Foto: Germinando Nativas (CC BY) via GBIF
Maria-mole-do-banhado
Symplocos uniflora
- até 10 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: congonha, maria-mole, sete-sangrias, pau-de-cangalha, congonha-falsa, caúna, caveru, coana, congonha-miúda, maria-mole-branca, pau-cangalha
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsidae (Dicotyledoneae), ordem Ebenales e família Symplocaceae, dentro do gênero Symplocos. Seu nome científico completo é Symplocos uniflora (Pohl.) Benth., publicado em Trans. Linn. Soc. 18: 233, em 1841. A espécie acumula vários sinônimos botânicos, entre eles Stemmatosiphum uniflorum Pohl, Symplocos uniflora var. paleacea Miquel, Symplocos parviflora Benth., Symplocos uruguensis Brand e Symplocos catharinensis Mattos. Quanto à origem dos nomes, o gênero Symplocos remete à ideia de "enlaçar, atar", numa alusão aos filetes que se fundem em feixes, enquanto o epíteto uniflora significa "uma flor".
Trata-se de um arbusto ou arvoreta semidecídua. Os exemplares de maior porte chegam, na fase adulta, a cerca de 10 m de altura e 40 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, aferido a 1,30 m do solo). O tronco é reto, de base normal e seção achatada e irregular, normalmente com fuste curto. A ramificação é simpódica e irregular, formando copa baixa, arredondada e com poucas folhas; os ramos jovens, glabros e esparsamente pilosos, podem ser acastanhados e tornam-se glabrescentes com o tempo, exibindo tricomas esparsos. A casca atinge até 5 mm de espessura: por fora é lisa e cinza, salpicada de líquens e sem descamação evidente; por dentro tem coloração marfim, textura fibrosa de estrutura trançada, é bastante macia, esfarelenta e exala odor levemente perfumado. As folhas são simples, alternas e espiraladas, de formato obovado a elíptico, com base e ápice agudos e margem serreada provida de pequenos múcrons em alguns dentes. A lâmina foliar varia de 1,5 a 14,5 cm de comprimento por 0,7 a 6,0 cm de largura, com consistência subcoriácea, tonalidade verde mais escura na face superior (glabra) e face inferior fracamente pilosa; o pecíolo, rosado e levemente piloso, mede de 4 a 8 mm. As inflorescências são racemos paucifloros, com 3 a 5 flores ou reduzidos a uma só. As flores são monóclinas, isoladas ou em pares, de cor branca, rósea e roxa, com sépalas ciliadas, medindo de 1,0 a 1,2 cm e exalando odor suavemente doce. Os frutos são drupas de formato cilíndrico a obovado, com 0,8 a 1,5 cm de comprimento por 0,5 a 1,0 cm de largura; o pericarpo passa de verde-claro a roxo-enegrecido, cor que se estende às partes carnosas, de sabor adocicado. As sementes medem de 0,5 a 0,9 cm de comprimento.
Uso e ecologia
A madeira é leve, com massa específica aparente entre 0,40 e 0,45 g/cm³, e apresenta alburno e cerne pouco diferenciados, ambos de cor branca. Não tem valor comercial como madeira serrada ou roliça, e a lenha possui baixo poder calorífico, embora a espécie seja adequada para produção de celulose e papel. As folhas figuram entre os adulterantes da erva-mate (Ilex paraguariensis). No uso medicinal, a casca da raiz é amarga e adstringente, contém uma substância gomosa, e o chá da casca é empregado como auxiliar da digestão e no combate a febres tropicais, terçã ou malária. A espécie também é considerada excelente para a restauração de ambientes ripários.
Quanto ao grupo sucessional, classifica-se como secundária inicial a secundária tardia. Tem comportamento de invasora de sub-bosque em terrenos úmidos, chegando a formar povoamentos quase puros. No bioma Mata Atlântica, aparece na Floresta Estacional Decidual (formação Submontana, no Rio Grande do Sul), na Floresta Estacional Semidecidual (formações Submontana e Montana, em Minas Gerais e São Paulo, com até seis indivíduos por hectare) e na Floresta Ombrófila Mista, ou Floresta de Araucária (subformação Montana, no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, com 1 a 3 indivíduos por hectare). No bioma Pampa, ocorre em estepe ou campos no Rio Grande do Sul. Surge ainda em ambientes fluviais ou ripários no Paraná (até oito indivíduos por hectare), em campos rupestres ou de altitude em Minas Gerais e São Paulo, e em capões de Podocarpus lambertii no Rio Grande do Sul.
A floração acontece de setembro a janeiro no Paraná e de novembro a abril tanto em São Paulo quanto em Minas Gerais. No Paraná, os frutos amadurecem de dezembro a março.
A polinização é realizada por abelhas das famílias Trigonae e Meliponinae. A dispersão dos frutos e sementes é zoocórica, feita principalmente por aves e por pequenos mamíferos arborícolas, como o gambá-de-orelha-preta (Didelphus marsupialis) e o esquilo (Sciurus ingrami).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando passam a atrair as aves e mudam da cor verde-clara para roxo-enegrecida. Depois de coletados, ficam de molho em água por 12 a 24 horas para amolecer a polpa; em seguida, são macerados em peneiras sob água corrente para se separarem da parte carnosa. Já limpas, as sementes secam em peneiras, em local ventilado. Cada quilo reúne cerca de 19.500 sementes. Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento recalcitrante, perdendo a viabilidade rapidamente quando armazenadas.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando feita em sementeiras, a repicagem deve ocorrer de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea ou fanerocotiledonar, com emergência iniciando entre 25 e 55 dias após a semeadura e poder germinativo elevado, chegando a 85%. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio cerca de seis meses após a semeadura.
A espécie tem hábito de crescimento monopodial, com galhos finos, e apresenta boa desrama natural na regeneração quando ocorre em alta densidade. Pode ser plantada a pleno sol em plantio misto, associada a espécies pioneiras, ou no tutoramento de espécies secundárias-clímax em terrenos úmidos. Rebrota com vigor a partir da touça ou cepa.
Há poucos dados disponíveis sobre o crescimento da maria-mole-do-banhado em plantios.
A precipitação média anual varia de 1.200 mm, em São Paulo, a 2.300 mm, no Paraná. As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (à exceção do norte do Paraná) e periódicas no sul de Minas Gerais e em São Paulo. A deficiência hídrica é nula na Região Sul (exceto norte do Paraná) e na Serra da Mantiqueira (MG), pequena no verão no sul do Rio Grande do Sul, e de pequena a moderada no inverno no centro e leste de São Paulo e no sul de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 21 ºC (Campo Mourão, PR); a média do mês mais frio varia de 9,4 ºC (São Joaquim, SC) a 15,8 ºC (São Paulo, SP) e a do mês mais quente de 17,2 ºC (São Joaquim, SC) a 25,5 ºC (Foz do Iguaçu, PR). A mínima absoluta registrada foi de -10,4 ºC (Caçador, SC), podendo chegar a -17 ºC na relva em pontos do Planalto Sul-Brasileiro. O número de geadas vai de 0 a 30 em média, com máximo absoluto de 50 no Planalto Sul-Brasileiro, onde também pode nevar — em São Joaquim (SC) a neve ocorre quase todos os anos. Pela classificação de Köppen, a espécie vegeta em climas Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
A espécie ocorre naturalmente em solos de baixa fertilidade química, que costumam ter poucos cátions trocáveis, altos teores de alumínio e pH baixo. Tolera bem solos úmidos e mal drenados.