Foto: Bageense (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia
Jerivá
Syagrus romanzoffiana
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: coquinho, coqueiro, coqueiro-jerivá, coco-baboso, coquinho-babão, baba-de-boi, coco-de-cachorro, coqueiro-coquinho, coqueiro-tupi, palmeira, pindó
Botânica
Pertencente à família Arecaceae (Palmae), o jerivá foi descrito cientificamente como Syagrus romanzoffiana (Chamisso) Glassman, na obra Fieldiana: Botany, em 1968. O gênero Syagrus enquadra-se na ordem Arecales, classe Liliopsida (monocotiledôneas). Ao longo do tempo, a espécie recebeu outros nomes que hoje são considerados sinônimos, entre eles Arecastrum romanzoffianum var. romanzoffianum, Cocos plumosa e Cocos romanzoffiana. O epíteto romanzoffiana homenageia o Conde N. Romanzoff, chanceler do Império Russo e patrono das ciências, que financiou a expedição de 1815 na qual Adalberto Chamisso coletou a palmeira. Quanto ao nome popular jerivá, há diferentes interpretações sobre sua origem indígena: para J. Barbosa Rodrigues, deriva de termos tupi associados a frutos gomosos que nascem em espádices, o que explicaria o apelido baba-de-boi no Rio de Janeiro; já outra leitura entende que o nome remete a frutos que surgem em espigas, ou seja, em abundância.
Trata-se de uma palmeira que, na fase adulta, pode alcançar 30 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). Possui estipe único, isolado, cilíndrico e praticamente liso, marcado por anéis que correspondem às cicatrizes deixadas pelas bases dos pecíolos. A casca externa, ou ritidoma, é acinzentada e finamente fissurada, com cicatrizes foliares que conferem aspecto bastante característico ao tronco; internamente, tem coloração creme-esverdeada, textura fibrosa e estrutura trançada. A copa é formada por folhas pinadas e arqueadas, de pecíolos largos, sem que haja, como ocorre no palmiteiro (Euterpe edulis), separação nítida entre o fim do tronco e o início das folhas. As folhas são alternas, chegam a 5 m de comprimento, com folíolos estreitos distribuídos em vários planos ao longo da raque e pecíolo expandido, de bainha fibrosa e glabra nas margens. A inflorescência é interfoliar, mede de 1 a 1,5 m e é envolvida por uma espata lenhosa, glabra, longo-cilíndrica a fusiforme, profundamente sulcada por fora; nela se distribuem flores numerosas e unissexuais, cada uma com três pétalas — as masculinas medem 10 mm e aparecem em número de 1 a 2 por rama, enquanto as femininas medem 5 mm e se situam entre duas masculinas na porção inferior. O fruto é uma drupa globosa a elipsóide, de coloração amarelo-pardacenta a amarelo-alaranjada quando madura, lisa e parcialmente carnosa, com mesocarpo fibroso, muito mucilaginoso, suculento e adocicado; é comestível e de sabor agradável, mede de 3 a 5 cm de comprimento por 2 a 3 cm de diâmetro e abriga uma única semente, com o endocarpo apresentando três orifícios próximos à base. A semente é ovóide e tem de 1 a 2 cm de comprimento.
Uso e ecologia
O estipe, bastante duro, é lascado em sarrafos de 15 a 20 cm e empregado em cercas, postes, mangueirões, caibros e ripas, além de servir como material de cobertura em construções rústicas e em peças de artesanato. Sua madeira tem densidade aparente de 0,812 g/cm³, coloração parda e é dura e fibrosa. As folhas, muito resistentes, servem de combustível em diversas localidades. Os frutos rendem polpa adocicada de grande valor alimentar e, bem secos, chegam a substituir a tâmara; integram a dieta básica dos índios Guaranis do leste do Paraguai e, no sul de Santa Catarina, são cultivados em áreas próximas a pocilgas — os chamados cocais — para alimentar os porcos. O palmito é apreciado em algumas regiões, ainda que tenha leve amargor. As sementes são boa fonte de fibras alimentares, selênio e proteínas, além de lipídios que elevam seu valor calórico, mas seu elevado teor de cobre indica possível toxicidade caso consumidas in natura. A forragem, com 11,8% a 15% de proteína bruta e 4% a 5,2% de tanino, é valorizada na estiagem pelos eqüinos em São Paulo. As flores, melíferas, têm grande potencial apícola por produzirem pólen e néctar. Na medicina popular, o chá da casca e da flor — com brotos de amora — é indicado contra amarelão, problemas renais e diarreias, sendo a casca e o suco do coco considerados vermífugos. Há ainda aproveitamento das fibras na confecção de roupas, redes e outros artigos, da saponina dos frutos para fabricar sabão e do ráquis e das espatas no artesanato indígena e em brincadeiras rurais. Como pragas, destacam-se larvas de insetos que atacam intensamente as sementes e a alta suscetibilidade das folhas à lagarta (Brasolis sp.).
