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Foto de Louro-pardo

Foto: Rony Ristow (CC BY) via GBIF

Louro-pardo

Cordia trichotoma

Boraginaceae Mata AtlânticaCerradoCaatingaPantanal
  • 8 a 20 m (até 35 m)Altura
  • Grande portePorte
Raras / ameaçadasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: ajuí, amora-do-mato-alto, ipê-de-tabaco, maria-preta, cambará-uçú, cascudinho, ipê-louro, jurutê, pau-cachorro, canela-batata, canela-branca-do-brejo, canela-louro, canela-parda, capoeira, claraíba-parda, louro-mutamba, louro-se-colar, mutamba, claraíba, folha-larga, frei-jorge, freijó, frejó, louro, louro-amarelo, louro-preto, louro-amargoso, louro-anhinha, louro-batata, louro-branco, louro-cabeludo, louro-negro, louro-verdadeiro, louro-da-serra, louro-do-mato, louro-do-sul, malvão, pereiro-malva

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Segundo a classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Lamiales e família Boraginaceae. Seu nome científico é Cordia trichotoma (Vellozo) Arrabida ex Steudel, descrita em 1840. Ao longo do tempo recebeu vários sinônimos, entre eles Cordia alliodora var. tomentosa, Cordia frondosa, Cordia hypoleuca, Cordia trichotoma var. blanchetti e Gerascanthus trichotoma. O gênero Cordia homenageia os botânicos alemães Euricius Cordus e seu filho Valerius Cordus, enquanto o epíteto trichotoma significa "dividido em três partes", em referência ao estigma.

Descrição botânica

Árvore caducifólia que costuma medir entre 8 e 20 m de altura, com 40 a 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP), podendo chegar a 35 m e mais de 100 cm de DAP quando adulta. O tronco é reto, de seção ovalada a cilíndrica, com base normal nas plantas jovens e reforçada nas mais velhas, formando fuste bem definido de até 15 m. A ramificação é monopodial na juventude e dicotômica ou simpódica na fase adulta, com copa alongada, densa e arredondada que alcança até 8 m de diâmetro. A casca é relativamente espessa (até 35 mm); a parte externa, cinza-clara a castanho-acinzentada, é áspera e sulcada por fissuras longitudinais de até 2,5 cm de profundidade, enquanto a interna varia do marfim ao amarelo-claro, oxidando rapidamente para tons castanhos ou amarelo-escuros, de textura curto-fibrosa e estrutura laminada. As folhas são simples, alternas, espiraladas, oblongo-agudas e subcoriáceas, com base aguda e ápice acuminado; o limbo mede de 7 a 17 cm de comprimento por 3 a 8 cm de largura, nitidamente discolor, áspero e coberto de pelos estrelados na face superior e tomentoso na inferior, com margem levemente ondulada e pecíolo delgado de 1 a 4,5 cm. As folhas são polimorfas e muito variáveis quanto à pilosidade, indo de quase glabras a fortemente peludas. As flores são perfumadas e medem até 2 cm; surgem brancas e depois ficam pardas, permanecendo na planta (marcescentes), reunidas em grandes panículas terminais vistosas de 10 a 25 cm com cerca de cem flores. O fruto é uma núcula seca de pericarpo pouco espesso, cilíndrica e rômbica, de superfície lisa em tons bege a bege-esverdeado, com cálice e corola persistentes de cor castanha, medindo de 8 a 13 mm por 3 a 4 mm. A semente é elipsoidal, com cerca de 6 mm de comprimento e 2 mm de diâmetro, presa à parede do fruto pela base do estigma; a unidade de dispersão é o perianto inteiro, com fruto e semente.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

