Foto: Joaquin Valentinuzzi (CC BY) via GBIF
Mamica-de-porca
Zanthoxylum rhoifolium
- até 23 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: limãozinho, tamanqueira-de-terra-firme, carne-de-anta, tamanqueira, espinho-de-vintém, laranjinha, porquinha, maminha-de-porca, laranjeira, maminha-de-porco, maminha-preta, arruda, espinheiro, laranjeira-do-mato, mamica-de-cadela, mamica-de-porco, tinguaciba, coentrilho, coentro, juva, juveva, cafezinho, laranjinha-do-mato, arruda-brava, laranjeira-brava, tembetaru-de-espinho
Botânica
Pertencente à família Rutaceae e ao gênero Zanthoxylum, a espécie é classificada como Zanthoxylum rhoifolium Lam., publicada em 1768. Segundo o sistema de Cronquist, enquadra-se na ordem Sapindales, classe Magnoliopsida e divisão Magnoliophyta. O sinônimo botânico mais citado na literatura é Fagara rhoifolia (Lamarck) Engler, embora a espécie acumule uma sinonímia bastante extensa, com cerca de 24 binômios registrados. O nome do gênero deriva do grego e quer dizer "madeira amarela", enquanto o epíteto rhoifolium faz alusão à semelhança dos folíolos com os do gênero Rhus.
Trata-se de uma planta semidecídua que pode assumir porte de arbusto, arvoreta ou árvore. Os exemplares maiores alcançam, na fase adulta, em torno de 23 m de altura e 50 cm de diâmetro à altura do peito. O tronco é reto a um pouco tortuoso, cônico e acanalado na base, com fuste que chega a 6 m de comprimento e armado de acúleos grandes e robustos, capazes de formar protuberâncias lenhosas ao longo dos anos. A ramificação é dicotômica e a copa, alta e densa, exibe folhagem verde-amarelada de contorno irregular a arredondado. A casca atinge até 12 mm de espessura: em árvores jovens é lisa a levemente áspera, acinzentada, com lenticelas abundantes e manchas claras de liquens, além de acúleos grandes de pontas finas; nos exemplares mais velhos torna-se escamosa, soltando-se em escamas grandes e irregulares, e os acúleos ficam mais esparsos. Quando raspada, mostra coloração parda; a casca interna é de tom creme-esverdeado a amarelo-claro, de sabor resinoso, textura curto-fibrosa e estrutura laminada. As folhas são imparipinadas a paripinadas, subaladas, com raque de 8 a 37 cm e de 4 a 13 pares de folíolos opostos, sésseis, glabros, lanceolados, de ápice acuminado-caudado e base assimétrica, com 1,5 a 6 cm de comprimento por 1 a 2 cm de largura e numerosos pontos translúcidos. As inflorescências formam tirsos piramidais terminais e axilares de 4 a 16 cm. As flores são esverdeadas a esbranquiçadas, díclinas, de 3 a 5 mm, com cinco pétalas. O fruto é uma cápsula carnosa e globosa de 3 a 5 mm de diâmetro, de cor vermelho-carmim, com glândulas salientes, deiscência septicida e aroma característico de terebintina, geralmente contendo uma única semente. A semente, de 3 a 4 mm por 2 a 3 mm, é subglobosa a reniforme, dura, óssea, de cor preta a castanho-escura e superfície lisa, cerosa e lustrosa.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,675 g/cm³ e básica de 0,48 g/cm³), de cor amarela ao ser cortada e que empalidece com a exposição ao tempo; é dura e flexível, porém pouco durável fora de casa, sobretudo em contato com solo e umidade. Serrada ou roliça, presta-se à construção civil, carroçarias, marcenaria, carpintaria, ripas, remos, tanoaria, instrumentos agrícolas, cepas para escovas, tamancos e cabos de ferramentas e utensílios domésticos. Também é empregada como lenha e carvão, com poder calorífico entre 17.851,9 e 18.502,4 kJ/kg (cerca de 4.883,69 kcal/kg) e rendimento em carvão de 32%. É indicada para fabricação de papel e cartão pelo processo de pasta mecânica. Da espécie ainda se extrai óleo essencial: a semente é oleaginosa e fornece bom óleo secativo, com 26,34% de pureza. Quimicamente, das cascas foram isolados lignanas, lupeol e alcaloides, e da madeira um rutinosídeo de flavanona, além da xanthopicrita, substância amarga, amarela e cristalina. A forragem apresenta de 12% a 21% de proteína bruta e de 7,6% a 13,1% de tanino, não sendo considerada de boa qualidade.
