Foto: Alessandro Sil (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia
Jurema-preta
Mimosa tenuiflora
- até 7 mAltura
- Pequeno portePorte
Também conhecida como: calumbi, espinheiro-preto, jurema
Botânica
Segundo a classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à família Fabaceae (chamada de Leguminosae no sistema de Cronquist), subfamília Mimosoideae e gênero Mimosa, dentro da ordem Fabales. O nome científico aceito é Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., que reúne sinônimos como Acacia tenuiflora Willd., Mimosa hostilis (Mart.) Benth. e Mimosa limana Rizzini, além de outros listados por Barneby. O termo Mimosa deriva das raízes gregas mimein (mover) e meisthal (imitar), referência ao movimento das folhas de muitas espécies do gênero quando agitadas pelo vento ou pelo toque. Já jurema tem origem em jú-r-ema, expressão que significa espinho suculento.
Árvore semidecídua que perde parte da folhagem em determinada época do ano. Os exemplares de maior porte alcançam cerca de 7 m de altura e 30 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo) na fase adulta. O tronco vai de reto a levemente inclinado e exibe acúleos espalhados. A ramificação é farta e, em plantas que crescem sem perturbação, surge acima da meia-altura; os ramos têm cor castanho-avermelhada e poucos acúleos. A casca chega a 5 mm de espessura: a parte externa (ritidoma) é castanho-escura, às vezes acinzentada, áspera, rugosa e com fendas no sentido do comprimento, enquanto a interna é vermelho-escura. As folhas são compostas, alternas e bipinadas, com 4 a 7 pares de pinas de 2 cm a 4 cm; cada pina reúne de 15 a 33 pares de folíolos lustrosos de 5 mm a 6 mm. As flores, brancas, diminutas e de odor marcante, reúnem-se em espigas isoladas de 4 cm a 8 cm. O fruto é uma vagem pequena de 2,5 cm a 5 cm, pluriarticulada e de deiscência tardia, com casca fina e quebradiça quando madura, abrigando de 4 a 6 sementes. As sementes são pequenas, ovais, achatadas, castanho-claras e medem de 3 mm a 4 mm.
Uso e ecologia
A madeira é muito densa, com massa específica aparente de 0,86 g/cm³ a 1,10 g/cm³ e massa específica básica de 0,90 g/cm³ a 0,99 g/cm³; anatomicamente apresenta poros predominantemente solitários, geminados e em agrupamento radial, distribuídos em porosidade difusa uniforme, parênquima axial paratraqueal (vasicêntrico, vasicêntrico confluente, aliforme e aliforme confluente), raios em sua maioria multisseriados e bisseriados e fibras de parede espessa e muito curtas. Bastante resistente, é usada em obras externas como mourões, estacas e pontes, além de pequenas construções, rodas, peças de resistência e móveis rústicos. Serve também como lenha e produz carvão de alto poder calorífico, empregado em forjas e fundições, com rendimento de 39,68% em carvão vegetal, carbono fixo de 71,79% e poder calórico de 6.866 cal/g. Não é indicada para celulose e papel. Folhas e frutos são palatáveis para bovinos, caprinos e outros animais; a análise da parte aérea revelou 14,61% de proteína bruta, 4,01% de tanino, digestibilidade in vitro de 60,86% e 0,92% de cálcio. Na região de Xingó (Alagoas, Bahia e Sergipe), 31 de 32 produtores rurais entrevistados a apontaram como muito apreciada por caprinos, que consomem voluntariamente plântulas, folhas novas e maduras, flores e frutos. No campo medicinal, o pó da casca trata queimaduras e acne, e a planta tem ação antimicrobiana, analgésica, regeneradora de células, febrífuga e adstringente peitoral; as folhas têm os mesmos usos e a casca da raiz possui efeito psicoativo.
