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Foto de Licurana

Foto: Guillaume Delaitre (CC BY) via GBIF

Licurana

Hyeronima alchorneoides

Phyllanthaceae Mata AtlânticaAmazôniaCerrado
  • até 40 mAltura
  • Muito grandePorte
MadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: urucurana, maubão, pau-pedra, cajueiro-bravo, pequi-de-zoada, carne-de-vaca, goiabeira-brava, quina-do-pará, sangue-de-boi, mangonçalo, maragonçalo, margonçalo, muiragonçalo, urucana, lucurana, aricurana, iricurana, uricurana, abacateiro, abacateiro-roxo, licorana, pau-de-quina, quina-vermelha, urinana

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a licurana é uma angiosperma do clado das Eurosídeas I, pertencente à ordem Malpighiales e à família Phyllanthaceae (na classificação de Cronquist, era situada na ordem Euphorbiales e na família Euphorbiaceae). A espécie é Hyeronima alchorneoides Freire Allemão, do gênero Hyeronima, publicada em Trab. Soc. Vellosiana, em 1848. São reconhecidos como sinônimos botânicos os nomes Hyeronima ferruginea (Tul.) Tul., Hyeronima laxiflora (Tul.) Muell.-Arg., Hyeronima mollis Muell. Arg. e Stilaginella amazonica Tulasne. O nome do gênero homenageia Hieronymus Bock, médico, botânico, professor e prefeito dos Jardins de Zweibruecken, na Alemanha; já o epíteto alchorneoides faz referência à semelhança da planta com o gênero Alchornea.

Descrição botânica

Árvore semidecídua que, em idade adulta, pode chegar a cerca de 40 m de altura e 100 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é cilíndrico, reto ou levemente tortuoso, com sapopemas na base. A ramificação é cimosa e dá origem a uma copa ampla, densa e de esgalhamento largo e tortuoso, no formato umbeliforme, lembrando um guarda-chuva. A casca chega a 20 mm de espessura: a parte externa (ritidoma) é cinzento-escura e fissurada, com sulcos estreitos e longitudinais, enquanto a interna é avermelhada e de sabor amargo. As folhas são simples e alternas, com estípulas decíduas claviformes que dão a impressão de uma folha em botão; as lâminas medem de 8 cm a 22 cm de comprimento por 7 cm a 17 cm de largura, sendo cerca de duas vezes maiores nas plantas jovens do que nas adultas. São inteiras, de formato suborbicular a oblongo ou ovado-elíptico, com ápice agudo ou obtuso e base cordiforme ou arredondada, subcoriáceas ou membranáceas. Quando jovens, mostram-se discolores, verde-claras na face superior e cinzentas na inferior; são peninérveas, com 7 a 10 nervuras laterais salientes e ferrugíneas na face de baixo. O pecíolo tem de 5 cm a 10 cm, é finamente sulcado e recoberto por densos tricomas escamosos. Com o envelhecimento, as folhas adquirem uma coloração avermelhada bastante típica. As inflorescências surgem em panículas multifloras, subterminais e axilares, mais curtas que as folhas, com 8 cm a 12 cm de comprimento. As flores são minúsculas e amareladas, com todas as partes escamosas; cada panícula tem de 9 a 10 ramos nos exemplares masculinos e cinco nos femininos. O fruto é uma cápsula ovado-globosa, glabra e brilhante, que varia de roxa a negra ao amadurecer e mede de 4 mm a 5 mm, contendo até três sementes pretas e globosas, de casca muito dura.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasapícolaenergia
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,69 g/cm³ a 0,85 g/cm³ a 15% de umidade (de 0,50 g/cm³ a 0,60 g/cm³ em Honduras) e massa específica básica entre 0,50 g/cm³ e 0,60 g/cm³. O cerne varia do vermelho-acastanhado claro ao escuro, podendo ser pardo-rosado e uniforme, com alburno pouco diferenciado, bege-pardacento-rosado. A superfície tem lustre discreto e é medianamente áspera, de grã irregular ou entrecruzada, brilho mediano e textura grosseira com veteado suave. Apresenta resistência moderada ao apodrecimento e a cupins; em contato com o solo é de moderadamente durável a durável, suporta bem ambientes úmidos e água salgada e tem alta resistência a xilófagos marinhos. É moderadamente suscetível à preservação por vácuo/pressão, com possível boa penetração pelo banho quente/frio. Por ter baixa estabilidade dimensional, deve ser seca lentamente e em local bem ventilado para evitar empenamentos e rachaduras. É fácil de trabalhar em diversas máquinas, com bom acabamento após o lixamento, embora o cepilhamento seja problemático por causa da grã entrecruzada e a madeira rache com facilidade. É aplicada em construção civil interna (vigas, caibros, esteios, ripas), engradados, móveis de baixo custo, construção naval (quinas, mastros, peças curvas, cavername, proas, canoas), trapiches, pranchas de ponte, carroçarias, barris, postes, mourões e carpintaria em geral, além de fornecer dormentes de primeira qualidade, que duram até 12 anos sem tratamento mesmo em condições climáticas adversas. A madeira serve ainda como lenha e carvão e produz celulose de qualidade razoável para papel. As flores são melíferas. A forragem tem 12,5% de proteína bruta e de 7% a 12% de tanino, o que a torna pouco indicada para esse fim, e as substâncias tanantes obtidas são economicamente irrelevantes pelas pequenas quantidades.

