Foto: Marcia Stefani (CC BY 2.0) via Wikimedia
Leiteiro
Sapium glandulatum
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: burra-leiteira, burra-leiteira-folha-miúda, pau-de-leite, visgueiro, leiteiro-graúdo, leiteiro-mole, leiterinha, leiterinho, leiteira, mata-olho, pau-branquinho, pau-leiteiro, toropi, árvore-de-borracha, currupiteira, leiteiro-de-folha-graúda, pela-cavalo
Botânica
Pela classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, ao clado das eurosídeas I e à ordem Malpighiales (chamada de Euphorbiales no sistema de Cronquist), dentro da família Euphorbiaceae e do gênero Sapium. O binômio aceito é Sapium glandulatum (Vell.) Pax., descrito pela primeira vez em 1912. A espécie possui sinonímia extensa, sendo os nomes mais citados na literatura Omphalea glandulata Vell., Sapium biglandulosum (Aubl.) Muell. Arg., Sapium lanceolatum Huber e Sapium petiolare (Muell. Arg.) Huber. Quanto à origem dos nomes, o termo genérico Sapium deriva do celta sap, que significa viscoso, numa alusão ao látex produzido pela planta; já o epíteto glandulatum remete às glândulas presentes nas bordas das folhas.
De hábito que varia do arbustivo ao arbóreo e folhagem decídua, o leiteiro pode alcançar cerca de 20 m de altura e 80 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, tomado a 1,30 m do solo) quando adulto. Em ambientes rochosos de campo rupestre, costuma assumir porte subarbustivo ou arbustivo, ficando entre 1 m e 2 m. Indivíduos que crescem diretamente sobre afloramentos calcários perdem e renovam as folhas mais cedo do que os do entorno, o que sugere estratégias eficientes de economia de água. O tronco é praticamente cilíndrico, quase circular, ereto e com base alargada, e o fuste chega a 14 m de comprimento. A ramificação é dicotômica ou simpódica, e a copa é alta, densa, de contorno irregular a umbeliforme, com folhagem clara e tom levemente avermelhado; é comum encontrar nos ramos galhas produzidas por um lepidóptero. A casca atinge até 11 mm de espessura: externamente é acastanhada a castanho-acinzentada, sulcada longitudinalmente (fendas com cerca de 3 mm de profundidade), de textura curto-fibrosa, estrutura laminada e desprendimento pulverulento; internamente é amarelada a rosada, sem odor perceptível, e quando ferida libera látex branco-opaco, pegajoso, em quantidade e velocidade de fluxo medianas. As folhas são simples, alternas, glabras, estipuladas e elípticas, com lâmina geralmente oblanceolada de 4 cm a 28 cm de comprimento por 1,5 cm a 8 cm de largura; o ápice tem duas glândulas conspícuas, ovais ou cilíndricas e divergentes, de 1 mm, e há ainda um par de pequenas glândulas tubulares laterais no ápice do pecíolo ou na base do limbo, além de glândulas ocasionais na margem e na face inferior. As folhas são brilhantes em ambas as faces, de base aguda, margem finamente serrilhada a moderadamente crenada, pecíolo delgado e longo (1 cm a 6,5 cm) e nervação peninérvea com nervuras laterais irregulares e tortuosas; ao serem arrancadas, exsudam látex. A morfologia foliar é bastante variável, assim como a forma, a dimensão e a inserção das glândulas peciolares. As inflorescências surgem em espigas terminais, por vezes laterais, de até 16 cm, com eixo grosso e poucas flores femininas na base. As flores são pequenas, numerosas, de cor branca a verde-amarelada e unissexuais, com as femininas dispostas abaixo e as masculinas acima. O fruto é uma cápsula lenhosa deiscente, subglobosa, de 4 a 6 valvas, medindo de 7 mm a 15 mm de diâmetro, com uma semente por lóculo. As sementes são ovoides, roxas e duras, com 6 mm a 8 mm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira do leiteiro é leve, com densidade de 0,35 g/cm³ a 0,50 g/cm³ a 12% de umidade; o alburno recém-cortado é branco-amarelado e o cerne é bege-claro-pardacento, de tonalidade amarelada. A superfície varia de áspera a lisa, com brilho discreto, textura média a grosseira, cheiro e gosto imperceptíveis e grã direita e muito uniforme. Embora seja fácil de serrar, aplainar e lixar e apresente boas perspectivas para verniz e acabamentos, a madeira é muito vulnerável a fungos manchadores, que escurecem sua cor original (creme-clara) já nos primeiros dias após o corte; tratar as extremidades das toras com preservativos, como o pentaclorofenol, evita esse problema. É empregada em caixotaria, ripas e chapas de partículas, e em São Paulo já foi tida como uma das melhores lenhas. As flores oferecem pólen e têm potencial apícola. A espécie serve à produção de papel e celulose, com fibras de 1,38 mm de comprimento e teor de lignina com cinza de 26,86%. Entre os constituintes fitoquímicos há alcaloides e saponina. O látex é abundante e de qualidade variável conforme o terreno; seu resíduo é uma borracha em geral de boa qualidade, comercialmente conhecida como tapuru. O látex que escorre das cascas feridas coagula ao ar formando uma matéria escura, viscosa, elástica e de odor desagradável, tradicionalmente usada para capturar pássaros. No uso medicinal popular, no Paraguai aplica-se o látex contra picadas de cobra, embora o próprio autor desaconselhe a prática; estudos identificaram atividade analgésica e anti-inflamatória em extratos aquosos das folhas, mas a planta também é tóxica e causa irritação na pele. No campo, o látex é usado para eliminar bernes. A espécie é empregada eventualmente em arborização urbana, mas, por causa do sistema radicular, não é indicada para ruas estreitas; também é recomendada para plantio em áreas de solo permanentemente encharcado.
