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Foto de Juçara

Foto: Tiago Lubiana (CC0) via GBIF

Juçara

Euterpe edulis

Arecaceae Mata AtlânticaCerrado
  • 5 a 10 m (até 20 m)Altura
  • Médio portePorte
Raras / ameaçadasFrutíferasMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: palmiteiro, palmito-juçara, palmito-doce, palmiteiro-doce, açaí-do-sul, içara, jaçara, jiçara, iuçara, ensarova, inçara, palmiteira, palmito, palmito-branco, palmito-da-mata, palmito-vermelho, ripa, ripeira

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação de Cronquist, Euterpe edulis está entre as monocotiledôneas (classe Liliopsida), na ordem Arecales e na família Arecaceae (palmeiras), tendo sido descrita por Martius em 1824. São reconhecidos como sinônimos botânicos os nomes Euterpe equsquizae e Euterpe globosa. O gênero Euterpe faz referência à musa da música, alusão ao porte elegante dessas palmeiras, enquanto o epíteto edulis vem do latim e significa 'comestível', em virtude do palmito de excelente qualidade que a espécie fornece.

Descrição botânica

Palmeira que costuma medir de 5 a 10 m de altura e de 5 a 15 cm de DAP, podendo chegar, quando adulta, a 20 m e 30 cm de diâmetro. O estipe é reto, cilíndrico e não brota a partir da base (não-estolonífero). Logo acima do tronco, antes da inserção das folhas, há uma porção verde e mais grossa, formada pela base do conjunto foliar, que abriga a parte comestível da palmeira. A copa, de ramificação monopodial, reúne um tufo de 15 a 20 folhas grandes, alternas e pinadas, que alcançam até 3 m de comprimento. As flores são unissexuais e dispostas em grupos de três, com uma feminina entre duas masculinas; as masculinas, mais numerosas, são amareladas e medem de 3 a 6 mm. A inflorescência, em espádice de 50 a 80 cm formado por várias espigas, surge abaixo das folhas e fica protegida por uma grande bráctea até se desenvolver. O fruto é uma drupa quase esférica, de casca lisa, fina e violácea-escura, com pouca polpa e uma única semente. A semente, de até 10 mm de diâmetro, é quase redonda, de cor parda acinzentada a amarelada, recoberta por uma camada fibrosa, com endosperma rico em reservas (cerca de 88% de carboidratos, 10% de proteínas e 2% de lipídios).

Uso e ecologia
alimentíciopaisagismorecuperação de áreasapícolamadeireiro
Produtos e utilizações

O palmiteiro não fornece madeira para desdobro, e não há estudos tecnológicos sobre suas propriedades físicas e mecânicas. Ainda assim, o estipe é aproveitado na construção civil — em taipas, paióis, ranchos e tulhas, além de caibros, ripas e mourões — e a tradição popular recomenda abater as plantas na lua minguante para esse uso. A espécie também é considerada adequada para a produção de celulose e papel. O principal valor econômico, porém, está na alimentação humana: o palmito, parte comestível situada entre o ápice da palmeira e a inserção da inflorescência, corresponde a cerca de metade do broto e é muito usado em conservas, com grande aceitação nos mercados nacional e internacional. Aproveitam-se ainda as bainhas mais internas (em pastas, sopas e molhos) e os botões florais (em doces e em saladas finas). Entre as palmeiras que dão palmito comestível, apenas E. edulis e E. oleracea (esta do Norte, responsável por cerca de 90% da produção brasileira) dominam o mercado. As folhas servem de cobertura, ração animal e artesanato (como cadeiras de palha), e as sementes podem ser usadas em ração ou adubo.

Aspectos ecológicos

Trata-se de espécie clímax, marcante pela alta frequência e densidade mesmo em formações secundárias, com concentração maior onde há água superficial. Sua regeneração natural é intensa e se apoia na estratégia de banco de plântulas — em uma área de Floresta Ombrófila Densa em sucessão secundária, em Ibirama (SC), foram contadas 20.500 plantas por hectare. É característica da Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), nas formações Aluvial, Baixo-Montana, Montana e Submontana, onde domina o estrato médio, ocorrendo também na Floresta de Tabuleiro do norte capixaba e na restinga. Em outras tipologias aparece de forma mais restrita: na Floresta Estacional Semidecidual, apenas em matas ciliares; e nas regiões de Campos e de Cerrado, somente ao longo dos cursos d'água. As densidades registradas variam bastante: 543 indivíduos por hectare em Santa Catarina, 830 em Blumenau (SC) e cerca de 3 árvores por hectare em mata de galeria no Distrito Federal.

