Foto: Pablo H Capovilla (CC BY) via GBIF
Marmeleiro-bravo
Ruprechtia laxiflora
- 15 a 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: cabriúva-da-várzea, caxão, falso-triplaris, farinha-seca, guajuvira, marmeleiro, marmeleiro-do-mato, pau-de-lança, viraró, viraru
Botânica
A espécie é classificada como Ruprechtia laxiflora Meissner, descrita na Flora Brasiliensis em 1855. Pertence à família Polygonaceae, ordem Polygonales, dentro das dicotiledôneas (Magnoliopsida), segundo o sistema de Cronquist. São reconhecidos como sinônimos botânicos os nomes Enneatypus nordenskjoeldii Herzog, Ruprechtia polystachya Griseb. e Ruprechtia viraru Gris. O nome do gênero presta homenagem ao botânico tcheco Ruprests, enquanto o epíteto laxiflora faz referência ao fato de as flores ficarem bastante espaçadas entre si.
Trata-se de uma árvore caducifólia que normalmente atinge de 15 a 25 m de altura e diâmetro do tronco (DAP) de 30 a 60 cm, podendo chegar, quando adulta, a 32 m de altura e 100 cm de DAP. O tronco é cilíndrico, frequentemente tortuoso e irregular, com fuste de até 15 m; em exemplares grandes e envelhecidos surgem sapopemas na base, e por vezes aparecem ramos epicórmicos ao longo dele. A copa é larga e achatada, com ramificação grossa e tortuosa, ramos primários ascendentes e folhagem de tom verde-amarelado. A casca é delgada, com até 11 mm de espessura: por fora apresenta-se cinza-escura, pouco áspera e dura, marcada por fissuras longitudinais irregulares e fissuras horizontais finas que a dividem em pequenas placas retangulares facilmente destacáveis; por dentro é alaranjada a alaranjado-rosada. As folhas são alternas, elíptico-lanceoladas, coriáceas, de 2,5 a 6 cm de comprimento por 1 a 3 cm de largura, com ponta larga, glabras ou levemente pilosas, lustrosas e verde-amareladas na face superior e mais pálidas na inferior. O pecíolo é curto (2 a 7 mm) e traz, na base, uma ócrea muito pequena — bainha membranosa típica das Poligonáceas que forma uma espécie de estojo ao redor dos brotos e folhas novas. As flores são unissexuais: as masculinas brancas e as femininas rosado-amareladas, reunidas em racemos terminais ou laterais de 2,5 a 8 cm, com 5 a 100 flores pequenas (3 a 5 mm) de três pétalas. O fruto é uma núcula de pericarpo fino, elipsóideo-triangular, com cerca de 5 mm, castanho-lustrosa, envolta pelo cálice que se expande em três sépalas persistentes em forma de asas de 1,5 a 2,5 cm, conferindo aparência de fruto alado; essas asas variam do bege ao vermelho conforme o amadurecimento. A semente fica contida no interior do fruto.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,67 a 0,75 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno amarelado e cerne pardo-escuro que adquire tom castanho-ocráceo após cortado e exposto ao tempo. Tem superfície de leve brilho natural, textura fina e heterogênea e grã direita a ligeiramente entrelaçada. É forte e resiste bem à flexão, embora tenha pouca durabilidade em contato com o solo e a umidade. A secagem é difícil por causa da forte contração volumétrica (17,4%), exigindo processo lento e cuidadoso; absorve preservantes de forma moderada e oferece alguma dificuldade no serramento e na pregação. Empregada em móveis, marcenaria, carpintaria, esquadrias, marcos de portas e janelas, caibros, vigas, tabuados, mourões e laminados, é também usada em tornearia, objetos de adorno e xilogravura, além de fornecer lenha de boa qualidade. Não é adequada para a produção de celulose e papel.
Classificada como secundária tardia, é uma espécie comum em capoeirões. Aparece sobretudo nas várzeas aluviais da Floresta Estacional Semidecidual e Decidual, nas formações Montana e Baixo-Montana, onde compõe o estrato superior e pode se associar com frequência ao açoita-cavalo (Luehea divaricata) e ao coqueiro-jerivá (Syagrus romanzoffianum). Em outros locais é rara e de distribuição irregular. Também ocorre em matas ciliares da Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), como no sul do Paraná e no baixo Tibagi, onde é comum, e na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), na qual é muito rara. Fora do Brasil, integra o Bosque Seco Chaqueño, na Bolívia.
A floração acontece entre setembro e outubro no Rio Grande do Sul e de dezembro a fevereiro na Bahia. Os frutos amadurecem de julho a agosto no Paraná e de novembro a dezembro no Rio Grande do Sul.
Por ser uma planta dioica, depende de polinizadores: a polinização é feita principalmente por abelhas, com destaque para a Apis mellifera (abelha-europeia ou africanizada), além de diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, realizada pelo vento.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando as sépalas que envolvem a semente passam do bege ao vermelho, momento em que lembram um fruto alado. Cada quilo reúne de 15 mil a 25 mil sementes, que não apresentam dormência e, portanto, dispensam qualquer tratamento para superá-la. Com poder germinativo inicial de 70%, podem manter cerca de 41% de germinação por seis meses quando guardadas em saco de papel, em ambiente sem controle.
Recomenda-se semear em sementeira e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio, fazendo a repicagem entre a terceira e a quinta semana após o início da germinação. A germinação é epígea e começa de 7 a 30 dias depois da semeadura, com poder germinativo regular de até 70%. As mudas ficam prontas para o plantio no campo cerca de seis meses após a semeadura.
Espécie heliófila, tolera sombreamento de baixa intensidade na fase juvenil e suporta bem o frio — em florestas naturais, árvores adultas resistem a mínimas de até -5 ºC. Na juventude tem crescimento monopodial e, como não desrama naturalmente, recomenda-se a poda dos galhos. Sua silvicultura ainda é pouco conhecida, mas sabe-se que pode ser plantada a céu aberto; em povoamentos densos espontâneos de Leucaena leucocephala, com abertura de faixas no sentido norte-sul e plantio em linhas, apresentou desempenho regular. Rebrota com vigor da touça após o corte.
O desenvolvimento da espécie é lento.
A precipitação média anual associada à espécie varia de 600 mm, na Bahia, a 2.200 mm, na Paraíba, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul (salvo no norte do Paraná), pequena no inverno no norte paranaense e no extremo sul do Mato Grosso do Sul, e moderada na faixa costeira da Paraíba, onde a estação seca chega a quatro meses. A temperatura média anual oscila entre 16,5 ºC (Rio Azul, PR) e 26,1 ºC (João Pessoa, PB), com mínima absoluta de -5 ºC registrada em Rio Azul. O número de geadas vai de 0 a 11 em média, podendo chegar a 33 ao ano no Sul. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Aw e As), o subtropical úmido (Cfa), o temperado úmido (Cfb) e o subtropical de altitude (Cwa).
Na natureza, cresce em solos aluviais. Em condições experimentais, no entanto, vegeta melhor em solos quimicamente férteis e de textura franca a argilosa.