Trata-se de uma espécie pioneira, secundária inicial ou clímax exigente em luz. É encontrada sobretudo em vegetação secundária (capoeiras e capoeirões), em capões e no interior de pinhais parcialmente devastados do Planalto Sul-Brasileiro. Na Mata Atlântica ocorre em Floresta Estacional Decidual (com até quatro indivíduos por hectare), Floresta Estacional Semidecidual (até 12 por hectare), Floresta Ombrófila Densa (até 15 por hectare) e Floresta Ombrófila Mista, com araucária (até 19 por hectare). No Cerrado aparece em campo cerrado, cerrado stricto sensu e cerradão; na Caatinga, na savana-estépica do sertão árido da Bahia e da Paraíba; no Pampa, nos campos do sul do Brasil, no Rio Grande do Sul; e na Amazônia, em capoeiras de platô e de vertente, no Amazonas. Ocupa ainda matas ciliares (com até três indivíduos por hectare), áreas alagáveis, campos rupestres, carrascos, caxetais, dunas, florestas de brejo, inselbergs, restingas e vegetação sobre afloramentos calcários.
A floração concentra-se de maio a julho em Minas Gerais, de setembro a novembro em São Paulo, de outubro a dezembro em Santa Catarina e de outubro a fevereiro no Paraná e no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de julho a novembro em Minas Gerais, de dezembro a maio no Paraná, de dezembro a março no Rio Grande do Sul e de fevereiro a junho em São Paulo.
A espécie é monoica e tem na polinização um processo pouco especializado, conduzido principalmente por abelhas sem ferrão que coletam o pólen (entre elas Geotrigona subterranea, Paratrigona subnuda, Plebeia droryana, Plebeia remota, Scaptotrigona bipunctata, Schwarziana quadripunctata, Tetragona clavipes e Tetragonisca angustula), além de diversos pequenos insetos. A dispersão é autocórica, tanto por gravidade (barocórica) quanto por animais (zoocórica). As sementes são consumidas por aves e atravessam intactas o trato digestivo, e a espécie atrai anus-pretos, inhambus, guaracavas, tesouras, bem-te-vis, sabiás e suiriris, entre outras aves.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a se abrir espontaneamente, o que é facilmente notado pela exposição do arilo vermelho que envolve as sementes; depois, são expostos ao sol para concluir a abertura e liberar as sementes. A produção é abundante todos os anos, e cada quilo reúne cerca de 18.200 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento fisiológico recalcitrante e perdem a viabilidade rapidamente, de modo que o armazenamento não é aconselhável e não se conhecem métodos eficazes para conservá-las.
Recomenda-se semear em sementeiras e depois repicar para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, transferindo as plântulas quando atingem 4 cm a 5 cm de altura. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 10 e 35 dias após a semeadura e poder germinativo em geral baixo; as mudas ficam aptas ao plantio cerca de seis meses depois da semeadura. A propagação vegetativa é difícil: registrou-se baixo enraizamento, com o verão como melhor época para coletar as estacas (28% de enraizamento com 4.000 mg/L de IBA em solução), ainda que haja relato de que a estaquia seja o meio mais comum de propagação da espécie.
Espécie heliófila e tolerante a baixas temperaturas, apresenta forma inicial satisfatória, com dominância apical bem definida, ramificação leve, boa derrama natural e capacidade de rebrota da cepa ou touça. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro ou em plantio misto, associada a outras pioneiras ou servindo de tutor a espécies secundárias-clímax, e ainda em faixas abertas em capoeiras jovens, na fase de vassouras (Baccharis spp.), plantada em linhas.
Há poucos dados disponíveis sobre o desempenho do leiteiro em plantios.
A precipitação anual média na área de ocorrência vai de 770 mm, na planície litorânea do centro-norte do Rio de Janeiro, a 3.200 mm, no litoral de São Paulo, com chuvas bem distribuídas na região Sul (exceto no norte do Paraná) e no sudoeste de São Paulo e regime periódico nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula nessas áreas de chuva uniforme, pequena no verão do sul gaúcho, de pequena a moderada no Amazonas e no inverno do Distrito Federal e do sul de Goiás e de Minas Gerais, moderada no inverno do norte do Paraná e no nordeste do Espírito Santo, e de moderada a forte no inverno do centro de Mato Grosso, do oeste de Minas Gerais, do oeste da Bahia, do Ceará e de Pernambuco. A temperatura média anual oscila entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 26,7 ºC (Manaus, AM); a média do mês mais frio vai de 8,2 ºC a 26 ºC e a do mês mais quente de 19,9 ºC (Curitiba, PR) a 27,6 ºC (Manaus, AM). A mínima absoluta registrada foi de -10,4 ºC, em Caçador, SC (1963), podendo chegar a -17 ºC em pontos do Planalto Sul-Brasileiro. Geadas são frequentes no Planalto do Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e acima de 1.000 m nas serras do Mar, da Mantiqueira e da Bocaina, e há possibilidade de neve em parte da área, com São Joaquim (SC) registrando neve quase todos os anos; o número médio de geadas varia de 0 a 30, com máximo de 81. Segundo Köppen, ocorre nos tipos Af, Am, As, Aw, BSh, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb, conforme a região.
Cresce naturalmente em qualquer tipo de solo, dos mais secos até dentro de lagoas ou sobre vegetação aquática flutuante, podendo se comportar como planta aquática.