voltar ao catálogo
Foto de Jequitibá-rosa

Foto: Luciana Serra (CC BY 2.0) via Wikimedia

Jequitibá-rosa

Cariniana legalis

Lecythidaceae Mata Atlântica
  • 10 a 25 mAltura
  • Grande portePorte
Raras / ameaçadasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: caixão, coatinga, congolo-de-porco, cravinho-branco, estopa, jequitibá, jequitibá-de-agulheiro, jequitibá-branco, jequitibá-cedro, jequitibá-grande, jequitibá-rei, jequitibá-vermelho, pau-caixão, pau-carga, pau-de-carga, sapucaia-de-apito, pau-de-cerne, sapucaia-de-assovio

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo Sistema de Classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Lecythidales e família Lecythidaceae. Sua denominação científica é Cariniana legalis (Martius) O. Kuntze, publicada em 1898. Já foi descrita sob os sinônimos Cariniana brasiliensis Casar. e Couratari legalis Martius. O nome do gênero Cariniana presta homenagem ao príncipe Eugene de Savóia–Carignan, que financiou a expedição de Giovanni Casaretto ao Brasil entre 1839 e 1840; o epíteto legalis deriva do latim (legal) e remete à condição de madeira de lei, reservada pela Coroa portuguesa para construção civil e naval, cuja comercialização e exportação eram exclusivas do governo da Metrópole.

Descrição botânica

Árvore semicaducifólia que normalmente alcança de 10 a 25 m de altura e de 60 a 100 cm de diâmetro à altura do peito (DAP), podendo, em casos excepcionais, chegar a 60 m de altura e 400 cm de DAP na fase adulta — sendo uma das maiores árvores do Sudeste brasileiro. O tronco é reto, cilíndrico e colunar, com fuste que atinge 20 m ou mais. A ramificação é racemosa, formando copa ampla e globosa em formato de guarda-chuva, com folhagem densa e brilhante e ramos horizontais que abrigam grande quantidade de orquídeas e bromélias; as folhas novas têm tonalidade avermelhada. A casca chega a 50 mm de espessura: a parte externa é marrom-escura a parda, rugosa, rígida e profundamente sulcada, enquanto a interna é avermelhada. As folhas são alternas, de formato ovado-oblongo a elíptico, com bordas crenadas e dentadas, medindo de 4 a 8 cm de comprimento por 1,7 a 4 cm de largura. As flores, de cor amarelo-pálida a creme e com 5 a 6 mm, surgem em pequenos racemos de 2 a 6 cm agrupados em panícula terminal densa de até 18 cm. O fruto é um pixídio capsular alongado e lenhoso, de 4,5 a 7 cm de comprimento por 1,5 a 3 cm de diâmetro, encimado por um opérculo de abertura íntegra, abrigando de 10 a 15 sementes aladas com núcleo seminal basal e até 30 mm de comprimento.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

A madeira presta-se à fabricação de contraplacados, folhas faqueadas, compensados e laminados, além de móveis, armações, acabamentos internos, carpintaria, marcenaria, esquadrias, forros e tabuados em geral; também é empregada em fósforos, artigos escolares, caixotaria, saltos de sapato, tonéis, tamancos, brinquedos, lápis e cabos de vassoura. Como lenha, porém, tem qualidade baixa. A espécie fornece celulose de boa qualidade para papel, com teor de celulose de 58,7% e de lignina de 24,2%, e fibras de comprimento médio de 1,35 mm e largura de 0,020 mm. Da casca extraem-se resina e tanino. O fruto vazio é aproveitado no Sudeste como cachimbo rústico (o 'pito'). Trata-se de madeira moderadamente densa (0,50 a 0,65 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno pouco distinto do cerne, em geral bege-claro, e cerne róseo-acastanhado a bege-rosado, podendo apresentar sombras pardacentas. A superfície é irregularmente lustrosa e levemente áspera, de textura média e uniforme, grã direita, sem cheiro ou gosto perceptíveis. Tem baixa durabilidade natural diante de organismos xilófagos em condições adversas e baixa a moderada permeabilidade a soluções preservantes sob pressão. O fuste é composto por 76% de madeira e 24% de casca, e seu uso assemelha-se ao do cedro (Cedrela fissilis), embora seja um pouco inferior. No início da década de 1990, o metro cúbico da madeira serrada era cotado em cerca de US$ 750 no mercado de Vitória, ES.

Aspectos ecológicos

É uma espécie secundária tardia (secundária longeva), porém não clímax. Tipicamente florestal, não se estabelece em pastagens, ocupando baixadas e encostas úmidas, onde aparece em pequenos grupos. Destaca-se pela longevidade, podendo superar 500 anos; medições por carbono 14 chegaram a registrar exemplares de até 3 mil anos em diferentes regiões do país, e há um indivíduo no Km 230 da Via Anhanguera, em São Paulo, com idade indicada em placa de 4.500 anos — ainda que estimativas próximas ou superiores a 3 mil anos devam ser encaradas com cautela. Ocupa o estrato superior da Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), nas formações Baixo-Montana e Submontana, da Floresta de Tabuleiro no norte do Espírito Santo e da Floresta Estacional Semidecidual. Em densidade, registrou-se volume de 4,10 m³/ha e 0,6 a 0,8 árvore por hectare nas florestas do sul da Bahia e norte do Espírito Santo, enquanto em uma área de Floresta Estacional Semidecidual em São Paulo foram encontradas 11 árvores por hectare.

