Foto: Thomaz Ricardo Favreto Sinani (CC BY) via GBIF
Mama-cadela
Brosimum gaudichaudii
- até 10 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: amora-vermelha, cuíba, leiteira, conduru, inharé, algodãozinho, irerê, bureré, mamica-de-cadela, maminha-cadela, quiri, apê
Botânica
Segundo a classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a mama-cadela pertence à ordem Rosales (em sistemas anteriores, como o de Cronquist, era situada em Urticales), à família Moraceae e ao gênero Brosimum. O nome científico aceito é Brosimum gaudichaudii Trécul, descrito originalmente em 1847. Entre os sinônimos botânicos registrados estão Brosimum aubletii, Brosimum discolor, Brosimum panamensis e Alicastrum gaudichaudii. O termo Brosimum remete a "fruto comestível", enquanto o epíteto gaudichaudii homenageia o botânico francês Gaudichaud. O nome popular mama-cadela surgiu da semelhança do fruto com a mama de uma cadela.
Trata-se de uma planta que varia de arbusto a árvore, com folhagem perenifólia (sempre-verde). Os indivíduos adultos de maior porte chegam perto de 10 m de altura e 30 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo), embora excepcionalmente possam atingir até 30 m. As condições locais influenciam bastante o porte: no nordeste do Mato Grosso a espécie aparece como arbusto de cerca de 1,50 m, e no Pico das Almas (BA) com apenas 0,75 m de altura. O tronco costuma ser tortuoso e de fuste muito curto, com ramificação dicotômica ou cimosa e copa de 3 m a 4 m de diâmetro. A casca tem até 5 mm de espessura, sendo a parte externa (ritidoma) cinza-clara, áspera, rugosa e descamante. As folhas medem de 3 cm a 13 cm de comprimento por 2 cm a 6 cm de largura, com lâmina elíptica a lanceolada, subcoriácea, acentuado dimorfismo e face inferior com pelos variáveis. As flores reúnem-se em capítulos; são bissexuais, verdes, sem perfume e desprovidas de pétalas. O fruto maduro é alaranjado, mede de 2 cm a 3 cm tanto em comprimento quanto em diâmetro, pesa de 2 g a 3 g e abriga de 1 a 2 sementes. As sementes são globosas, de cor creme, com até 1,5 cm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,72 g/cm³), com alburno e cerne pouco distintos e tonalidade marrom-acastanhada, textura média e grã direita; exposta ao tempo, apresenta baixa durabilidade. As toras fornecidas são de pequenas dimensões, e a lenha é de boa qualidade para energia, mas a espécie não serve para celulose e papel. Os frutos contêm a furocumarina bergapteno e costumam ser mascados como goma, de aroma e sabor próprios; das raízes isolam-se o bergapteno e o psoraleno, compostos de aplicação médica no tratamento do vitiligo. A polpa amarelada dos frutos pode ser consumida fresca ou em doces e bebidas, e as cascas secas e trituradas servem para aromatizar tabaco de cachimbo, liberando ao queimar uma fumaça com leve aroma de cumarina. No uso medicinal popular, raízes, cascas e folhas são bastante empregadas: a casca da raiz, em garrafadas, é usada como depurativo do sangue e contra intoxicação, e em Santo Antônio do Leverger (MT) o extrato de raízes, folhas e casca do caule é indicado para vitiligo e outras doenças de pele. As informações medicinais têm caráter apenas documental e não substituem orientação ou cuidados médicos.
É uma espécie pioneira, em geral de frequência elevada, porém com distribuição descontínua. Sua regeneração natural já foi registrada no estrato regenerativo da Floresta Estacional Semidecídua do Parque do Sabiá, em Uberlândia (MG). Ocorre em diversos ambientes: na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Decidual (Mata Seca) no norte de Minas Gerais e no Piauí, em Floresta Estacional Semidecidual no Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo (com até quatro indivíduos por hectare) e em Floresta Ombrófila Densa das terras baixas na Bahia e no norte do Espírito Santo. No Cerrado, aparece no cerrado stricto sensu de várias regiões (com até 18 indivíduos por hectare), no cerradão e no campo cerrado. No Pantanal, está presente no Pantanal Mato-Grossense. Também é encontrada em matas ciliares, carrasco, florestas de brejo e ecótonos diversos, alcançando até 22 indivíduos por hectare em Floresta Estacional Decidual no nordeste de Goiás.
A floração ocorre de fevereiro a junho na Bahia. Os frutos amadurecem de julho a dezembro na Bahia, de agosto a dezembro no Distrito Federal, em outubro no Mato Grosso e de novembro a dezembro em São Paulo.
A espécie é monoica e a polinização é feita principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão de frutos e sementes é essencialmente zoocórica; sementes foram encontradas em fezes da raposa-do-campo (Lycalopex vetulus). Tem ainda potencial melífero, produzindo néctar e pólen.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando ficam amarelos e começam a cair, ou recolhidos do chão. Em seguida, são amontoados em saco plástico até a polpa se decompor parcialmente, o que facilita a retirada das sementes. Cada planta produz de 30 a 100 frutos, e há de 570 a 600 sementes por quilo. Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento recalcitrante quanto ao armazenamento, ou seja, não se conservam bem.
Recomenda-se semear diretamente nos recipientes, usando sacos de polietileno ou tubetes de tamanho médio. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência começa de 30 a 40 dias após a semeadura. A taxa de germinação costuma superar 50%, e as mudas ficam prontas para o plantio de 5 a 7 meses depois da semeadura.
Espécie heliófila e medianamente tolerante a baixas temperaturas. Tem hábito tortuoso, sem dominância apical definida, com ramificação pesada, bifurcações e multitroncos, além de derrama natural fraca, o que exige podas frequentes de condução e de galhos. Pode ser cultivada em plantio misto, em faixas abertas em vegetação secundária ou em linhas. É considerada ameaçada de extinção, em razão do desmatamento do Cerrado pela expansão agrícola e do extrativismo predatório ligado à indústria farmacêutica.
Há poucos registros de crescimento da espécie em plantios; relatos pessoais indicam que o desenvolvimento é lento.
A precipitação média anual varia de 830 mm, no Pico das Almas (BA), a 2.200 mm, no Mato Grosso, com chuvas periódicas. A deficiência hídrica vai de pequena a moderada no inverno do sul de Goiás, e de moderada a forte no inverno do oeste de Minas Gerais, norte de Goiás e centro do Mato Grosso, além do Maranhão, oeste da Bahia, Tocantins e depressão do sudoeste mato-grossense. A temperatura média anual fica entre 18,1 °C (Diamantina, MG) e 27 °C (Floriano, PI), com mínima absoluta de -7,1 °C registrada em Campo Mourão (PR). As geadas são ausentes na maior parte da área de ocorrência e pouco frequentes no Paraná e em São Paulo. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am, Aw, Cfa, Cwa e Cwb.
Desenvolve-se naturalmente em solos de fertilidade média a alta, bem drenados e de textura que vai de arenosa a franco-argilosa.