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Foto de Maricá

Foto: no rights reserved, uploaded by Frank Thomas Sautter (cc0) via iNaturalist

Maricá

Mimosa bimucronata

Mimosaceae Mata AtlânticaCaatingaPampa
  • 3 a 10 m (até 15 m)Altura
  • Médio portePorte
MedicinaisMadeireirasRecuperação de áreas

Também conhecida como: alagadiço, amorosa, angiquinho, arranha-gato, espinheira, espinheira-de-cerca, espinheira-de-maricá, espinheiro, espinheiro-de-cerca, espinheiro-de-maricá, espinho, juqui-de-cerca, maricazeiro, espinho-roxo, espinho-de-maricá, silva, unha-de-gato

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Fabales e família Mimosaceae (incluída em Leguminosae, subfamília Mimosoideae). O nome científico válido é Mimosa bimucronata (De Candolle) Otto Kuntze, publicado em 1891. Entre os sinônimos botânicos figuram Acacia bimucronata De Candolle e Mimosa sepiaria Bentham. O nome do gênero deriva do grego, dos termos mimein (fazer movimento) e meisthal (imitar), uma alusão às folhas e folíolos de muitas espécies que se fecham ou se retraem ao toque ou ao roçar entre si. Já o epíteto bimucronata refere-se ao par de múcrons estipulares presentes na base de cada pina.

Descrição botânica

Trata-se de árvore ou arbusto arborescente, semicaducifólio a caducifólio e provido de acúleos, embora existam, raramente, exemplares sem eles. Em geral mede de 3 a 10 m de altura e 10 a 25 cm de DAP, podendo chegar, quando adulta, a 15 m e 40 cm de DAP. O tronco é curto, fortemente ramificado e frequentemente múltiplo. A ramificação é cimosa, irregular e bifurcada, formando copa baixa e arredondada, de folhagem verde-escura e esparsa, com ramos aculeados. A casca alcança até 15 mm de espessura: a externa é acinzentada, áspera e levemente fissurada, soltando-se em pequenas placas, enquanto a interna é avermelhada e exala odor característico. As folhas são compostas e paripinadas, com pecíolo de 1,5 a 2,5 cm, reunindo até dez pares de folíolos, e estes com até 30 jugos. As flores variam do branco ao bege, são vistosas e se agrupam em inflorescências terminais, formando panículas de glomérulos que podem alcançar 50 cm de comprimento. O fruto é um craspédio achatado e coriáceo, de 2,5 a 6 cm de comprimento por 0,5 a 1 cm de largura, dividido em 2 a 8 artículos quase quadrados; é vermelho-tijolo quando imaturo e preto na maturação, abrigando de 2 a 8 sementes. As sementes são ovais, achatadas, oliváceas, duras e medem cerca de 4,5 mm.

Uso e ecologia
madeireiroenergiacercas vivasrecuperação de áreasapícolamedicinalforrageiro
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,55 a 0,70 g/cm³ a 15% de umidade, alburno e cerne avermelhados e baixa durabilidade natural. As bifurcações e os espinhos reduzem seu valor como matéria-prima, de modo que ela é aproveitada apenas eventualmente em marcenaria e carpintaria, além de mourões de qualidade inferior e curta vida útil (3 a 4 anos). No litoral do Sul do Brasil, porém, a lenha é muito valorizada: tem alto poder calorífico, queima mesmo verde e o alto teor de lignina rende carvão de excelente qualidade. A madeira apresenta ainda elevado teor de celulose. Das folhas extrai-se mucilagem. Como forragem, a espécie oferece de 19% a 20% de proteína bruta e 18% a 23% de tanino, com valor bromatológico comprovado, e o gado consome os brotos dos ramos tanto de plantas isoladas quanto de cercas vivas; convém notar, contudo, que as folhas contêm mimosina, aminoácido não proteico que inibe o desenvolvimento de ruminantes de maior porte, como os bovinos. As flores têm grande potencial apícola por fornecerem pólen em abundância, sendo o maricá tido como uma das plantas mais importantes para a produção de pólen no Rio de Janeiro. Na medicina popular, os brotos são empregados contra asma, bronquite e febre, e as folhas têm ação emoliente.