Classificada como pioneira, secundária inicial ou clímax exigente em luz, é frequente em florestas secundárias, em áreas de agricultura migratória abandonada, nas bordas de mata e em sítios abertos, tornando-se rara no interior da floresta primária. Aparece em diversas formações: na Amazônia, em Floresta Ombrófila Aberta e em Floresta Ombrófila Densa de terra firme; na Mata Atlântica, em Florestas Estacionais Decidual e Semidecidual, na Floresta Ombrófila Densa e na Floresta Ombrófila Mista (com araucária), onde chega a 5 a 8 indivíduos por hectare; no Cerrado, em cerrado lato sensu e cerradão; no Pantanal Mato-Grossense, em florestas temporariamente alagáveis; e em campos do Pampa, no Rio Grande do Sul. Também ocupa ambientes ripários, brejos de altitude e encraves vegetacionais.
A floração varia conforme a região: de agosto a novembro em São Paulo; de setembro a janeiro em Santa Catarina; de setembro a maio no Amazonas; de outubro a novembro no Rio Grande do Sul; de outubro a fevereiro no Paraná; de outubro a maio em Pernambuco; em dezembro em Goiás e em Minas Gerais; e de dezembro a fevereiro no Pará. Os frutos amadurecem de novembro a julho no Amazonas, de janeiro a abril no Paraná, em fevereiro em Minas Gerais, de fevereiro a abril em São Paulo, de março a abril em Goiás e no Distrito Federal e de março a junho no Rio Grande do Sul.
A espécie é dioica e a polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é zoocórica, realizada principalmente por várias espécies de aves. Por serem consumidos pela avifauna, os frutos tornam a planta valiosa em plantios de recuperação de áreas degradadas.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando ficam vermelhos e as sementes quase pretas, mesmo após o início da deiscência, já que permanecem expostas por longo período (cerca de 30 dias). A colheita é feita escalando a árvore e cortando os ramos com frutos com auxílio de podão; frutos ainda fechados são deixados sobre peneira em local seco até abrirem, e depois esfregados na peneira para liberar as sementes. Cada quilo contém de 60.802 a 84.700 sementes, que apresentam comportamento ortodoxo no armazenamento. As sementes têm dormência tegumentar e podem apresentar embrião malformado, rudimentar ou ausente — em um teste de tetrazólio, 54% mostraram-se chochas. A escarificação em ácido sulfúrico concentrado por 5 minutos elevou a germinação de sementes recém-colhidas a 66%, enquanto a imersão em água a 80 ºC resultou em apenas 11%.
Recomenda-se a semeadura em sementeiras, com repicagem posterior para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, realizada de 4 a 6 semanas após o início da germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa entre 25 e 135 dias após a semeadura. O poder germinativo é irregular e em geral baixo, de 5% a 45%. As mudas atingem porte adequado por volta de 8 meses após a semeadura.
A mamica-de-porca destaca-se pela grande plasticidade frente a diferentes níveis de luz, podendo ser classificada como colonizadora de matas, e tolera baixas temperaturas. Tem crescimento monopodial e não realiza desrama natural quando cortada. O plantio misto e bem diversificado é o método de regeneração indicado; a espécie rebrota com vigor a partir da touça.
O ritmo de crescimento é moderado.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 600 mm, em Pernambuco, a 3.000 mm, no Pará, com chuvas uniformemente distribuídas no Sul do país (exceto o norte do Paraná), no sudoeste de São Paulo e nos arredores de Belém, e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula nessas mesmas áreas mais úmidas e varia de pequena a forte em outros locais. A temperatura média anual situa-se entre 15,5 ºC (Caçador, SC) e 26,7 ºC (Manaus, AM), com mínima absoluta de -10,4 ºC em Caçador e podendo chegar a -17 ºC em pontos do Planalto Sul-Brasileiro. O número de geadas vai de 0 a 30 por ano, com máximo de 81. Quanto à classificação de Köppen, ocorre em climas Af, Am, As, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb, refletindo sua ampla distribuição.
Adapta-se aos mais variados tipos de solo, dos pobres aos férteis, das várzeas aos terrenos montanhosos, com textura que vai de arenosa a areno-argilosa. Em Pernambuco, é encontrada em seu habitat na presença de afloramentos rochosos.