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Foto de Mandiocão

Foto: Marcio Santos Ferreira (CC BY) via GBIF

Mandiocão

Schefflera morototoni

Araliaceae AmazôniaCerradoMata Atlântica
  • 25 a 35 mAltura
  • Muito grandePorte
Crescimento rápidoMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: morototó, caixeta, caixeteiro, mandiocão-da-mata, mandioqueira, mandioqueiro, marupá, marupaúba, matataúba, imbaubão, pau-mandioca, pau-caixeta, pé-de-galinha, sambaquim, corda-de-viola, louro-sambaquim, mandiocão-vermelho, mandioqueiro-branco, mandioqueiro-bravo, pau-de-jangada, pau-de-são-josé, pinho, visgueiro

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de Cronquist, o mandiocão pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Umbelales e família Araliaceae. O nome aceito da espécie é Schefflera morototoni (Aublet) B. Maguire, J.A. Steyermark & D.G. Frodin. Já foi descrita sob outros nomes, hoje tratados como sinônimos, entre eles Didymopanax morototoni, Didymopanax morototoni var. angustipetalum, Panax morototoni e Sciadophyllum paniculatum. O gênero Schefflera homenageia o botânico dinamarquês J. Chr. Scheffler, enquanto o epíteto morototoni vem de morototó, nome popular bastante difundido na Amazônia brasileira.

Descrição botânica

Trata-se de uma árvore que mantém as folhas o ano todo. O porte varia conforme a região: no Nordeste chega a 25 m de altura e 45 cm de DAP; no Sul atinge até 30 m e 80 cm de DAP; e na Amazônia pode alcançar 35 m de altura e 120 cm de DAP na fase adulta. O tronco é cilíndrico, ereto ou levemente tortuoso, com fuste de até 15 m. A copa, característica e pouco ramificada, tem formato de guarda-chuva, com galhos surgindo apenas no ápice; quando comprimida entre árvores mais altas, sua projeção fica entre 10 e 12 m. A casca pode ter até 16 mm de espessura: por fora é cinza-clara a esbranquiçada, quase lisa a áspera, marcada por cicatrizes transversais deixadas pela queda das folhas e por lenticelas alinhadas; por dentro é branca, fibrosa e escurece rapidamente ao contato com o ar, liberando um látex incolor, aguado e pegajoso quando cortada. As folhas são compostas e digitadas, com 7 a 15 folíolos glabros, oblongo-lanceolados a elíptico-ovalados, de 15 a 45 cm de comprimento por 6 a 18 cm de largura, nitidamente discolores, sustentados por pecíolos longos, de até 70 cm. As flores são pequenas, numerosas, de cor bege ou bem clara, reunidas em umbelas que se organizam em amplas panículas terminais de 10 a 25 cm (em Porto Rico, de 30 a 60 cm). O fruto é uma drupa carnosa comprimida lateralmente, preto-azulada quando madura, de 4 a 12 mm, contendo em geral 2 a 3 sementes (até 5 no Pará e até 3 no Paraná). As sementes são pequenas, achatadas, rugosas e leves, sendo maiores no Sul do que no Norte do país.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalcelulose e papel
Produtos e utilizações

Por ser leve e ter boas propriedades físico-mecânicas, a madeira presta-se à carpintaria, marcenaria e partes internas da construção, como forros, lambris, esquadrias e guarnições. Também serve para caixotaria leve, embalagens, brinquedos, palitos de fósforo, miolo de portas, instrumentos musicais, cabos de vassoura, lápis, móveis, molduras, espátulas de sorvete, urnas funerárias e jangadas, além de laminação, compensado, painéis e lâminas decorativas faqueadas. A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,53 a 0,60 g/cm³ entre 12% e 15% de umidade; massa específica básica de 0,30 a 0,44 g/cm³), de alburno e cerne indistintos, branco-amarelados a branco-encardidos com tons de cinza e bege. A superfície é lisa e lustrosa, de grã direita e textura média, sem cheiro ou gosto marcantes. É macia e fácil de trabalhar com ferramentas manuais e mecânicas, aceitando bem pregos, parafusos, cola e acabamento, embora possa ficar felpuda após o aplainamento. Seca rapidamente, mas tende a empenar; é muito suscetível a fungos e insetos, devendo ser usada em ambientes protegidos da umidade, e responde muito bem a tratamentos preservativos. Semelhante ao marupá (Simarouba amara), é exportada como tal. Não costuma ser empregada como lenha. Para celulose é viável, com rendimento de 52,5%, fibras de 1,04 a 1,62 mm de comprimento e lignina com 26,84% de cinza. Na medicina popular de vários países, as folhas têm uso terapêutico: no Haiti, em compressas quentes para fraturas e luxações e, por via oral, em decocto contra lumbago e reumatismo; nas Antilhas Francesas e na Guiana, como antirreumático.