Aspectos ecológicos

O maricá é uma espécie pioneira e bastante agressiva, típica de associações secundárias litorâneas em solos úmidos ou brejosos, onde forma agrupamentos densos. Também aparece na vegetação secundária do interior, constituindo os chamados maricazais, sobretudo em terrenos mal drenados, em afloramentos rochosos e em solos pedregosos de basalto. É árvore de vida curta, entre 20 e 30 anos. Ocorre principalmente na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), na formação Baixo-Montana, ocupando a planície quaternária, várzeas e margens de cursos d'água sujeitas a inundações periódicas ou permanentemente úmidas, chegando à restinga; pelo interior alcança os campos do Planalto Sul-Brasileiro. Está presente ainda na Floresta Estacional Decidual Baixo-Montana e na Caatinga, em Pernambuco, além da Selva Misionera, na Argentina. No interior paulista vem se tornando frequente na vegetação secundária de terrenos úmidos, onde provavelmente foi introduzida. Por sua adaptação a ambientes críticos, úmidos e rochosos, e por sua capacidade de melhorar o solo, é recomendada para o controle da erosão e para o plantio em áreas sujeitas a inundações. Em plantios de 8 anos em Colombo (PR), próximos à floresta secundária, observou-se a regeneração natural de 20 espécies arbóreas, entre elas Cabralea canjerana subsp. canjerana, Ocotea puberula e Podocarpus lambertii, sendo Myrsine ferruginea a mais comum.

Floração e frutificação

A floração ocorre de dezembro a março no Paraná e em São Paulo, de janeiro a março no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, de fevereiro a abril no Rio de Janeiro e de fevereiro a maio em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de abril a junho no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e de maio a julho em São Paulo. Em plantios, a reprodução começa cedo, já por volta do primeiro ano de vida.

Fauna associada

A planta é hermafrodita e sua polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão das sementes é autocórica, predominantemente barocórica, ou seja, ocorre por gravidade.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando passam do vermelho-tijolo para o marrom-escuro, com extração manual das sementes. Cada quilo reúne de 80.000 a 99.206 sementes, que apresentam comportamento ortodoxo no armazenamento: lotes com poder germinativo inicial de 90%, guardados em câmara seca (13 a 15ºC e 38% a 40% de umidade relativa), mantiveram a viabilidade após 4 anos; já lotes conservados em sala por 2 anos chegaram a 77% de germinação nas sementes claras e apenas 14% nas escuras. A dormência é tegumentar e pode ser superada de várias formas: imersão em água aquecida a 80ºC, deixando as sementes em repouso na mesma água por 18 horas; escarificação mecânica, com pequeno corte de alicate no lado oposto ao eixo embrionário, que elevou a germinação a 100% contra 50% da testemunha; ou imersão em água quente por 1 a 5 minutos e em ácido sulfúrico por 5 minutos. A simples imersão em água à temperatura ambiente por 24 horas não se mostrou eficaz. Em testes com sete matrizes, a germinação variou de 19,2% a 94,4% nas sementes tratadas com ácido sulfúrico concentrado por 5 minutos e de 16,4% a 64,8% nas não tratadas. Em laboratório, o teste de germinação deve ser feito em germinador a 25ºC, usando como substrato papel-toalha, areia, papel mata-borrão ou vermiculita, com faixas ótimas entre 30ºC e 40ºC no escuro e entre 25ºC e 40ºC sob luz branca.

