Foto: Thomaz Ricardo Favreto Sinani (CC BY) via GBIF
Marfim
Agonandra brasiliensis subsp. brasiliensis
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: pau-marfim, marfim-de-veado, marfim-verde, amarelão, cerveja-de-pobre, cervejinha, pau-d’alho-do-campo, pau-marfim-de-espinho, pau-marfim-da-mata, pau-marfim-do-campo, pau-d’alho-do-cerrado, cagaita, tinge-cuia, carobinho, imbu-d’anta, quina-doce, quina-da-mata, quina-de-veado, tatu, amoreira, amora-do-mato, mamica-amarela, mamica-de-cadela
Botânica
Pertencente à família Opiliaceae e à ordem Santalales, o marfim foi descrito botanicamente como Agonandra brasiliensis Miers ex Benth. & Hook. f. subsp. brasiliensis, com primeira publicação em 1862. A espécie reúne diversos sinônimos botânicos, entre eles Agonandra duckei, A. granatensis, A. lacera e A. macedoi. O nome do gênero combina os termos gregos agon (unidos) e andra (machos), em referência aos estames soldados, enquanto o epíteto brasiliensis indica a origem brasileira da planta. A diversidade de nomes populares é notável e varia conforme o estado: marfim-de-veado e marfim-verde no Acre, cerveja-de-pobre no Distrito Federal e em Minas Gerais, amoreira e amora-do-mato no Espírito Santo, amarelão no Pará e no Piauí, mamica-amarela e mamica-de-cadela em São Paulo, entre muitos outros. No Maranhão, os indígenas tupis-guaranis a denominam kangwaruhumyra. Fora do país também recebe nomes próprios, como turino del monte (Bolívia), caimancillo (Colômbia), palo de anciano (Paraguai) e aceituno (Venezuela).
Trata-se de uma espécie decídua, com porte que oscila entre o arbustivo e o arbóreo. Em savanas abertas predomina a forma de arbusto, de 1,80 m a 4 m de altura e até 12 cm de diâmetro, enquanto os maiores exemplares, registrados na Floresta Nacional do Tapajós, no oeste do Pará, chegam a cerca de 15 m de altura e 50 cm de DAP na fase adulta — podendo alcançar 30 m fora do Brasil. O tronco costuma ser tortuoso, de fuste curto, e a ramificação é dicotômica ou racemosa, com copa pouco definida e ramos terminais pendentes, irregulares e acinzentados. A casca, com até 4 cm de espessura, tem ritidoma rugoso, suberoso e bastante duro, de cor cinza a amarelada, profundamente fissurado e de aspecto quadriculado, lembrando a peroba (Aspidosperma duckei) e o marfim-de-cutia (Rauwolfia pentaphylla), das quais se distingue por não produzir látex; a casca interna é laranja-amarronzada. As folhas são alternas, simples e pendentes, ovais, membranáceas a cartáceas, medindo de 2,5 a 9,5 cm de comprimento por 2,1 a 6,6 cm de largura, com pecíolo de 0,5 a 2 cm e quatro nervuras secundárias ascendentes; contêm rafídeos ou células silicificadas e apresentam acentuado dimorfismo nos períodos mais secos. Nos indivíduos amazônicos, a folhagem tende a ser maior do que a das áreas secas do Nordeste. As inflorescências aparecem em racemos laterais ou axilares, espiciformes e bracteados, de 3 a 5 cm de comprimento. As flores são unissexuais: as masculinas têm aroma adocicado, coloração esverdeada e tricomas glandulosos; as femininas exibem tricomas glandulosos diminutos e brácteas caducas. O fruto é uma drupa globosa a oblongo-elíptica, verde e glabra, de mesocarpo carnoso e endocarpo coriáceo a lenhoso castanho-amarelado, medindo de 12 a 25 mm de comprimento por 15 a 19 mm de largura, com uma única semente. As sementes são globosas a alongadas, castanhas, de cerca de 1 cm de comprimento por 0,8 cm de largura, com embrião fusiforme de aproximadamente 7 mm.