Aspectos ecológicos

É uma espécie pioneira a clímax exigente de luz, passando por estágios secundários inicial e tardio. Desenvolve-se com mais facilidade em florestas pouco densas e é comum na vegetação secundária, como capoeiras e capoeirões, sendo mais expressiva ali do que na mata primária; também aparece em clareiras de florestas altas. Tem longevidade média, entre 35 e 50 anos, com boa regeneração natural no Norte e razoável no Sul. Em um povoamento experimental de eucalipto com 3 anos em Belterra (PA), chegaram a ser observadas de 30 mil a 50 mil mudas por hectare em regeneração natural. A espécie tem ampla distribuição e adaptação a diversas tipologias florestais brasileiras: Floresta Ombrófila Densa amazônica e atlântica, Floresta Ombrófila Mista com araucária (onde é menos frequente), Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Estacional Decidual e encraves de serras cristalinas no Nordeste. Na Amazônia ocorre em matas de terra firme, capoeiras antigas e campinarana (em Rondônia); no Distrito Federal é frequente na mata ciliar. As densidades variam de 0,9 a 4,5 plantas por hectare no Nordeste, de 5 a 14 indivíduos por hectare em florestas estacionais semideciduais de Minas Gerais e São Paulo, e cerca de 13 por hectare em floresta estacional decidual do noroeste gaúcho.

Floração e frutificação

A floração ocorre entre novembro e fevereiro no Rio Grande do Sul; de janeiro a fevereiro no Paraná e no Rio de Janeiro; de fevereiro a março na Bahia; de março a abril em Minas Gerais; de março a julho em Goiás; de maio a julho em Pernambuco; e de maio a outubro no Pará. Os frutos amadurecem de janeiro a fevereiro no Rio Grande do Sul; em março no Distrito Federal; de maio a setembro em Minas Gerais; de junho a outubro no Paraná e em Pernambuco; de agosto a novembro em Mato Grosso e no Pará; e de outubro a novembro na Bahia e no Rio de Janeiro. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 4 anos nas Regiões Norte e Centro-Oeste e dos 8 anos no Sul.

Fauna associada

A espécie é hermafrodita. A polinização ainda foi pouco estudada, mas abelhas dos gêneros Trigona e Melipona já foram vistas visitando as flores na Costa Rica. A dispersão é predominantemente zoocórica, com forte participação de aves e mamíferos, em especial o macaco-bugio (Alouatta fusca) no Sul do Brasil; em Porto Rico cerca de 16 espécies de pássaros consomem seus frutos e sementes, e em Trinidad e Tobago os morcegos também atuam como dispersores. Alguns autores apontam ainda o vento como agente importante de dispersão.

Plantio e silvicultura
Sementes

A colheita no ponto certo de maturação é decisiva para se obter sementes de boa germinação. Como o amadurecimento é irregular, tanto na própria árvore quanto entre indivíduos, os frutos devem ser colhidos ao adquirirem cor roxa-escura e começarem a cair sozinhos. No Pará, a produção abundante de sementes ocorre apenas a cada 2 ou 3 anos. Depois de colhidos, os frutos são retirados dos cachos, lavados em água corrente, macerados para extrair as sementes e secos à sombra em peneiras. De 1 kg de fruto fresco obtêm-se de 100 a 150 g de sementes na Amazônia e cerca de 550 g no Sul. O número de sementes por quilo varia de 24 mil a 31 mil no Sul e de 35 mil a 99 mil no Norte (no México registraram-se 10.190/kg e na Argentina, 38.829/kg). A dormência tegumentar é pouca, embora haja relato de tegumento duro e impermeável; entre os tratamentos recomendados estão a imersão em água à temperatura ambiente por 12 horas, a imersão em água aquecida a 65 ºC fora do fogo com repouso de 12 horas, a escarificação em ácido sulfúrico por 5 minutos e o uso de solução de hipoclorito de sódio a 3%. As sementes são recalcitrantes e mantêm a viabilidade por cerca de 3 meses em condições ambientais variáveis; com baixa umidade inicial, devem ser guardadas em câmara seca a 12 ºC e 30% de umidade relativa, em saco de papel. Um lote de Belterra (PA) germinou 48% logo após a coleta e 33% aos 11 meses de armazenamento. Em laboratório, a espécie não respondeu à alternância de 20 ºC a 30 ºC com fotoperíodo; recomenda-se a temperatura constante de 20 ºC, com rolo de papel ou vermiculita como melhores substratos.

Produção de mudas

Recomenda-se semear em sementeiras e repicar as plântulas para sacos de polietileno ou tubetes grandes de polipropileno. A repicagem é feita de 3 a 5 semanas após a germinação no Sul e cerca de 90 dias após a semeadura na Amazônia, quando as mudas têm aproximadamente 5 cm; a poda de raízes atrasa o crescimento em altura, e a cobertura deve ser retirada de vez 30 dias após a repicagem. O sistema radicial é superficial. A germinação é epígea e começa entre 7 e 60 dias após a semeadura (de 60 a 166 dias quando as sementes são coletadas fora do ponto e sem tratamento de dormência). O poder germinativo chega a 48% no Sul (média de 20%) e a 70% no Norte (média de 30%); em Porto Rico e na Colômbia, registraram-se taxas baixas. As mudas ficam prontas para o plantio de 4 a 6 meses na Amazônia e em torno de 8 meses no Sul. As raízes apresentam ectomicorrizas, sendo útil coletar solo sob árvores adultas para inocular o fungo no enchimento dos recipientes. A propagação vegetativa é possível por estacas e por técnicas in vitro, como o cultivo de segmentos nodais, a embriogênese somática a partir de endosperma e o enraizamento de brotações. Na Amazônia, sugere-se substrato de Latossolo Amarelo muito argiloso, areia e matéria orgânica curtida na proporção 3:1:1, com 3 g de NPK (15-30-15) por litro. O transplante com raiz nua pega com dificuldade. Experimentos indicam que o sombreamento favorece o crescimento, sendo os níveis intermediários (50% a 70%) os mais adequados ao desenvolvimento da espécie.