Floração e frutificação

A floração ocorre de outubro a novembro em Minas Gerais, de dezembro a março em São Paulo, de janeiro a março em Pernambuco e de abril a maio no Rio de Janeiro. Os frutos amadurecem de maio a outubro em São Paulo, de julho a agosto em Minas Gerais, de julho a setembro no Espírito Santo e de dezembro a fevereiro em Pernambuco. Em plantios, a reprodução tem início por volta dos 20 anos de idade.

Fauna associada

A planta é monoica e a polinização provavelmente é feita por abelhas. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica — sobretudo barocórica, por gravidade — e também anemocórica, pelo vento. Frutos e sementes servem de alimento para diversos animais, sendo os macacos-prego (Cebus apella nigritus) os principais responsáveis pela liberação das sementes.

Plantio e silvicultura
Sementes

A colheita deve ser feita quando os frutos mudam de cor e começam a abrir os opérculos, deixando à mostra as primeiras sementes. Após a coleta, são mantidos em local ventilado para completar a abertura; batendo-se nos frutos, as sementes soltam-se com facilidade. Recomenda-se remover a asa da semente no momento da semeadura. Cada quilo reúne de 22.470 a 32.000 sementes, que não apresentam dormência. A viabilidade mantém-se por até 12 meses em câmara seca (22 ºC e 40% de UR) ou câmara fria (5 ºC e 95% de UR). Para estudos de germinação em laboratório, indicam-se substrato de solo, temperatura de 30 ºC e luz contínua.

Produção de mudas

Pode-se semear em sementeiras, com posterior repicagem, ou colocar duas sementes em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes grandes de polipropileno; a repicagem é feita de 2 a 4 semanas após a germinação. A germinação é epígea e ocorre entre 8 e 45 dias após a semeadura, com taxas geralmente de 28% a 70%, exigindo um tempo mínimo de 6 meses em viveiro. Recomenda-se poda radicular e aérea nas mudas mais desenvolvidas antes do plantio, além de cultivá-las em meia sombra, usando sombrite de 50% de intensidade na cobertura do canteiro. A propagação vegetativa é possível por estacas caulinares, com até 78% de enraizamento, especialmente com uso de AIB (ácido indolbutírico): o calo se forma 3 semanas após o estaqueamento e o enraizamento 6 semanas depois; mesmo o tratamento-controle alcançou 31,25% de pegamento, evidenciando a boa capacidade de enraizamento da espécie.

Características silviculturais

Espécie semi-heliófila, tolera sombreamento nos primeiros anos, mas é sensível a baixas temperaturas quando jovem. Tem hábito monopodial, galhos finos e boa forma de fuste independentemente do espaçamento, além de boa desrama natural e cicatrização. Pode ser plantada a pleno sol, em plantio puro ou misto — embora se observe crescimento desuniforme entre os exemplares —, em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas em capoeira e em linhas. Rebrota da touça após o corte, permitindo manejo por talhadia. Está classificada como espécie vulnerável, em vias de extinção, com poucos indivíduos em ocorrência natural, o que motivou diversas instituições a investir em sua conservação e melhoramento genético. Em Linhares, ES, observou-se ampla variação em altura e DAP nos plantios, sinal de bom potencial de ganhos genéticos; em São Paulo, constatou-se variabilidade entre procedências e progênies, com interações dos tipos populações versus locais e progênies versus populações, sugerindo que a seleção seja conduzida por local. As estimativas indicaram que a conservação ex situ foi eficiente e que o material tem potencial para seleção, com ganhos estimados entre e dentro de progênies relativamente altos para alguns caracteres e populações, chegando a 14%.

Crescimento e produção

O crescimento é moderado a rápido, tendo ultrapassado 21 m³/ha/ano em alguns plantios. Em Linhares, ES, registrou-se mortalidade alta sem causa esclarecida, atribuída possivelmente a tratos culturais inadequados. Em quatro locais do Sul do Brasil a sobrevivência ficou abaixo de 50%, provavelmente em razão das geadas.

Clima

A precipitação média anual varia de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 2.500 mm, em Pernambuco, com chuvas bem distribuídas no Rio de Janeiro e no sul da Bahia e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Rio de Janeiro e no sul da Bahia e moderada, com estação seca de até 4 meses, no norte do Espírito Santo e no Nordeste. A temperatura média anual oscila entre 19,4 ºC (Lavras e Viçosa, MG) e 26,1 ºC (João Pessoa, PB); a média do mês mais frio vai de 15,4 ºC (Viçosa, MG) a 23,9 ºC (Recife, PE) e a do mês mais quente de 21,1 ºC (Porto Seguro, BA) a 28,2 ºC (João Pessoa, PB), com mínima absoluta de -1,8 ºC (Rio Claro, SP). Ocorrem em média de 0 a 2 geadas por ano, com máximo de 5 no Sudeste, predominando regiões sem geadas ou com geadas raras. Os tipos climáticos, segundo Köppen, são o tropical (Af, Am e Aw) e o subtropical de altitude (Cwa e Cwb).

Solos

Em condições naturais, desenvolve-se em solos de origem arenítica e basáltica, surgindo em espigões, encostas e solos rasos, como os Litossolos de São Paulo, mas também em solos úmidos, profundos, bem drenados e de boa fertilidade química. Em plantios, contudo, prefere solos com boas propriedades físicas, fertilidade química média a boa, boa drenagem e textura de franca a argilosa.