Foto: Norma Piedra (CC BY) via GBIF
Louro-freijó
Cordia alliodora
- até 45 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: freijó, falso-louro, lourinho, chá-de-bugre, freijó-branco
Botânica
Pela classificação de Cronquist, o louro-freijó é uma angiosperma dicotiledônea da ordem Lamiales, família Boraginaceae, gênero Cordia, com a denominação científica Cordia alliodora Cham. (publicada em Linnaea, viii). Entre seus sinônimos botânicos figuram Cerdana alliodora Ruiz & Pavon, Cordia cerdana R. & S., Cordia cuyabensis Manso ex Cham. e Cordia velutina Mart. O nome do gênero homenageia o médico e botânico alemão Euricius Cordus e seu filho Valerius Cordus, enquanto o epíteto alliodora remete ao cheiro de alho exalado pela casca fresca e pelas folhas. No exterior a espécie recebe diversos nomes — picana blanca na Bolívia, laurel na Costa Rica, capá prieto em Porto Rico, pardillo na Venezuela, entre outros —, sendo laurel o mais difundido.
Trata-se de uma árvore decídua que perde as folhas na estação seca, embora em certos locais a folhagem velha permaneça até o brotamento das folhas novas. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 45 m de altura e 100 cm de DAP na fase adulta. O tronco costuma ser cilíndrico, reto e esbelto, frequentemente livre de ramos em 50% a 60% de sua altura, mesmo em árvores isoladas; possui pequenas sapopemas que, em solos rasos, podem se estender de 1 a 1,5 m, e raízes superficiais longas e laterais, com raiz principal profunda quando as condições favorecem. A ramificação é dicotômica e a copa, pequena, arredondada e em geral simétrica; os ramos têm tricomas estrelados e, nos ápices, intumescências (domácias) que abrigam formigas. A casca atinge até 15 mm de espessura — externamente marrom-esverdeada nos indivíduos jovens, muitas vezes esbranquiçada por liquens e tornando-se escura, fissurada e áspera com a idade; a casca interna é fina, dura, fibrosa, sem sabor e com leve odor de alho. As folhas são simples, alternas, elípticas, de pecíolo piloso (1 a 2 cm), lâmina de 4 a 15 cm de comprimento por 2,5 a 4,5 cm de largura, bordas inteiras e ápice acuminado. As inflorescências surgem em vistosas panículas axilares ou terminais de 5 a 30 cm. As flores são hermafroditas, brancas e muito perfumadas, com cálice cilíndrico verde-acinzentado de 5 mm coberto por pelos estrelados e corola tubular de 1 cm de comprimento por 12 mm de largura, com cinco lóbulos oblongos que passam de branco a tom de café. O fruto mede 5 mm, mantendo cálice e corola persistentes em cor de café. A semente é elipsoidal, de 6 mm por 2 mm, dispersada junto com o perianto; cada árvore produz de 2 a 8 kg de sementes.
Uso e ecologia
A madeira do louro-freijó é leve a moderadamente densa (0,31 a 0,70 g/cm³ a 15% de umidade), com cerne café-claro a café-dourado, por vezes com veios escuros, e alburno cinza-amarelado. Sem odor característico e de sabor levemente amargo, apresenta grã reta (ocasionalmente entrecruzada), textura lisa a média, veteado pronunciado e alto brilho. Seca ao ar com rapidez moderada e excelente estabilidade dimensional, é fácil de serrar, aplainar, lixar e tornear, resiste a rachaduras e atinge bom polimento e acabamento. É considerada durável à biodeterioração — sobretudo o cerne —, resistente a cupins de madeira seca, mas vulnerável a organismos marinhos; o cerne não absorve bem tratamentos preservativos, ao passo que o alburno aceita absorção razoável. Muito valorizada nos mercados internacionais, substitui madeiras como teca, nogueira, mogno e cedro quando a cor não é decisiva. Nos trópicos americanos é largamente empregada em móveis, marcenaria, construção civil leve e naval, assoalhos, laminados, compensados, pontes, dormentes, carrocerias e embarcações. Pode servir como lenha e, estima-se, render boa polpa para papel. As sementes e folhas têm uso na medicina caseira, e no Pantanal a forragem da espécie é apreciada por bovinos.
É uma espécie pioneira ou clímax exigente em luz. Aparece com frequência em florestas secundárias, formando reboleiras densas dominadas por árvores de porte semelhante. Onde recebe forte iluminação, mostra-se bastante agressiva e invasora, colonizando clareiras, áreas derrubadas e campos abandonados. No Brasil ocorre na Mata Atlântica (Floresta Estacional Semidecidual submontana, em Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais), na Amazônia (Floresta Ombrófila Densa de Terra Firme, em frequência muito baixa, 0,2 a 0,6 m³/ha), no Cerrado (Savana Florestada ou Cerradão, eventualmente, em Mato Grosso do Sul) e também no Pantanal.