Trata-se de uma espécie pioneira que aparece tanto em formações primárias quanto em secundárias, sendo comum nas capoeiras. A jurema-preta tira proveito de ambientes alterados pela ação humana, chegando a dominar o processo de sucessão por longos períodos; em algumas áreas de Caatinga muito degradadas, torna-se praticamente a única espécie presente. Ocorre na Savana-Estépica (Caatinga do Sertão Árido) em Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba e Pernambuco, com densidade de até 87 indivíduos por hectare, e na Floresta Estacional Decidual das Terras Baixas, no Rio Grande do Norte. Aparece ainda em matas ciliares na Paraíba e em Pernambuco, em contato carrasco/caatinga no Piauí e em inselbergs do semiárido baiano. Fora do Brasil, é registrada no enclave xerofítico do estado de Mérida, na Venezuela.
A floração ocorre de julho a fevereiro em Pernambuco e de setembro a janeiro no Ceará. Os frutos amadurecem de dezembro a março em Pernambuco e de fevereiro a abril no Ceará.
É uma espécie hermafrodita, polinizada sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão das sementes é autocórica, principalmente barocórica, ou seja, ocorre pela ação da gravidade. Tem ainda importância apícola, fornecendo néctar e pólen para a produção de mel no Ceará.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore e secos ao sol, o que facilita a quebra e a extração das sementes. Cada quilo reúne cerca de 110.000 sementes. Elas apresentam dormência causada pela impermeabilidade do tegumento à água: embora esse mecanismo favoreça a sobrevivência da espécie, limita a propagação, já que poucas sementes germinam em condições naturais. Para a produção de mudas, recomendam-se tratamentos pré-germinativos, como escarificação em água fervente por 1 minuto ou imersão em ácido sulfúrico por 5 minutos. As sementes têm comportamento fisiológico ortodoxo e conservam o poder germinativo por até 1 ano em condições ambientais.
A semeadura pode ser feita diretamente em sacos de polietileno, em tubetes pequenos de polipropileno ou em canteiros para posterior repicagem, que deve acontecer de 1 a 2 semanas após o início da germinação ou quando as plântulas atingirem 3 a 5 cm de altura. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 5 e 10 dias após a semeadura e taxa de 65% a 90%. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 3 meses depois da semeadura. A planta forma raiz axial pivotante e raízes superficiais, estas em menor quantidade do que em outras espécies da Caatinga. As raízes nodulam e fixam nitrogênio em simbiose com bactérias do gênero Rhizobium.
Espécie heliófila que não tolera baixas temperaturas. Apresenta hábito muito variável: costuma ser bem ramificada desde a base, com copa aberta, bastante ramificada e bifurcada, embora existam indivíduos de crescimento monopodial. Não faz desrama natural, mesmo em espaçamento de 1 m x 1 m. É recomendada em consórcio com espécies arbóreas de maior valor, pois cria um microclima que favorece o desenvolvimento das demais. Em sistemas agroflorestais, é indicada para arborização de pastagens, oferecendo forragem verde por boa parte da estação seca (período que pode ser prolongado com o rebaixamento da planta) e sombra para animais e solo; seus galhos espinhosos servem para fazer cercas de ramo.
Há poucos dados sobre o desempenho da jurema-preta em plantios, mas seu crescimento inicial em altura é rápido.
A precipitação média anual varia de 380 mm, na Paraíba, a 1.650 mm, no Ceará, com chuvas periódicas e forte deficiência hídrica no Nordeste (exceto o norte do Maranhão) e no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 23,5 ºC (Senhor do Bonfim, BA) e 27,2 ºC (Mossoró, RN), com mínima absoluta registrada de 10,1 ºC (Paulo Afonso, BA, em 11 de dezembro de 1971); na Venezuela, em Mérida, a média anual é de 23,2 ºC. Não há geadas em sua área natural. Segundo a classificação de Köppen, predominam os tipos Aw (tropical com inverno seco), As (tropical com verão seco) e BSh (semiárido quente).
Desenvolve-se naturalmente em terrenos profundos, sobretudo em solos de textura arenosa. Por exigir pouca fertilidade e umidade, prospera mesmo em áreas muito degradadas, com movimentação de terra e subsolo exposto, e também cresce em sítios alagadiços.