voltar ao catálogo
Foto de Juazeiro

Foto: (c) Alex Popovkin, Bahia, Brazil, some rights reserved (CC BY) (cc-by) via iNaturalist

Juazeiro

Ziziphus joazeiro

Rhamnaceae CaatingaMata Atlântica
  • até 16 mAltura
  • Médio portePorte
FrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: joazeiro, juá-babão, juá-de-boi, joá-mirim, juareiro, juá-bravo, enjuá, joá, juá, juá-espinho, juá-de-espinho, juá-fruta, laranjeira-de-vaqueiro, raspa de juá

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

A espécie é classificada como Ziziphus joazeiro Martius, pertencente à família Rhamnaceae e ao gênero Ziziphus. Segundo Lima, a grafia correta do gênero é Ziziphus, e não Zizyphus, como muitas vezes se vê escrito. São reconhecidos como sinônimos botânicos os nomes Ziziphus guaranitica Malme e Ziziphus gardneri Reissek. A obra foi publicada em Reise Bras. 2:581. A origem do nome do gênero é incerta, mas costuma ser ligada a vocábulos antigos como Zizuf (fenício), Zezaf ou Zefzaf (árabe), Zizafun (persa) e Ziziphus (grego); conta-se que a planta chegou a Roma vinda da Síria, no fim do reinado do imperador Augusto, levando consigo o nome que depois passou a diversas línguas europeias e orientais. Já o epíteto específico joazeiro vem da palavra tupi juá, que quer dizer “frutos carnosos”.

Descrição botânica

Árvore que mantém a folhagem o ano todo, condição possível graças a um sistema de raízes amplo e profundo, capaz de buscar a pouca umidade disponível no subsolo; em situações de seca extrema, no entanto, chega a perder toda a folhagem. Os exemplares de maior porte alcançam por volta de 16 m de altura e 53 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo) na fase adulta. O tronco pode ser reto ou tortuoso, muito ramificado, com galhos providos de fortes espinhos; os ramos flexuosos podem ser pubescentes ou não, e às vezes surgem sem espinhos, frequentemente brotando já a partir da base do caule. A ramificação é dicotômica e a copa, globosa e densa, é bastante característica, chegando quase a tocar o chão. A casca tem até 14 mm de espessura: a parte externa, ou ritidoma, vai do cinza-escuro a um tom levemente acastanhado, é rígida e pouco desenvolvida, formando placas de cerca de 1,0 a 3,0 mm, quase quadradas e uniformes, que podem se soltar em pequenas porções; a casca interna é amarelada e, quando cortada, libera um exsudato transparente e aquoso, de sabor amargo e sem cheiro marcante. As folhas são alternas, de textura membranácea a um pouco coriácea, de formato ovalado a elíptico, com base cordada a obtusa e ápice curto-acuminado ou agudo; a margem costuma ser finamente serreada e medem de 3 a 10 cm de comprimento por 2 a 6 cm de largura, com 3 a 5 nervuras bem visíveis e pubescentes na face inferior, partindo da base; o pecíolo tem de 0,5 a 0,8 cm e as estípulas, de 1,0 a 1,5 mm de comprimento. As inflorescências formam cimas axilares globosas, reunindo de 15 a 35 flores. As flores têm coloração amarelo-esverdeada e medem de 4 a 6 mm. Os frutos são drupas globosas amareladas, de 1,5 a 2 cm de comprimento, carnosos, ao mesmo tempo adocicados e ácidos, de casca fina recobrindo uma polpa farinácea comestível; no centro ficam as sementes, envolvidas por uma mucilagem transparente de difícil separação. As sementes apresentam 2% de poliembrionia.

