Foto: Aramburu Carlos (CC0) via Wikimedia
Marizeiro
Geoffroea spinosa
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: mari, marizeira, umari, árvore-que-chora
Botânica
Seguindo o sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), Geoffroea spinosa Jacq. pertence à divisão Angiospermae, ao clado das Eurosídeas I e à ordem Fabales (tratada como Rosales no sistema de Cronquist). Está na família Fabaceae (Leguminosae em Cronquist), subfamília Faboideae (Papilionoideae), gênero Geoffroea. A primeira descrição foi publicada em Ann. N. Y. Acad. Sci. 7:87. Entre os sinônimos botânicos figuram Robinia striata Willd., Geoffroea superba Kunth e Geoffroea striata (Willd.) Morong. A origem do nome do gênero é incerta, enquanto o epíteto spinosa alude aos espinhos da planta, que aparecem em pouca quantidade ou nem chegam a se formar.
Árvore de folhagem decídua ou semidecídua que, na fase adulta, alcança por volta de 15 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). O tronco é irregular e por vezes tortuoso, com fuste em geral curto, de até 5 m. A ramificação é dicotômica e a copa, ampla e arredondada; nos exemplares jovens os ramos surgem com pelos finos e numerosos espinhos, embora às vezes apresentem apenas alguns espinhos retos de 1 cm a 4 cm, isolados nos nós. A casca chega a 15 mm de espessura, com ritidoma fendilhado no sentido do comprimento que se solta em lâminas esponjosas de tom castanho-claro. As folhas são alternas e imparipinadas, medindo de 8 cm a 15 cm, com 5 a 9 folíolos oblongos e duas estípulas agudas de até 5 mm que caem cedo. As inflorescências formam racemos ou cachos axilares de 8 cm a 12 cm, com flores irregulares, amarelas e perfumadas. O fruto é uma drupa ovoide indeiscente, finamente pilosa, de cor verde-amarelada, pendente em pedúnculo longo, levemente achatada, de 3 cm a 4 cm de comprimento por 2 cm a 2,5 cm de largura, com mesocarpo carnoso e uma só semente. A semente é oleaginosa, de formato oval a oval-sigmoide e perfil fusiforme-navicular, com 2 cm a 2,5 cm de comprimento e 0,8 cm a 1,2 cm de largura.
Uso e ecologia
As folhas servem de forragem importante para o gado, e os frutos, apesar de levemente amargos, podem ser consumidos cozidos ou em mingaus tanto em períodos de seca quanto de fartura; as sementes também são comestíveis depois de assadas, e na Argentina, tostadas, constituíam alimento relevante para os povos indígenas. A madeira, de densidade moderada (0,66 g/cm³ a 0,80 g/cm³), tem alburno amarelo-pálido e cerne arroxeado, grã moderadamente reta e finamente ondulada e textura fina; presta-se a caixotaria, móveis populares e pequenos objetos. A espécie também rende lenha e carvão de boa qualidade, mas não serve para celulose e papel. Tem grande potencial melífero, fornecendo néctar e pólen que originam mel de boa qualidade. No uso medicinal tradicional, do mesocarpo dos frutos extrai-se uma massa considerada peitoral e vermífuga, e o chá de folhas com brotos é apontado como emenagogo e antidiarreico (registro de pesquisa, sem valor de prescrição médica). De grande apelo ornamental por sua beleza, no início da estação chuvosa exibe a gutação, em que os brotos vertem água em abundância a ponto de molhar o solo, fenômeno que os sertanejos interpretam como sinal de bom inverno.
Trata-se de uma espécie pioneira, característica e exclusiva da Caatinga arbórea, onde aparece com frequência elevada, ainda que de forma bastante descontínua ao longo de sua área de distribuição. Está presente na Savana Estépica (Caatinga do sertão semiárido) no nordeste da Bahia, no Ceará, no norte de Minas Gerais e em Sergipe; na Floresta Estacional Semidecidual da Mata Atlântica, no norte de Minas Gerais; e em ambientes ripários (mata ciliar), em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, além de carnaubais no Ceará e no Rio Grande do Norte.
A floração acontece entre novembro e dezembro, no Ceará. Os frutos amadurecem de janeiro a fevereiro, no Ceará, e em junho, na Paraíba.
Espécie hermafrodita, polinizada sobretudo por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão de frutos e sementes é essencialmente zoocórica, embora o agente dispersor específico ainda não tenha sido identificado; observa-se que muitas sementes são encontradas no solo já sem a polpa, em razão da ação predatória dos morcegos.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser recolhidos do chão, sob a árvore-matriz, logo após a queda, e mantidos amontoados em sacos plásticos por alguns dias até a polpa se decompor parcialmente, o que facilita a retirada da semente; muitas vezes elas já são encontradas no solo sem a polpa, graças aos morcegos. Há cerca de 190 sementes por quilograma. Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento recalcitrante, perdendo viabilidade e vigor com rapidez a partir de 30 dias de armazenamento; para produzir mudas de qualidade e conservá-las ex situ, recomenda-se acondicioná-las em embalagens plásticas mantidas em câmara fria por até 60 dias.
A semeadura pode ser feita em sacos de polietileno de 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, em tubetes grandes de polipropileno ou, eventualmente, em sementeiras para posterior repicagem. As plântulas são cripto-hipógeas, com hipocótilo curto, e a emergência ocorre de 5 a 8 dias após a semeadura. O poder germinativo é bastante variável, de 15% a 70%, e as mudas atingem tamanho adequado para o plantio cerca de 6 meses depois da semeadura. As raízes estabelecem associação simbiótica com bactérias do gênero Rhizobium.
Espécie heliófila e sensível ao frio. Em plantio, o desenvolvimento do fuste é muito variável, indo de boa forma a formatos inadequados com multitroncos, e a planta tem capacidade de rebrota da touça. Indica-se o plantio misto, em consórcio com espécies de crescimento rápido, como o angico-verdadeiro (Anadenanthera colubrina var. cebil). Em sistemas agroflorestais, presta-se à arborização de pastagens.
Há poucos dados sobre o desempenho da espécie em plantios, mas o crescimento registrado é lento.
A precipitação média anual varia de 550 mm, na Bahia, a 1.600 mm, no Ceará, com chuvas periódicas e forte deficiência hídrica no Nordeste. A temperatura média anual fica entre 22,4 °C (Montes Claros, MG) e 27,2 °C (Mossoró, RN); a média do mês mais frio vai de 19,4 °C (Montes Claros, MG) a 25,7 °C (Fortaleza, CE) e a do mês mais quente, de 24,4 °C (Montes Claros, MG) a 28,7 °C (Mossoró, RN). A mínima absoluta registrada foi de 6,5 °C, em Montes Claros, MG, em 30 de junho de 1979. Não há ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, predominam os tipos Aw (tropical com inverno seco, subtipo savana) e BShw' (semiárido quente).
Em condições naturais, cresce em várzeas e em solos aluviais argilo-silicosos com pequena concentração de sal, cujo pH oscila entre 4,3 e 4,8.