Foto: mauroguanandi (CC BY 2.0) via Wikimedia
Manduirana
Senna macranthera
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: canjoão, fedegoso-bravo, aleluia, amarelinho, caboclo, canafístula, cássia, chuva-de-ouro, fedegosão, fedegoso, paratudo
Botânica
Pelo sistema de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Fabales, dentro da família Caesalpiniaceae (Leguminosae, subfamília Caesalpinioideae). É classificada no gênero Senna, sendo Senna macranthera (Colladon) Irwin & Barneby o nome aceito, publicado em 1982. Cassia macranthera figura como sinônimo botânico. O nome do gênero, Senna, é uma antiga designação dada a plantas de uso medicinal.
Planta perenifólia que se apresenta como arbusto, arvoreta ou árvore, alcançando, nos exemplares adultos de maior porte, cerca de 15 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito. O tronco é um pouco tortuoso e de fuste curto, com casca de até 5 mm de espessura e camada interna amarelada. A ramificação é dicotômica e, em indivíduos isolados, forma uma copa arredondada de 7 a 8 m de diâmetro. A folhagem assume coloração verde-escura no verão e no outono, enquanto os brotos da primavera surgem verde-amarelados; as flores brotam nas pontas dos ramos do ano, criando um belo contraste. As folhas, de 2,5 a 4,5 cm de comprimento, são curto-estipitadas, com duas jugas e estípulas caducas. Os folíolos terminais medem de 6 a 12 cm por 2 a 4,5 cm, são oblongo-lanceolados, de ápice agudo, pilosos por baixo e quase glabros por cima, com nervação peninérvea de nervuras secundárias alternadas; em geral os folíolos do ápice superam os da base. Entre o primeiro par de folíolos, na face ventral, há uma glândula verde e ovada de cerca de 0,2 cm, e entre os folíolos apicais, na face dorsal, surge um apêndice filiforme de até 0,4 cm. O pecíolo é longo, fino, cilíndrico, verde e com pulvino normalmente dilatado. As inflorescências, pubérulas ou subseríceas, formam grandes panículas terminais. As flores são amarelas, grandes e viscosas, com pedicelo de 2 a 4,5 cm e sépalas membranáceas e oblongo-arredondadas. O fruto é um legume bacóide pendente, cilíndrico, levemente estrangulado entre as sementes, podendo atingir 30 cm de comprimento, e por vezes se abre ainda preso à planta, liberando as sementes. Estas são marrom-escuras, de formato redondo-achatado, medindo de 5 a 7 mm em seu maior diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira é leve (densidade de 0,50 g/cm³), com alburno e cerne pouco diferenciados e de tonalidade branco-amarelada; quando exposta em condições adversas, mostra baixa resistência ao apodrecimento. De importância econômica modesta, presta-se a peças pequenas, como caixotaria e obras leves, e fornece lenha de qualidade apenas regular, além de ser adequada à produção de celulose e papel. As flores são melíferas, o que confere valor apícola à espécie. Na medicina popular, a raiz é tida como antídoto contra diversos venenos e usada na prevenção da febre palustre, enquanto as folhas, em cataplasma, são aplicadas contra inflamações; também se atribuem à planta usos no tratamento de reumatismo, asma, anemia, problemas de garganta e do fígado, além de efeitos tônico e antiabortivo. A composição e a quantidade de galactomanana são comparáveis às de espécies de uso econômico, sinalizando potencial para aplicações futuras.
Trata-se de espécie pioneira a secundária inicial, ou ainda clímax exigente em luz, típica de formações secundárias como capoeiras e capoeirões. Está presente na Floresta Estacional Semidecidual em sua formação montana, em Goiás e Minas Gerais, com cerca de um indivíduo por hectare, e na Floresta Ombrófila Densa montana, em Minas Gerais e São Paulo, onde chega a quatro indivíduos por hectare. Aparece também na restinga baiana, no cerrado e cerradão do Distrito Federal e de São Paulo, em ambientes ripários do Distrito Federal, Minas Gerais e Rio de Janeiro, em campos rupestres mineiros e em zonas de contato vegetacional.