Uso e ecologia
madeireiroalimentíciomedicinalpaisagismorecuperação de áreasforrageiro
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa, de cor amarelo-clara, com grã rija e forte, e apresenta boa durabilidade mesmo exposta às intempéries. É aproveitada localmente em cabos de ferramentas, canzis, tarugos ou pregos de madeira, construções rurais, mourões e marcenaria, além de servir como lenha. Na casca há registro de estearato de glicerila, dos triterpenoides ácido betulínico e lupeol, cafeína, o alcaloide anfibina-D e, sobretudo, as saponinas chamadas jujubosídios. Como forrageira, o juazeiro é talvez seu uso mais reconhecido: permanece verde mesmo sendo xerófilo e, na seca, alimenta o gado faminto, servindo de ração para ovinos e caprinos em qualquer época; as folhas têm alto teor de proteína bruta (15,31% a 18,10%) e baixo teor de tanino (apenas 2,56%). Os frutos secos à sombra viram espécie de passas apreciadas por ovinos e caprinos, e desse fruto chega-se a preparar um vinho tipo moscatel. Para consumo humano, os frutos são comidos ao natural pelo sertanejo nordestino e muito apreciados por crianças e adultos por matar a fome e a sede no tempo de estiagem; quando maduros, contêm cerca de 25 mg de vitamina C por 100 g de polpa, além de mucilagens e açúcares. Na medicina popular do Nordeste, casca e folhas são usadas em extrato aquoso por via oral contra problemas gástricos, e externamente na higiene de cabelos e dentes e para clarear a pele do rosto, sendo tidas como tônico capilar e antocaspa; agitadas na água, produzem espuma abundante por sua propriedade espumígena. A entrecasca pulverizada é tradicionalmente empregada na limpeza dos dentes, e ensaios farmacológicos confirmaram que uma suspensão aquosa a 1% reduz mais a placa dental do que dentifrícios convencionais, agindo contra o Streptococcus mutans, principal causador da cárie; já há no mercado cremes dentais à base de juá. No campo cosmético, córtex e folhas, ricos em saponina, servem como xampu, antocaspa, tônico capilar, sabão e dentifrício.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie pioneira, um dos elementos típicos da vegetação dos sertões nordestinos, com maior presença na Caatinga, no Sertão e no Agreste. Não forma matas próprias: aparece de modo isolado, dentro e fora das matas xerófilas, espalhando-se pelos pés de serra, nas capoeiras degradadas e ao longo de divisórias de madeira, de preferência protegida do alcance dos rebanhos. Ocorre na Floresta Estacional Decidual da Mata Atlântica, nas formações de Terras Baixas e Submontana, em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte, e na Restinga, na Paraíba, onde é comum. Na Caatinga, ocupa a Savana-Estépica do Sertão Árido, no Ceará, no norte de Minas Gerais, na Paraíba, em Pernambuco e no Piauí, com frequência de 5 a 10 indivíduos por hectare. Também aparece em ambientes ripários em Minas Gerais, em brejos de altitude no Ceará e em Pernambuco, em campos rupestres mineiros e em zonas de contato entre Caatinga e Floresta Estacional Decidual, como no Sertão de Canudos (BA).

Floração e frutificação

É uma espécie monoica. A floração acontece de março a julho em São Paulo, de maio a junho em Pernambuco, em setembro na Bahia e de novembro a abril no Ceará. Os frutos amadurecem de junho a julho no Ceará e em Pernambuco, e de outubro a dezembro em São Paulo.

Fauna associada

A polinização é feita principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão de frutos e sementes ocorre por zoocoria: as sementes são amplamente espalhadas por animais, sobretudo caprinos, ovinos e morcegos. Por ser muito procurada por aves e outros animais, a espécie tem grande valor para a fauna.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a cair espontaneamente; em seguida, são despolpados à mão e as sementes lavadas em água corrente e postas para secar à sombra. A árvore produz, todos os anos, grande quantidade de sementes viáveis. Cada quilo reúne de 1.720 a 2.000 sementes. A viabilidade em armazenamento é curta, não passando de cinco meses.

Produção de mudas

A semeadura deve ser feita em recipientes individuais com substrato organo-argiloso, mantidos em ambiente sombreado; as sementes são cobertas por uma camada de cerca de 0,5 cm de substrato peneirado e irrigadas diariamente. A germinação é do tipo epígea ou fanerocotiledonar, com emergência entre 10 e 100 dias e taxa de germinação em geral baixa. As mudas crescem devagar e ficam prontas para o plantio definitivo em 8 a 9 meses. Sementes provenientes da Caatinga apresentaram 2% de poliembrionia.

Características silviculturais

Espécie essencialmente heliófila, não tolera baixas temperaturas e costuma ramificar-se desde a base do caule. Recomenda-se plantá-la em faixas ou em agrupamentos, funcionando como quebra-vento e abrigo para os rebanhos e como fonte de sombra para as pequenas criações. Não é uma planta muito difundida, pois, logo que a semente germina, a mudinha passa a ser perseguida pelos animais, e os grandes rebanhos não poupam nem o arbusto nem a árvore em formação. Não há pragas ou doenças economicamente preocupantes, salvo, eventualmente, a lagarta desfolhadora; o cuidado maior está no plantio definitivo e na proteção contra caprinos e ovinos.

Crescimento e produção

No campo, o crescimento é lento, dificilmente ultrapassando 2 m de altura aos 2 anos de idade.

Clima

A precipitação média anual varia de 315 mm, em Aiuaba (CE), no Sertão dos Inhamuns, a 1.700 mm, no Ceará, com chuvas periódicas. A deficiência hídrica vai de moderada a forte no norte do Maranhão e no oeste da Bahia, e é forte no norte de Minas Gerais e em toda a Região Nordeste. A temperatura média anual oscila entre 21 ºC (Triunfo, PE) e 27,1 ºC (Morada Nova, CE), com mínima absoluta registrada de 10,4 ºC (Correntina, BA). Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am, As, Aw e BSwh.

Solos

Desenvolve-se em solos quimicamente férteis e profundos, onde se mostra frondosa. Prefere os aluviais argilosos, mas vegeta praticamente em qualquer terreno, inclusive nos tabuleiros áridos e pedregosos, onde assume porte quase arbustivo; só não prospera em solos muito rochosos. Devem ser evitados os solos úmidos e encharcados.