Floração e frutificação

A floração ocorre de setembro a dezembro no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, estendendo-se de setembro a janeiro em São Paulo. Os frutos amadurecem de abril a novembro em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, de maio a outubro no Paraná e de maio a novembro em São Paulo. Em plantio, a reprodução começa por volta dos 6 anos de idade. A frutificação costuma ser abundante: em condições favoráveis uma planta pode render de 6 a 8 kg de frutos por ano — o equivalente a algo entre 8 mil e 10 mil sementes — e foram observados, em Candelária (RS), de 2 a 3 cachos por planta adulta, cada um com 750 a 2 mil frutos.

Fauna associada

A polinização é feita sobretudo por insetos, em planta monoica. A dispersão dos frutos e sementes é zoocórica e conta com muitos animais: morcegos (Artibeus lituratus, Platyrrhinus lineatus), anta (Tapirus terrestris), porcos-do-mato (Tayassu pecari), serelepes (Sciurus aestuans), veados, além de aves como araçari-banana, gralha-azul, jacuguaçu, sabiás e tucanos, e répteis como o teiú. Ao remover a polpa que envolve a semente, esses dispersores, principalmente vertebrados, podem favorecer a germinação. Há também dispersão autocórica, concentrada num raio de cerca de 5 m da planta-mãe, o que gera acúmulo de sementes e regeneração em manchas adensadas — chegando a 400 plântulas por metro quadrado —, com taxa de sobrevivência das plântulas baixa, em torno de 0,3%.

Plantio e silvicultura
Sementes

A coleta deve ser feita no chão, com os frutos já de pericarpo preto, roxo ou rosado; frutos maiores germinam em maior proporção e com mais vigor. Para extrair as sementes, imergem-se os frutos em água por 12 a 24 horas e macera-se a polpa sobre peneiras, secando-as depois em local ventilado. Cada quilo reúne de 1.000 a 3.000 sementes, e um quilo de frutos contém cerca de 770 unidades. A necessidade de quebra de dormência é discutível, mas, para acelerar a germinação, recomendam-se imersão em água fria por 48 horas, estratificação em areia úmida por 30 dias ou escarificação mecânica — em laboratório, sementes escarificadas germinaram de modo uniforme em 45 dias, enquanto as não escarificadas levaram mais de 4 meses. As sementes são recalcitrantes, não suportando bancos convencionais de germoplasma a -20 ºC, pois apresentam alta umidade na maturidade fisiológica (50% a 55%) e perdem rapidamente o poder germinativo. A viabilidade parcial dura cerca de 6 meses em sala e 11 meses em câmara fria (5 ºC a 10 ºC, alta umidade), e até 2 anos a 5 ºC, embora estudos apontem que 10 ºC e 15 ºC sejam mais promissores e que a desidratação parcial a 40% de umidade ajude a conservar as sementes por até 8 meses sem germinação dentro das embalagens.

Produção de mudas

Recomenda-se semear 2 a 3 sementes por recipiente ou fazer semeadura direta no campo, em covas de 5 cm de profundidade; em sementeira, usa-se areia de rio sempre úmida como substrato. Quando necessária, a repicagem é feita de 1 a 3 semanas após a germinação ou após o surgimento das folhas. A germinação é hipógea e começa entre 30 e 170 dias após a semeadura, com taxas muito variáveis conforme o tratamento: até 95% com estratificação em areia úmida, até 75% com água fria e até 50% sem tratamento, sendo a remoção da polpa o fator que mais eleva a germinação. As mudas atingem tamanho adequado por volta de 9 meses após a semeadura. As raízes formam micorrizas arbusculares. O transplante a partir da mata e o pegamento de mudas de raiz nua são bastante difíceis, com alta mortalidade, dado o sistema radicular fasciculado e profundo; bons resultados foram obtidos em solo saturado de água com 30% de sombreamento (mortalidade de apenas 6%). A embriogênese somática a partir de explantes juvenis é indicada como método de propagação massal e conservação de germoplasma.