Aspectos ecológicos

É uma espécie secundária inicial ou clímax exigente em luz, longeva e típica dos estágios sucessionais de capoeiras e capoeirões, onde chega a ser dominante em terrenos abandonados com 30 a 50 anos, sobretudo em Santa Catarina e no Paraná; na floresta primária, é pouco frequente. No bioma Mata Atlântica ocorre na Floresta Estacional Semidecidual (formações Submontana e Montana, no Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com até quatro indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (formações das Terras Baixas, Submontana e Montana, no Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo, com até 25 indivíduos por hectare) e na restinga, em São Paulo. Na Amazônia, está na Floresta Ombrófila Densa de Terra Firme, no Acre e no Amapá, com até dois indivíduos por hectare. Aparece também em ambientes fluviais ou ripários (Bahia, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com até seis adultos e 18 indivíduos de regeneração por hectare), em cabrucas no sul da Bahia, em floresta higrófila (mata de brejo) em São Paulo e em floresta de igapó no Pará.

Floração e frutificação

A floração ocorre de outubro a fevereiro em Santa Catarina, de novembro a março no Rio Grande do Sul, de janeiro a fevereiro no Paraná e de janeiro a março no Rio de Janeiro; um levantamento de 41 árvores em Santa Catarina observou floração em 29,21% delas. Os frutos amadurecem de dezembro a maio em Santa Catarina, de abril a julho no Paraná e de junho a julho no Rio Grande do Sul.

Fauna associada

É uma espécie dioica, polinizada predominantemente por abelhas. A dispersão de frutos e sementes é autocórica, por gravidade (barocórica), e também zoocórica, com a participação de animais como o muriqui (Brachyteles arachnoides). A licurana atrai diversas aves, entre elas sanhaços, saíras, tiês, gaturamos, tangarás, pombas e periquitos.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos maduros, quando passam do vermelho ao negro; a frutificação anual é abundante. Cada quilo reúne de 26 mil a 70 mil sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. A viabilidade em armazenamento é curta, não passando de seis meses.

Produção de mudas

Recomenda-se semear em sementeiras e repicar as plântulas, de 2 a 4 semanas após a germinação, para sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes de polipropileno grandes. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa de 20 a 30 dias após a semeadura, com poder germinativo de 25% a 50%. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de seis meses depois da semeadura. A espécie também se propaga vegetativamente, por brotações caulinares.

Características silviculturais

É uma espécie esciófila, que tolera sombreamento de intensidade média, mas não suporta baixas temperaturas. Tem forma tortuosa e ramificação pesada, sem desrama natural, exigindo poda frequente e periódica. Pode ser conduzida em plantio puro a pleno sol no espaçamento de 3 m x 3 m ou em plantio misto a pleno sol, associada a espécies de maior crescimento em altura, e ainda em vegetação secundária para enriquecer capoeiras e capoeirões; rebrota da touça ou cepa. É empregada em sistemas agroflorestais nas várzeas do Rio Juba, em Cametá (PA), e no sistema de cabruca, no sul da Bahia.

Crescimento e produção

Os dados de crescimento divulgados são escassos. Em plantios experimentais no Parque da Gávea, no Rio de Janeiro (RJ), exemplares aos 3 anos de idade alcançaram alturas entre 2,90 m e 5,30 m.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 830 mm, na Chapada Diamantina (BA), a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP), podendo chegar a 6.000 mm na América Central. As chuvas são bem distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e no litoral paulista, e periódicas nas demais regiões; a deficiência hídrica varia de nula, no Sul e no litoral de São Paulo, a forte, no oeste da Bahia e no norte do Maranhão. A temperatura média anual fica entre 18,1 ºC (Diamantina, MG) e 26,1 ºC (São Luís, MA), chegando a 30 ºC na Costa Rica, com mínima absoluta de -5 ºC em Telêmaco Borba (PR). A ocorrência de geadas vai de 0 a 10 por ano em média, com máximo de 18 no Paraná, embora predominem áreas sem geadas ou com geadas raras. Pela classificação de Koeppen, abrange os tipos Af, Am, Aw, Cfa, Cwa e Cwb.

Solos

É pouco exigente quanto ao tipo de solo. Na natureza, ocupa solos medianamente úmidos de várzeas e início de encostas, de fertilidade química alta, com textura bastante variável, do franco-arenoso ao argiloso e aluvial. Na Costa Rica, desenvolve-se bem em solos com pH abaixo de 5,0 e em terrenos mal drenados, suportando inundações esporádicas; também cresce bem em pastagens abandonadas e em solos de origem vulcânica, bem drenados, ácidos e não pedregosos.