Por ter resistência mecânica média, aspecto agradável e retratibilidade moderada, a madeira do louro-pardo é muito apreciada na fabricação de móveis de luxo, revestimentos decorativos, lâminas faqueadas e lambris. Na construção civil é empregada em vigas, caibros, ripas, caixilhos, persianas, guarnições e tabuado, além de obras internas, tonéis, embarcações leves, réguas, ligações encavilhadas, carpintaria, marcenaria, chapas, peças torneadas, esculturas e freios de locomotiva. É uma madeira leve a moderadamente densa (0,43 a 0,78 g/cm³ a 15% de umidade; massa específica básica de 0,65 g/cm³), com alburno amarelo-pardacento distinto do cerne pardo-claro-amarelado, superfície lustrosa e levemente áspera, textura grosseira e grã direita, cheiro suave e gosto ligeiramente amargo. Apresenta boa resistência à flexão e boa estabilidade em usos interiores, com excelentes qualidades estéticas e decorativas valorizadas nos mercados interno e externo, podendo render peças envergadas e bom acabamento. Em contrapartida, tem baixa durabilidade natural diante de organismos xilófagos, baixa permeabilidade a preservantes e secagem difícil, com tendência a rachaduras de superfície e de topo. Como combustível produz lenha de baixa qualidade e é considerada inadequada para celulose e papel. A casca da raiz teria propriedade adstringente.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie secundária, do estágio inicial ao tardio, com tendência pioneira, mas que não atinge a condição de clímax. É comum na vegetação secundária, nos estágios de capoeira e capoeirão, aparecendo em terrenos abandonados, capões, pastos e roças, e destaca-se por ser uma árvore longeva. Ocupa diversas formações vegetais: na Floresta Estacional Semidecidual Submontana integra o estrato arbóreo dominante, com 5 a 10 indivíduos adultos por hectare; na Floresta Estacional Decidual das bacias do Uruguai e do Jacuí compõe o estrato emergente; está presente também na Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica) e na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), onde ocupa o segundo andar; na Caatinga arbórea/mata seca fica no segundo estrato, atingindo de 7 a 12 m; e ocorre eventualmente no cerradão de Minas Gerais e São Paulo, além de áreas erodidas de calcário no sudoeste da Bahia. As densidades registradas variam bastante: muito baixa no norte do Espírito Santo, cerca de 5 árvores numa encosta às margens do Rio do Peixe (SP), de 11 a 23 indivíduos por hectare em Perdizes (MG) e 6 por hectare em floresta decidual do noroeste gaúcho.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: dezembro no Ceará e em Pernambuco; de dezembro a abril no Rio Grande do Sul; de dezembro a maio em São Paulo; de dezembro a junho no Paraná; de janeiro a março em Santa Catarina; de janeiro a maio no Rio de Janeiro; março no Espírito Santo; de abril a maio no Distrito Federal; e de julho a agosto na Bahia. Os frutos amadurecem de abril a maio em Santa Catarina, de abril a julho no Rio Grande do Sul, de abril a dezembro em São Paulo, de maio a agosto no Espírito Santo, de maio a setembro no Paraná e de agosto a setembro no Distrito Federal. A reprodução começa por volta dos 4 anos após o plantio, e no Espírito Santo a planta produz sementes a cada 2 anos.

Fauna associada

É uma planta polígama, polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos; suas flores são melíferas e produtoras de pólen. A dispersão é anemocórica: envoltas pelo cálice persistente e com a corola marcescente funcionando como um paraquedas, as sementes voam para longe e ficam facilmente reconhecíveis no chão da floresta.

Plantio e silvicultura
Sementes

A unidade de colheita é o perianto, que reúne o envoltório floral e a semente. Convém acompanhar a maturação: quando os frutos ficam castanhos, devem ser coletados e observados até que os embriões estejam bem formados, secos e brancos; a semente está madura quando o fruto se mostra firme à compressão ou entumescido. A umidade ideal para a colheita fica entre 9% e 13%. As pétalas são removidas por maceração, mantendo o cálice em torno da semente, operação que também pode ser feita com descascador-escarificador de alto rendimento. Cada quilo contém de 20.000 a 37.347 sementes. Em geral não é preciso quebrar dormência, pois sementes sem tratamento germinam normalmente; ainda assim, estudos no Rio Grande do Sul apontam dormência tegumentar e recomendam escarificação mecânica por 2 segundos. As sementes são recalcitrantes: armazenadas em sala perdem a viabilidade em 60 dias. Em câmara seca a temperatura ambiente e 50% de umidade, sementes que germinavam 75% caíram para 26% após 29 meses; já em câmara fria e seca (10 a 12 ºC e 60% de UR), em sacos de pano ou de papel kraft e caixas de madeira, mantiveram a viabilidade por até 3 anos.

Produção de mudas

Recomenda-se semear em sementeiras e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, de 3 a 7 semanas após a germinação, quando surgem as folhas definitivas ou as mudas alcançam de 5 a 10 cm. Por ter raiz pivotante pronunciada, a espécie é sensível à poda de raízes, o que pode comprometer alguns transplantes. A germinação é epígea e costuma ocorrer entre 14 e 60 dias no verão e entre 32 e 112 dias no inverno, em geral de forma irregular e baixa, variando de 14% a 80% (em Colombo, PR, registrou-se média de apenas 11,6%, entre 0% e 17,5%). As mudas ficam prontas para o campo cerca de 6 meses após a semeadura. As raízes abrigam fungos micorrízicos arbusculares. A propagação vegetativa é viável: estacas de brotos caulinares enraízam até 67% com uso de ANA e AIB, e a microestaquia e a micropropagação também tiveram sucesso, com a melhor brotação obtida ao combinar BAP (1,0 mg/L) e ANA (0,01 mg/L); concentrações de 10 mg/L de BAP, porém, inibem as brotações. A espécie ainda se multiplica por estacas radiciais, rebentos de raízes, pseudo-estacas e tocos. Para reduzir o tempo de viveiro, recomenda-se enriquecer o substrato com matéria orgânica ou fertilizantes, inclusive vinhoto, sendo o vermicomposto eficiente como fonte de nutrientes na fase inicial. No Espírito Santo sugere-se sombreamento com sombrite de 50%. A poda de cerca de um terço da raiz pivotante melhora o desenvolvimento das mudas, tanto na parte aérea quanto na subterrânea.

