Foto: Nevinho (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Lobeira
Solanum lycocarpum
- até 5 mAltura
- Pequeno portePorte
Também conhecida como: fruta-do-lobo, fruto-de-lobo, fruta-de-lobo, fruteira-de-lobo, jurubebão, jurubeba-lobeira
Botânica
Pertencente ao gênero Solanum e à família Solanaceae, a lobeira tem como nome científico aceito Solanum lycocarpum A. St.-Hil., descrito pela primeira vez em 1833. Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), está posicionada na ordem Solanales (anteriormente Polemoniales, no sistema de Cronquist) e no clado das Euasterídeas I. Entre seus sinônimos botânicos figuram Solanum grandiflorum var. pulverulentum e S. lycocarpum var. decalvatum. O nome do gênero deriva do latim solamen (alívio, consolo), aludindo ao efeito calmante e indutor de sono de várias espécies do grupo; já o epíteto lycocarpum vem do grego lyco (lobo) e karpos (fruto), pois o fruto serve de alimento ao lobo-guará (Chrysocyon brachiurus), origem também do popular nome lobeira.
Arbusto ou pequena árvore de folhas perenes, a lobeira raramente passa de 5 m de altura, atingindo cerca de 30 cm de diâmetro à altura do peito quando adulta. O tronco é cilíndrico e tortuoso, com fuste muito curto ou praticamente ausente. A ramificação é dicotômica e irregular, formando uma copa arredondada e aberta de 3 a 4 m de diâmetro, com ramos frequentemente retorcidos, armados de acúleos rígidos e recobertos por pelos esbranquiçados a levemente ferruginosos. A casca chega a 20 mm de espessura, sendo a externa amarelada, áspera e fendida no sentido do comprimento. As folhas são coriáceas, verde-acinzentadas, tomentosas e cobertas de pilosidade branca em ambas as faces, com lâmina de 6 a 24 cm de comprimento por 4 a 14 cm de largura e pecíolos de até 7 cm; sua anatomia revela traços xeromorfos típicos, adaptados ao ambiente do Cerrado. As inflorescências são cimosas, terminais ou extrafoliáceas, reunindo até oito flores hermafroditas de corola azul, lilás ou azul-violácea, com até 2,1 cm de comprimento e estames amarelos avantajados. Os frutos são bagas carnosas (solanídios) globosas e ligeiramente achatadas, de 7 a 16 cm de diâmetro e 400 a 900 g, com polpa suculenta, amarelada e aromática; cada um abriga de 300 a 500 sementes elipsoides de 6 a 7 mm de comprimento.
Uso e ecologia
A polpa madura, amarelada e perfumada, é aproveitada por populações rurais no preparo de doces e geleias, embora o consumo deva ser moderado devido ao alto teor de solasonina, que pode provocar distúrbios digestivos; o fruto verde, por sua vez, é rico em tanino. A farinha extraída do mesocarpo, conhecida como polvilho-de-lobeira, é empregada no controle do diabetes e como redutora de colesterol. Na medicina caseira, a espécie é tida como importante: raízes, folhas e frutos são usados contra gripes, resfriados, hepatite e asma, além de atuarem como emolientes, antirreumáticos, tônicos e desobstruintes do fígado e do baço. Quimicamente, foram identificados os compostos solamargina e solasonina. As folhas e os frutos servem de forragem ao gado e aos suínos, mas há registros de mortes de bovinos por asfixia mecânica ao engolirem os frutos inteiros (e não por envenenamento). A madeira é leve, macia, esbranquiçada (com alburno e cerne indistintos), de textura média, grã direita, baixa resistência e muito sujeita ao apodrecimento; por suas dimensões reduzidas presta-se apenas a caixotaria, sendo o lenho também indicado para a produção de carvão para pólvora, e inadequada para celulose e papel.