Classificada como pioneira, secundária inicial ou secundária tardia, a espécie ocupa tanto clareiras pequenas (menos de 60 m²) quanto grandes (mais de 100 m²). Apresenta notável plasticidade ecológica, ocorrendo em ambientes muito variados. Na Mata Atlântica, é encontrada na Floresta Estacional Decidual (formações Submontana e Montana, com até 18 indivíduos por hectare no Rio Grande do Sul), na Floresta Estacional Semidecidual (1 a 32 indivíduos por hectare em Minas Gerais, Paraná e São Paulo), na Floresta Ombrófila Densa (1 a 62 indivíduos por hectare das Terras Baixas à Montana) e na Floresta Ombrófila Mista ou de Araucária (5 a 142 indivíduos por hectare no Paraná e em Santa Catarina). Também ocorre em restingas do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, podendo aparecer até na linha das marés e nas margens de rios sob influência marinha, como o Rio Perequê, na Ilha do Cardoso (SP). No Cerrado, é registrada no cerrado lato sensu e, eventualmente, no cerradão paulista; nos Pampas, na Estepe ou Campos do Sul do Brasil, no Rio Grande do Sul. Aparece ainda em ambientes ripários (2 a 14 indivíduos por hectare em MG, PR e SP), florestas de brejo paulistas e florestas turfosas gaúchas.
A floração ocorre quase o ano inteiro, intensificando-se de setembro a março no Rio Grande do Sul, de dezembro a abril no Paraná e durante todo o ano em São Paulo. Frutos maduros podem ser encontrados o ano todo, embora o amadurecimento se concentre de agosto a março no Paraná, em setembro em Santa Catarina e de outubro a novembro no Rio Grande do Sul.
Espécie monóica, é polinizada essencialmente por abelhas de diversas espécies. A dispersão é predominantemente zoocórica e o jerivá representa importante fonte de alimento para a fauna — em estudo com 10 mil frutos observados em Blumenau (SC), 15,5% foram levados por dispersores. Entre as aves que consomem seus frutos estão periquitos (Aratinga leucophthalmus, A. solstitialis, Brotogeris chiriri), o cambacica (Coereba flaveola), o sanhaço-cinza (Thraupis sayaca), o sanhaço-do-coqueiro (T. palmarum) e o saí-azul (Dacnis cayana). O esquilo-caxinguelê (Sciurus ingrami) atua como dispersor e predador, enterrando sementes que muitas vezes não recupera — o jerivá chega a representar cerca de 40% de sua dieta. A palmeira é fundamental para o mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), responsável por mais de 79% da porção vegetal de sua alimentação, e seus frutos também são apreciados pelo graxaim (em Santa Catarina, fato que rendeu o nome coco-de-cachorro), além de macacos como o muriqui (Brachyteles arachnoides) e o macaco-prego (Cebus apella), o bugio (Alouatta fusca), a anta (Tapirus terrestris) e o lagarto-teiú (Tupinambis sp.), entre outros mamíferos que removem a polpa e regurgitam o diásporo, contribuindo para a dispersão.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos maduros e o invólucro quebrado com cuidado, retirando-se as sementes manualmente com auxílio de morsa e espátula. Cada quilo reúne de 140 a 220 sementes. A germinação é de taxa média e baixa velocidade de emergência, o que sugere algum tipo de dormência — há indícios de compostos fenólicos inibidores no extrato das sementes; recomenda-se o despolpamento, que acelera a germinação. As sementes têm baixa longevidade natural (cerca de 15 dias), mas os diásporos mantêm a viabilidade por até 4 meses de armazenamento e apresentam comportamento ortodoxo quanto à tolerância à dessecação e ao armazenamento.
A semeadura é feita em recipientes, como sacos de polietileno ou tubetes grandes de polipropileno. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar e a multiplicação é considerada problemática: a emergência costuma ser lenta, entre 90 e 180 dias, e quando ocorre tende a ser baixa, embora o poder germinativo possa superar 60%. Acredita-se que o endocarpo não impeça a absorção de água durante a embebição. As mudas atingem tamanho adequado para o plantio cerca de 12 meses após a semeadura.
Espécie heliófila que tolera baixas temperaturas, o jerivá pode ser plantado a pleno sol, tanto em plantios puros quanto mistos. É comum em pastagens e suporta transplante em qualquer porte; por terem as folhas usadas na alimentação animal, é provável que essa seja a razão de a palmeira ser poupada nas derrubadas. Quanto à genética, a avaliação da divergência entre matrizes com marcadores RAPD mostrou-se eficiente, detectando 81,7% de polimorfismo.
O crescimento varia de lento a moderado.
A precipitação média anual situa-se entre 1.000 mm, em Minas Gerais, e 2.500 mm, no Rio de Janeiro, com chuvas uniformemente distribuídas no Sul (exceto no norte do Paraná) e regime periódico nas demais regiões. A deficiência hídrica vai de nula, em boa parte do Sul e em trechos litorâneos do Sudeste, até forte, no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila de 13,2 °C, em São Joaquim (SC), a 23,7 °C, no Rio de Janeiro; a média do mês mais frio vai de 9,4 °C a 21,3 °C e a do mês mais quente, de 17,2 °C a 26,5 °C, com mínima absoluta de -10,4 °C registrada em Caçador (SC), podendo chegar a -17 °C na relva. O número de geadas anuais varia de 0 a 30 em média, com máximo absoluto de 57 na Região Sul. Conforme a classificação de Köppen, a espécie ocorre nos tipos Af, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Vegeta naturalmente tanto em solos de alta quanto de baixa fertilidade química e, ocasionalmente, em afloramentos de arenito, sendo indicadora de solos mais pobres e arenosos no noroeste do Paraná. Adapta-se a terrenos secos, orgânicos ou sujeitos a inundação temporária e encharcamento periódico.