A floração varia conforme a região: de dezembro a abril no Rio Grande do Sul, de janeiro a abril no Paraná, de março a junho no Rio de Janeiro e em São Paulo, e de maio a setembro em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de março a abril em São Paulo, de maio a agosto em Minas Gerais e de junho a julho no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 3 anos de idade.
A espécie é monóica e se reproduz principalmente por autogamia e geitonogamia, com menor frequência de xenogamia. A polinização efetiva cabe à mamangava (Bombus morio) e a Centris (Melanocentris) dorsata, enquanto Xylocopa sp., Xylocopa frontalis e Exomalopsis sp. atuam de forma ocasional; há registros da abelha-europeia (Apis mellifera) visitando as flores. A dispersão é autocórica, por barocoria (gravidade), e também zoocórica: em Lavras (MG), aves como Elaenia flavogaster, o sanhaço-cinza (Thraupis sayaca) e o sanhaço-cara-suja (Tangara cayana) consomem seus frutos.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser coletados diretamente da árvore assim que começam a cair naturalmente, podendo-se também recolher as vagens inteiras para a semeadura. Cada quilo reúne de 20.000 a 27.600 sementes. Como o tegumento impermeável provoca dormência, recomenda-se quebrá-la para uniformizar a germinação, seja por escarificação mecânica, seja por imersão em ácido sulfúrico 95% por 15, 20 ou 50 minutos; tratamentos com água quente são considerados ineficazes por alguns autores. As sementes têm comportamento ortodoxo e, guardadas sob temperatura e umidade estáveis, mantêm boa capacidade germinativa por 2 a 4 anos.
Recomenda-se semear diretamente em recipientes individuais, pois a repicagem nem sempre é bem-sucedida; quando necessária, deve ocorrer com as plântulas entre 4 e 6 cm de altura. Há registro de semeadura de três sementes em tubetes cônicos de 50 cm³ (32 mm de diâmetro externo por 126 mm de altura). A germinação é epígea, fanerocotiledonar, e inicia-se de 10 a 30 dias após a semeadura; sem tratamento, a taxa fica entre 0% e 22%, subindo para 40% a 99% com as sementes tratadas. As mudas atingem porte de plantio cerca de 4 meses após a semeadura. Prefira mudas em embalagens individuais, já que as de raiz nua enraízam com dificuldade, e mantenha sombreamento por no mínimo 60 dias após a semeadura. A espécie é muito dependente de fungos micorrízicos arbusculares e respondeu bem à aplicação conjunta de superfosfato com Glomus etunicatum e Gigaspora margarita. Há ainda protocolo de regeneração in vitro por organogênese direta para a variedade nervosa.
Espécie heliófila que, em regiões de inverno mais rigoroso, sofre danos anuais nos ramos finos. Quando jovem, suporta podas leves, que devem ser reservadas a situações extremas. Indica-se plantio misto a pleno sol, com tutoramento para melhor formação. É recomendada para sombreamento de pastagens em Minas Gerais, onde sua copa regular projeta sombra média, com diâmetro de 3 a 5 m.
São escassas as informações disponíveis sobre o crescimento da manduirana em plantios.
A precipitação média anual de ocorrência vai de 730 mm, na Bahia, a 2.200 mm, em São Paulo, ainda que a variedade pudibunda apareça em Aiuaba (CE), no Sertão dos Inhamuns, com apenas 316 mm. As chuvas são bem distribuídas na Serra do Mar paranaense e periódicas nas demais áreas, com deficiência hídrica que vai de nula, na Serra do Mar, a forte, na Chapada Diamantina (BA) e no Ceará. A temperatura média anual oscila entre 18,1 ºC, em Diamantina (MG), e 27,2 ºC, em Mossoró (RN), com mínima absoluta de -2,7 ºC registrada em Caparaó (MG). As geadas são ausentes ou raras, até três por ano, em Minas Gerais, Paraná e São Paulo. Quanto a Köppen, a espécie ocorre nos climas As, Aw, BSh, Cfa, Cwa e Cwb, abrangendo desde o semiárido até o subtropical de altitude.
Tem preferência por solos férteis, mas tolera terrenos de fertilidade química mediana.