Espécie pioneira, a lobeira é rara na vegetação nativa, porém comum em áreas perturbadas do Cerrado e nas margens de estradas, onde brota de forma espontânea. Em pastagens, costuma ser vista por pecuaristas como planta invasora ou daninha. Ocorre no Cerrado em formações como campo cerrado, campo sujo, cerrado stricto sensu (com frequência de até quatro indivíduos por hectare) e cerradão, e também na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Semidecidual das formações de terras baixas e montana. Aparece ainda em matas ciliares, áreas de entorno de manguezais, zonas de tensão ecológica, campos antrópicos e campos de murundu.
A floração varia conforme a região: de março a dezembro e de outubro a maio no Paraná, de abril a setembro no Piauí e de setembro a dezembro em São Paulo; em Juiz de Fora (MG), chega a florescer o ano inteiro. Os frutos amadurecem de janeiro a abril em Mato Grosso, de março a julho no Distrito Federal, de maio a junho em São Paulo, de junho a julho no Piauí e de novembro a junho no Paraná.
As flores têm anteras poricidas e dependem da polinização por vibração, realizada por abelhas especializadas como Augochloropsis sp. e Pseudaugochloropsis graminea (Halictidae), além de representantes das famílias Andrenidae, Anthophoridae, Apidae e Megachilidae; como não produzem néctar, as abelhas coletam apenas o pólen. A dispersão das sementes é por gravidade e, sobretudo, por animais: o principal dispersor é o lobo-guará (Chrysocyon brachiurus), em cuja dieta os frutos chegam a 50%, seguido da raposa-do-campo (Lycalopex vetulus), do lagarto-teiú (Tupinambis merianae) e de morcegos.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos ainda na planta, no fim da maturação, antes que caiam ao chão e sejam atacados por roedores, formigas e cupins. Para extrair as sementes, recomenda-se amontoar os frutos em sacos plásticos até a polpa se decompor, facilitando a lavagem em água corrente. Cada planta rende de 40 a 60 frutos, e o quilo contém de 27.800 a 65.700 sementes. Na natureza, as sementes duras passam por escarificação natural ao atravessarem o trato digestivo de animais, razão pela qual mudas brotam com frequência em fezes de bovinos. As sementes perdem a viabilidade rapidamente em condições ambientais.
A propagação recomendada começa pela semeadura em sementeiras, com posterior repicagem das plântulas para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 20 e 40 dias e taxa em torno de 50%. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio no campo cerca de seis meses após a semeadura.
Heliófila, a lobeira exige pleno sol. Sua tolerância à geada varia conforme a procedência: é sensível na maior parte da área de ocorrência, mas resistente no centro-leste do Paraná. O hábito de crescimento é irregular, sem dominância apical, com ramificação intensa e formação de multitroncos; não há desrama natural, mas a planta responde bem à poda de condução e à poda de galhos, que devem ser periódicas. Por ser pioneira de terrenos abertos, indica-se o plantio puro, a pleno sol, via sementes.
Há poucos dados sobre o desempenho da lobeira em plantios, mas observa-se que seu crescimento inicial em campo é bastante rápido.
A precipitação média anual na área de ocorrência vai de 850 mm, na Bahia, a 1.700 mm em Minas Gerais, no Paraná e em São Paulo, com chuvas uniformes no Planalto Centro-Leste do Paraná e periódicas no restante. A deficiência hídrica vai de nula a forte conforme a região. A temperatura média anual oscila entre 17,6 °C (Jaguariaíva e Ponta Grossa, PR) e 26,8 °C (Parnaíba, PI), com mínima absoluta de -7,1 °C registrada em Campo Mourão (PR) em 1975. As geadas são raras, ausentes na maior parte da distribuição. Segundo Köppen, predominam os climas Aw, Cfa, Cwa e Cwb.
A espécie cresce espontaneamente tanto em terrenos rasos quanto profundos, sempre bem drenados e de fertilidade variável, normalmente em solos pobres e ácidos, com altos teores de alumínio, pH entre 3,5 e 5,5 e textura de franca a argilosa.