Características silviculturais

Adulta, a espécie é heliófila, mas provavelmente exige menos luz no início da vida, comportando-se como umbrófila na fase juvenil. A tolerância ao frio vai de intolerante a medianamente tolerante quando jovem, conforme a intensidade das geadas; em florestas naturais do Sul, árvores adultas suportam até -8,4 ºC. O fuste tem forma variável e tende a bifurcar; uma marca da espécie é a ausência de ramos lenhosos nos estágios iniciais, com folhas presas diretamente ao tronco por pecíolos longos, surgindo os primeiros ramos a partir de 12 m de altura, mesmo a pleno sol. A desrama natural é satisfatória, e a poda de condução é indicada para árvores bifurcadas. Na Amazônia, recomendam-se espaçamentos de 3 x 4 m e 4 x 4 m; espaçamentos menores produzem fustes mais cilíndricos, enquanto os mais amplos aumentam a incidência de bifurcação e o risco de quebra por ventos fortes. A espécie é apta a plantios homogêneos a pleno sol (na Amazônia, as copas se fecharam aos 32 meses no espaçamento 2 x 2 m) e também a plantios mistos com pioneiras em faixas abertas em capoeira, onde cresce melhor em grupos do que em linhas; o plantio em vegetação matricial é preferível, pois reduz o ataque de insetos ao broto terminal observado a céu aberto. É a nativa mais usada em plantios comerciais no Norte, com áreas estabelecidas desde 1970 na Zona Bragantina para abastecer fábricas de fósforos em Belém, totalizando cerca de 200 hectares no Pará. Rebrota da touça após o corte. É recomendada para o Sistema Taungya, combinando silvicultura e agricultura, e atua bem como espécie coadjuvante em consórcios.

Crescimento e produção

É uma das madeireiras amazônicas de crescimento rápido. Aos 8 anos, os incrementos médios anuais são de 2,20 m em altura e 2,1 cm em diâmetro, mantendo ritmo constante mesmo em plantios mais velhos. Em Belterra (PA), atingiu 21,17 m³/ha/ano aos 6,5 anos, com produção máxima de 37,241 m³/ha/ano. Introduzida em Camarões, na África, para celulose, rende até 23,2 m³/ha/ano; na Colômbia, prevê-se até 40 m³/ha/ano com casca. No Pará, estima-se rotação de 7 a 20 anos para serraria, com madeira aproveitável a partir de 12 anos, e o conhecimento acumulado já permite recomendar plantações-piloto em toda a área de ocorrência. No Sul, a experimentação começou em 1988; em alguns locais do Paraná e de Santa Catarina houve mortalidade total, mas em plantio em Quedas do Iguaçu (PR), aos 8 anos, as alturas variaram de 3,40 a 10,80 m, com DAP máximo de 24 cm e incremento médio anual de 5,42 m³/ha/ano (fator de forma 0,5).

Clima

A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 1.200 mm (Espírito Santo e Rio Grande do Norte) a 3.000 mm (Pará), chegando a mais de 5.000 mm em partes da Colômbia. As chuvas são bem distribuídas no Sul (exceto norte e noroeste do Paraná) e na região de Belém, e concentradas no verão ou no inverno nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula no Sul e em Belém, pequena no inverno do norte do Paraná, de pequena a moderada na faixa costeira de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, e moderada no inverno do nordeste fluminense e do leste mineiro. A temperatura média anual varia de 16,6 ºC (Guarapuava, PR) a 26,7 ºC (Itaituba, PA, e Manaus, AM), com mínima absoluta de -8,4 ºC em Guarapuava e média de 0 a 13 geadas por ano (máximo de 30 no Sul). Quanto aos tipos climáticos de Köppen, abrange o tropical (Af, Am, As, Aw), o subtropical de altitude (Cwa, Cwb), o subtropical úmido (Cfa) e o temperado úmido (Cfb).

Solos

Na natureza, ocorre em solos profundos e bem drenados, de alta fertilidade química e boas propriedades físicas, mas também aparece em solos arenosos e de baixa fertilidade, como os do litoral paranaense. A textura vai de areno-argilosa a muito argilosa. Na Amazônia, cresce bem em Latossolo Amarelo distrófico e, de modo geral, adapta-se a vários tipos de solo, sobretudo os abandonados após uso agrícola.