Produção de mudas

Recomenda-se semear em sementeiras, com 2 a 3 sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Convém evitar a repicagem, pois a plântula desenvolve raiz pivotante muito longa; se for indispensável, faça-a 1 a 2 semanas após a germinação. A germinação é epígea e começa de 7 a 37 dias após a semeadura, com poder germinativo alto, em média 70% quando a dormência é superada — em um experimento, atingiu 98,5% nas sementes tratadas contra 27,7% nas sem tratamento. As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 4 meses após a semeadura. A associação do maricá com Rhizobium é bem conhecida e pode haver necessidade de inoculação no viveiro com solo coletado sob povoamentos naturais; a espécie também se beneficia de fungos micorrízicos arbusculares. Além das sementes, é possível propagá-la por estacas caulinares de brotação.

Características silviculturais

Espécie heliófila, o maricá mostra grande variação de tolerância à geada conforme a origem: as procedências litorâneas são sensíveis, enquanto as do centro e sudoeste do Paraná resistem bem. O hábito é irregular, sem dominância apical definida, com ramificação intensa e formação de multitroncos; não há desrama natural, mas a planta tolera bem a poda dos galhos e a poda de condução, que deve ser periódica. Por ser pioneira de terrenos abertos, recomenda-se o plantio puro a pleno sol, por sementes, aceitando inclusive a semeadura direta no campo; pode servir de tutor para espécies secundárias-clímax. Em consórcio com povoamentos densos de Leucaena leucocephala, melhorou bastante sua forma, crescendo mais nas linhas orientadas no sentido norte-sul. Rebrota vigorosamente após o corte, tanto do colo quanto de diferentes alturas, o que permite manejo por talhadia com novo corte a cada 2 a 3 anos. Pela flexibilidade dos ramos, pelas bifurcações e pelos espinhos, presta-se muito bem a cercas vivas rurais em divisas de terreno, uso comum no litoral do Sul do Brasil e que se estendeu até a província de Corrientes, na Argentina, sendo plantada por estacas no Paraguai. Há dois ecótipos bem distintos quanto à tolerância ao frio: o material da região litorânea (Paraná e Santa Catarina) é muito sensível, e o do planalto é resistente, sem diferenças aparentes de crescimento entre eles; em ambas as origens ocorrem plantas sem espinhos.

Crescimento e produção

Em regeneração induzida, o crescimento é moderado, com produção volumétrica de até 7,10 m³/ha/ano — na prática provavelmente maior, dada a frequência de multitroncos. Estima-se uma rotação de cerca de 6 anos para produção de lenha.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.100 mm no Rio de Janeiro a 2.500 mm em Pernambuco. As chuvas distribuem-se de forma uniforme na Região Sul e em parte do litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, e concentram-se no verão nas demais regiões. O déficit hídrico é nulo no Sul e pequeno na faixa costeira da Bahia, de Alagoas e de Pernambuco, com estação seca de até 3 meses. A temperatura média anual oscila entre 17,5ºC (Pelotas, RS) e 26,1ºC (João Pessoa, PB); a média do mês mais frio vai de 11,9ºC (Pelotas) a 23,9ºC (Recife), e a do mês mais quente, de 20ºC (Diamantina, MG) a 28,2ºC (João Pessoa). A mínima absoluta registrada foi de -5,4ºC (Laranjeiras do Sul, PR). O número de geadas chega a 7 por ano no litoral sul, sendo predominantemente raras ou ausentes, mas atinge até 27 no Planalto Sul-Brasileiro. Pela classificação de Köppen, os tipos climáticos são o tropical (Af, Am, As e Aw), o subtropical úmido (Cfa) e o temperado úmido (Cfb).

Solos

A espécie é especialmente adaptada a solos arenosos encharcados e mal drenados, com pH entre 4,0 e 5,0, sobretudo na planície quaternária litorânea, mas também ocorre naturalmente, no sudoeste do Paraná, em solos pedregosos de basalto, afloramentos rochosos e encostas úmidas. Em plantios experimentais, o melhor desempenho foi obtido em solos de alta fertilidade química e boas propriedades físicas, bem drenados e de textura argilosa a areno-argilosa.