Características silviculturais

O palmiteiro é uma palmeira esciófila: quando jovem não tolera sol direto e precisa de sombreamento temporário de intensidade média, sendo suscetível a geadas, embora se adapte ao frio em microclimas. O plantio a pleno sol não é viável, e o retorno financeiro lento desestimula o cultivo. A espécie presta-se bem ao plantio de enriquecimento em vegetação secundária, com sombreamento definitivo ou temporário; a distribuição de frutos e sementes sobre o solo é o método mais eficiente e barato para implantação em floresta secundária. O plantio por mudas alcançou mais de 90% de sobrevivência sob reflorestamento de araucária e capoeirão denso, mas menos de 70% em mata secundária aberta e capoeira. Em mata nativa raleada no Vale do Ribeira (SP), recomendam-se espaçamentos de 1,5 x 1,0 m e 1,0 x 1,0 m para maior produção de palmito por área. É usada em sistemas agroflorestais com café, cacau (plantada a 4 m da cova, com bons resultados após 6 anos), pínus, canafístula, grevílea e eucalipto. Vale lembrar que, ao contrário do açaí (E. oleracea), o palmiteiro não rebrota da base, de modo que a coleta do palmito implica a morte da planta — fato que, somado à exploração extrativista iniciada nos anos 1960, levou a espécie a constar entre as ameaçadas de extinção em Santa Catarina e em matas ciliares do Centro-Oeste.

Crescimento e produção

Os poucos dados disponíveis indicam incremento anual em altura de até 0,75 m, com média de 0,45 m. A planta leva de 8 a 12 anos para atingir tamanho comercial no Brasil (de 10 a 15 anos no Paraguai), e depois os palmitais permitem cortes a cada 3 ou 4 anos para garantir a regeneração natural. A produtividade dos palmitais nativos varia conforme o tipo e o estágio da floresta: em Floresta Ombrófila Densa Montana em Blumenau (SC), estimou-se um volume de 160 m³/ha e área basal de 1,3 m²/ha, havendo registros de até 3,5 m²/ha. Sob manejo sustentado, com ciclo de corte de 6 anos e diâmetro limite de 9 cm, a produção estimada chega a 102 kg de palmito por hectare; em Ibirama (SC), mantendo 50 árvores reprodutivas por hectare e explorando indivíduos acima de 8,3 cm de DAP, obteve-se rendimento estimado de 152 kg por hectare. Os aspectos da regeneração artificial ainda são pouco conhecidos e divulgados.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.100 mm a 2.700 mm no Rio de Janeiro e em São Paulo, podendo chegar a 3.200 mm na encosta da Serra de Paranapiacaba (SP); para se desenvolver bem, a espécie pede índices acima de 1.500 mm. As chuvas são uniformes na Região Sul, no litoral de São Paulo e Rio de Janeiro e no sul da Bahia, e concentradas no verão nas demais áreas, com deficiência hídrica pequena (estação seca de até 3 meses em São Paulo e no sul de Mato Grosso do Sul). A temperatura média anual fica entre 18,1 ºC (Nova Friburgo, RJ) e 24,5 ºC (Camaçari e Caravelas, BA); a mínima absoluta registrada foi de -5,8 ºC (Orleães, SC). As geadas vão de 0 a 3 por ano em média (máximo de 10 na Região Sul), sendo predominantemente raras. Pela classificação de Köppen, os tipos climáticos são tropical (Af, Am e Aw), subtropical úmido (Cfa) e subtropical de altitude (Cwa e Cwb).

Solos

Pouco exigente, o palmiteiro vegeta em solos pobres em fósforo, cálcio, potássio e magnésio, bastante ácidos (pH entre 4,1 e 5,6), ricos em matéria orgânica e com drenagem de boa a regular. Não vai bem, contudo, em solos arenosos e secos nem em solos argilosos e encharcados.