Uso e ecologia
A madeira do marfim é densa (0,80 a 1,02 g/cm³), com cerne bege-amarelado uniforme e alburno amarelo-pálido, grã regular a irregular, textura fina e sem cheiro ou gosto marcantes. Compacta, pouco sujeita a fendas e fácil de trabalhar, recebe bom acabamento e brilho, sendo aplicada em marcenaria, carpintaria, trabalhos de torno, tacos, ebanisteria, raios de roda, estruturas de cadeiras, cabos de ferramenta e construções rurais ou provisórias. Como combustível, é usada na forma de lenha, com poder calorífico de 17.647,5 e teor de cinzas de 1,55%. O marfim é uma das principais espécies fornecedoras de cortiça do Cerrado: o súber que reveste tronco e galhos atinge até 4 cm de profundidade, é de boa qualidade e já foi aproveitado industrialmente em mistura com outras espécies regionais. Os frutos são comestíveis e, na Venezuela, viram doces semelhantes ao de marmelo; a raiz amarga faz a água espumar e é empregada para dar sabor e cor amarelada à chamada cerveja-de-pobre. As sementes rendem um óleo amarelado, viscoso, com cerca de 53% de pureza e ponto de congelamento muito baixo (-20 ºC), composto sobretudo por ácidos oleico (42%), palmítico (15%), esteárico (14%) e palmitoleico (5%), usado no meio rural como cicatrizante. Da casca extrai-se ainda uma tintura amarelada para o tingimento artesanal de tecidos. Na medicina popular, as folhas servem em banhos contra reumatismo, o óleo da casca é indicado para bronquite, as raízes têm uso purgativo no Piauí e a casca é usada por indígenas tupis-guaranis contra infecções de pele; a infusão de casca e raízes tem propriedades diuréticas e as folhas funcionam como aperiente.
Classificada como espécie pioneira, o marfim tem distribuição geográfica vasta, ainda que seja considerado raro. Ocupa diversos ambientes: na Mata Atlântica aparece em Floresta Estacional Decidual e Semidecidual de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Norte; na Amazônia, em Floresta Ombrófila Aberta e Densa do Acre, Amapá e Pará, com cerca de um indivíduo por hectare; no Cerrado, tanto no cerrado stricto sensu (onde pode chegar a 39 indivíduos por hectare na Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo) quanto em cerradão e campo sujo; na Caatinga, na savana-estépica do Ceará; e no Pantanal mato-grossense, em Mato Grosso do Sul. Também habita matas ciliares no Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, além de carrascos, restingas e áreas de transição entre campo rupestre e Cerrado.
A floração varia bastante conforme a região: de junho a setembro no Piauí, de junho a outubro no Distrito Federal e em São Paulo, de julho a setembro no Maranhão, de agosto a outubro em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, de setembro a novembro no Ceará e de dezembro a janeiro na Paraíba. Os frutos amadurecem de julho a agosto no Piauí, de setembro a outubro em São Paulo, de outubro a novembro no Distrito Federal e de outubro a dezembro em Mato Grosso do Sul.
Espécie dioica e, portanto, de fecundação cruzada, tem a polinização realizada provavelmente pelo vento. A dispersão dos frutos e sementes ocorre por endozoocoria, com ampla disseminação pela fauna silvestre — em especial veados, morcegos, aves, macacos e outros animais terrestres. Folhas, flores, frutos e rebrotos são muito apreciados pelo gado e pelos veados, e a semente oleaginosa, de sabor agradável, é bastante procurada pela caça.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a cair naturalmente, ou recolhidos do chão logo após a queda. Em seguida, são acondicionados em sacos plásticos até a polpa se decompor parcialmente, o que facilita extrair a semente por lavagem em água corrente com auxílio de peneira. Cada quilo reúne cerca de 415 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. De comportamento fisiológico recalcitrante, mantêm a viabilidade por no máximo seis meses.
Para produzir mudas, semeie em sementeiras ou diretamente em sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando preciso, a repicagem é feita de 4 a 6 semanas após a germinação ou quando a plântula tiver de 4 a 6 cm de altura. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência iniciando entre 70 e 80 dias após a semeadura e taxa em torno de 50%. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio por volta de seis meses após a semeadura.
O marfim é heliófilo e sensível ao frio. Apresenta crescimento simpodial, forma variável e irregular e dominância apical que aumenta com a idade; como a derrama natural é deficiente, exige podas de condução e de galhos. A espécie rebrota da raiz e da touça. Pode ser plantada a pleno sol, em plantio puro, embora nessas condições adquira forma pouco satisfatória. Segundo levantamentos das coleções examinadas, o táxon pode ser considerado protegido por estar presente em diversas Unidades de Conservação.
Há poucas informações sobre o desempenho da espécie em plantios, mas sabe-se que seu crescimento é lento.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.000 mm, no Ceará e na Bahia, a 2.600 mm, no Pará, sempre com chuvas periódicas; no oeste de São Paulo há deficiência hídrica moderada no inverno. A temperatura média anual oscila entre 21,2 ºC (Brasília) e 26,6 ºC (Fortaleza e Óbidos), com mínima absoluta de -3,7 ºC registrada em Coxim (MS) em 1975. Geadas são raras no sul de Mato Grosso do Sul e em Minas Gerais e ausentes no restante. Pela classificação de Köppen, ocorre nos climas Af, Am, As, Aw, Cwa e Cwb, conforme a região.
O marfim é indiferente quanto ao tipo de solo.