Características silviculturais

O louro-pardo é semi-heliófilo e tolera sombreamento de média intensidade quando jovem. A pleno sol, as plantas jovens resistem moderadamente ao frio, sofrendo sobretudo com geadas tardias, embora no nordeste da Argentina seja tida como muito suscetível ao frio; em floresta natural, indivíduos adultos suportam até cerca de -11 ºC. Cresce de forma monopodial na juventude, com galhos inseridos em pseudo-verticilos (3 a 5 ramos na mesma altura). O fuste costuma ter boa forma, mas a desrama natural é insatisfatória, com galhos inseridos em ângulo de 45º ou mais; a presença de ramos grossos é o principal defeito de forma e exige poda. Os plantios apresentam grande variação em altura e diâmetro e, em parcelas homogêneas grandes a pleno sol, sofrem com pragas. Por isso recomenda-se não ultrapassar cem covas por hectare, plantando três mudas por cova (afastadas 30 cm) e eliminando as duas piores ao fim da primeira estação. O cultivo deve ocorrer em locais sem geadas ou com geadas leves e em solos de boa fertilidade, preferencialmente em plantio misto a pleno sol com espécies de crescimento semelhante ou superior, ou em vegetação matricial arbórea. Em faixas de até 4 m abertas na capoeira, onde encontra proteção contra o frio, o dossel deve ser aberto gradualmente. A espécie rebrota vigorosamente da touça após o corte e, em locais como Fênix (PR) e Misiones (Argentina), chega a formar povoamentos puros espontâneos. Pela arquitetura da copa, presta-se a sistemas agroflorestais silviagrícolas, à arborização de culturas consorciadas, à proteção de culturas perenes que precisam de sombra, a sistemas silvipastoris e a quebra-ventos (na Bolívia, com espaçamento de 4 a 5 m entre árvores). Há grande variabilidade entre plantas, e o melhoramento genético pode elevar bastante o desempenho; entre as procedências testadas pela Embrapa Florestas, Londrina (PR) e Itararé (SP) se destacam em crescimento e Colombo (PR) na tolerância ao frio. A espécie está em listas de plantas ameaçadas em São Paulo, no Distrito Federal e em Mato Grosso, sofrendo forte erosão genética por ser explorada de forma intensa, sem reposição, devido à madeira ainda mais decorativa que a dos freijós amazônicos.

Crescimento e produção

No Brasil o crescimento é lento a moderado, com os melhores incrementos volumétricos registrados em torno de 9,65 m³/ha/ano aos 10 anos e 10,70 m³/ha/ano aos 5 anos. Na Argentina o desenvolvimento é rápido, estimando-se até 23 m³/ha/ano com casca aos 13 anos para uma população de cem árvores por hectare. A rotação inicial prevista é de até 15 anos para desdobro, visando DAP de 45 cm em solos razoáveis e com bom manejo. Geadas fortes prejudicaram o crescimento em Chapecó e Concórdia (SC), e em Belterra (PA) a espécie teve 100% de mortalidade. A atividade do câmbio é sazonal, favorável nos meses chuvosos e desfavorável na estação seca.

Clima

A precipitação média anual onde ocorre vai de 800 mm, na Bahia, a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto norte e noroeste do Paraná) e no litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, e periódicas, concentradas no verão ou no inverno, nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula no Sul e no litoral sudeste, e moderada (estação seca de 2 a 5 meses) no Nordeste e no norte-centro de Minas Gerais. A temperatura média anual varia de 16,6 ºC (Rio Negro, PR) a 26,6 ºC (Fortaleza e Sobral, CE); a do mês mais frio fica entre 12,1 ºC (Xanxerê, SC) e 25,7 ºC (Fortaleza), e a do mês mais quente entre 19,9 ºC (Colombo, PR) e 27,5 ºC (Sobral). A mínima absoluta registrada foi de -11,6 ºC (Xanxerê). O número de geadas anuais vai de 0 a 11 em média, com máximo absoluto de 34 na Região Sul. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o temperado úmido (Cfb), o subtropical úmido (Cfa), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o tropical (Af, As e Aw).

Solos

A espécie é exigente quanto ao solo. Os plantios devem ser feitos em solos de fertilidade química média a alta, profundos, bem drenados e de textura franca a argilosa, condição preferida pela planta. Como é bastante influenciada por pequenas variações locais, devem-se evitar solos hidromórficos rasos ou arenosos.