A floração vai de maio a agosto no Mato Grosso do Sul e de agosto a setembro no Pará. No Pará, os frutos amadurecem entre setembro e novembro. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 5 anos de idade.
A polinização é feita por mariposas e a dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, realizada pelo vento. As flores são melíferas e ricas em néctar, configurando boa fonte de mel e atraindo também abelhas nativas.
Plantio e silvicultura
A unidade de dispersão é o perianto, que envolve o envoltório floral e a semente. A colheita deve acompanhar a maturação: os frutos são colhidos ao adquirir cor castanha, quando se apresentam firmes à compressão ou entumescidos, e devem ser observados até que os embriões estejam bem formados, secos e brancos; o teor de umidade ideal da semente na colheita fica entre 9% e 13%. As pétalas são retiradas por maceração — deixando o cálice em torno da semente — ou com descascador-escarificador, de alto rendimento. Cada quilo reúne de 20 mil a 42 mil sementes (chegando a 100 mil no Haiti). Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes têm vida curta: guardadas em ambiente comum perdem totalmente o poder germinativo em um mês, mas em recipientes fechados a 5 ºC e com 10% a 25% de umidade do ar mantêm a viabilidade por vários meses.
A semeadura é feita em sementeiras, com posterior repicagem para sacos de polietileno preto (20 cm de altura por 7 a 15 cm de diâmetro) ou tubetes de polipropileno de tamanho médio; as plântulas são repicadas ao alcançar cerca de 5 cm. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 15 e 30 dias após a semeadura e poder germinativo próximo de 80% em sementes frescas. As mudas atingem o ponto ideal de plantio (20 a 25 cm) em 6 a 7 meses. Após a repicagem, permanecem totalmente sombreadas por 10 dias, com redução gradual do sombreamento até estarem a pleno sol em 30 dias; nesse período, as raízes que escapam do saco são podadas. As raízes associam-se a fungos micorrízicos arbusculares, em especial do gênero Glomus. A propagação vegetativa é viável e fácil por enraizamento com AIB (ácido indolbutírico) a 1,6%; em outros países da América Tropical, a produção também ocorre por estaquia (tocos ou stumps) e por semeadura direta.
Na fase juvenil a espécie é heliófila a levemente esciófila, mas, adulta, exige muita luz e não tolera baixas temperaturas. Tem forma aceitável, crescimento vertical monopodial e boa derrama natural. É apta para regeneração artificial em larga escala e excelente para plantios em linha sob cobertura de vegetação secundária, exigindo espaçamentos amplos; rebrota pouco da touça, porém emite brotações de raiz em abundância. É muito usada em sistemas agroflorestais de toda a sua zona de ocorrência, valorizada como sombreadora em cafezais, plantações de chá e cacau e em áreas de pastoreio — na América Tropical há cerca de 1 milhão de hectares com a espécie em consórcios. Recomenda-se plantio de 3 a 4 m entre árvores. Dada a vasta área de distribuição, existem vários ecótipos com comportamentos distintos conforme a procedência, de modo que a escolha da origem adequada das sementes é importante na introdução da espécie.
É cultivada sobretudo dentro de sua área natural — com destaque para Costa Rica, Colômbia, Equador e Suriname — e também em Maurício, Nigéria, Serra Leoa e Vanuatu, em cerca de 1.000 ha. A produtividade estimada é de 10 a 20 m³/ha/ano, em rotação de 25 a 30 anos. No Sul do Brasil, onde os testes são recentes, o crescimento é moderado, podendo chegar a uma produção volumétrica estimada de até 10,40 m³/ha/ano aos 7 anos, em Rolândia (PR).
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência no Brasil vai de 900 mm, na Chapada Diamantina (BA), a 2.800 mm, no Pará; fora do país, a espécie aparece desde 750 mm nas savanas secas do Haiti até 5.000 mm na América Central. As chuvas são uniformemente distribuídas nos arredores de Belém (PA) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula perto de Belém, de pequena a moderada no Pará, Acre, Rondônia e noroeste do Maranhão, e de moderada a forte no inverno do oeste de Minas Gerais, sul de Goiás e centro de Mato Grosso. A temperatura média anual varia de 21,9 ºC (Uberlândia, MG) a 26,7 ºC (Itaituba, PA), com mínima absoluta de -2,0 ºC em Uberlândia e geadas ausentes a raras no oeste mineiro. Conforme Köppen, os climas incluem Af e Am na Amazônia, Aw em ampla porção de ocorrência, Cwa no sul de Goiás e Cwb na Chapada Diamantina.
Espécie típica de planícies e terrenos levemente elevados, evita encostas íngremes. Cresce em solos argilosos profundos, terrenos arenosos e solos calcários pedregosos, mas foge de substratos degradados, de águas estagnadas e excessivamente ácidos. A umidade parece mais determinante do que a alta fertilidade do solo. Prefere pH alcalino a neutro, embora suporte solos ácidos ou de drenagem deficiente em alguns períodos.