá é considerado uma espécie secundária inicial ou clímax exigente em luz. Pode ocupar posição superior ou emergente no dossel de florestas primárias e também é comum em formações secundárias, como capoeiras e capoeirões. No bioma Amazônia, está presente na Floresta Ombrófila Aberta do noroeste de Mato Grosso (até dois indivíduos por hectare) e na Floresta Ombrófila Densa de terra firme e de várzea no Acre, Amazonas e Pará (0,21 indivíduo por hectare). Na Mata Atlântica, ocorre na Floresta Ombrófila Densa, em formações de terras baixas, submontana e montana, em Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Pernambuco e Rio de Janeiro (até nove indivíduos por hectare); no sul da Bahia, foi observado em 7% das amostras associado ao jacarandá-da-bahia (Dalbergia nigra). No Cerrado, aparece no cerrado stricto sensu do Amapá, Ceará e Rondônia e no cerradão do Ceará. Há ainda registros em brejos de altitude do Nordeste na Paraíba e em Pernambuco e em campo rupestre na Bahia.
A floração varia conforme a região: de julho a agosto em Minas Gerais e na Bahia, de agosto a dezembro no Pará, de outubro a dezembro em Pernambuco e em novembro no Ceará. Os frutos amadurecem de julho a setembro em Minas Gerais, em dezembro no Espírito Santo, de janeiro a março em Pernambuco e de fevereiro a março no Pará. Tanto a floração quanto a frutificação seguem um ritmo irregular.
A espécie é dioica. A polinização envolve moscas da família Syrphidae, a abelha Apis mellifera, pequenos coleópteros da família Chrysomelidae (apenas nas flores masculinas) e mariposas, embora se cogite também a polinização anemófila. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, ocorrendo por gravidade (barocórica) e também por animais (zoocórica).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a cair espontaneamente. No Peru, a produtividade por árvore oscila de 1,483 kg a 4,670 kg de frutos, com média próxima de 0,904 kg. Cada quilo reúne de 2.000 a 4.200 sementes. Não é necessário tratamento pré-germinativo, mas, para acelerar a germinação, recomenda-se embeber as sementes em água a 30 ºC por 24 horas. Em condições sem armazenamento, a viabilidade se mantém por até 165 dias; um lote com poder germinativo de 79%, guardado por três meses em sala de clima tropical úmido, caiu para 24,8% de germinação. A temperatura ideal de germinação fica entre 30 ºC e 35 ºC, e plântulas anormais podem surgir entre 20 ºC e 35 ºC em razão de estresse térmico e de lesões ao embrião durante a extração da semente.
A semeadura é feita em sementeiras e, em seguida, as plântulas são repicadas para recipientes como sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio; recomenda-se transferir as mudas dos canteiros para os recipientes individuais quando atingirem de 4 cm a 6 cm de altura. A germinação é epígea e fanerocotiledonar, com emergência iniciando de 8 a 40 dias após a semeadura e poder germinativo entre 10% e 92%. As mudas ficam prontas para o plantio definitivo em 4 a 5 meses.
Trata-se de uma espécie heliófila, sensível a baixas temperaturas. Costuma formar fustes perfeitamente retos, ramifica-se em verticilos e não apresenta derrama natural mesmo após o fechamento do dossel; por isso, recomenda-se a poda apenas quando a árvore tiver formado ao menos dois pares de verticilos, sem remover o verticilo superior antes da formação de outro par. O plantio deve ocorrer em sombra seletiva, já que, a pleno sol, o broto terminal sofre ataque de insetos; em compensação, regenera-se naturalmente com facilidade em plantios. É utilizada em sistemas agroflorestais, como nas várzeas do Rio Juba, em Cametá (PA), e vem sendo conservada in situ em algumas áreas da Amazônia.
O marupá tem crescimento moderado, com incrementos anuais médios de 1,26 m em altura e 1,5 cm em diâmetro, podendo alcançar 18,75 m³/ha/ano aos 13 anos. Em plantio realizado em Rio Formoso (PE), no espaçamento 2 x 2 m, registrou-se aos 13 anos 85% de plantas vivas, altura média de 13 m e DAP médio de 15 cm. No Suriname, onde é cultivada desde 1954, é viável uma rotação de cerca de 40 anos.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 760 mm, no Ceará, a 4.000 mm, no Amapá, com chuvas uniformemente distribuídas no noroeste do Amazonas e nos arredores de Belém (PA), uniformes ou periódicas na faixa costeira da Bahia e em partes de Alagoas e Pernambuco, e periódicas nos demais locais. A deficiência hídrica varia de nula a forte conforme a região, sendo mais acentuada no Ceará. A temperatura média anual oscila de 20,5 ºC (Guaramiranga, CE) a 26,7 ºC (Manaus, AM); a média do mês mais frio vai de 19,1 ºC (Brasília, DF) a 26 ºC, e a do mês mais quente, de 21,2 ºC a 27,9 ºC (Macapá, AP). A mínima absoluta registrada foi de 1,6 ºC, em Brasília, e não há ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af, Am, As, Aw, Cwa e Cwb, predominando os climas tropicais úmidos.
O marupá vegeta naturalmente em uma grande diversidade de tipos de solo.