Foto: Mauroguanandi, Mauro halpern (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Jequitibá-branco
Cariniana estrellensis
- 15 a 35 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: binga-de-macaco, caixão, coatinga, jequitibá-mestiço, bingueiro, cachimbeira, cachimbeiro, estopa, estopeiro, pau-estopa, pau-de-cachimbo, estopeira, jaquitibá-rosa, jequetibá, jequitibá, jequitibá-amarelo, pilão-de-bugio, pito-de-bugio, jequitibá-cipó, jequitibá-rei, jequitibá-rosa, jequitibá-vermelho, mussambê, pau-caixão, pau-carga, pito-de-macaco
Botânica
Pelo Sistema de Classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Lecythidales e família Lecythidaceae. Seu nome científico é Cariniana estrellensis (Raddi) O. Kuntze, descrito em 1898. Já foi tratada sob outros nomes, hoje considerados sinônimos botânicos: Cariniana excelsa Casaretto e Couratari estrellensis Raddi. O gênero Cariniana presta homenagem ao príncipe Eugene de Savóia–Carignan, patrocinador da expedição de Giovanni Casaretto ao Brasil entre 1839 e 1840; o epíteto estrellensis remete provavelmente à Serra da Estrela, no Rio de Janeiro, local típico da planta. O termo jequitibá tem origem tupi e costuma ser traduzido como árvore de tronco rijo ou, segundo outra interpretação, árvore do fruto afunilado.
Árvore semicaducifólia no inverno, geralmente com 15 a 35 m de altura e tronco de 50 a 80 cm de diâmetro (DAP), podendo, em casos excepcionais, alcançar 50 m e 215 cm de DAP na fase adulta; nas matas ciliares do Brasil Central mantém-se por volta de 15 m de altura e 60 cm de DAP. O tronco é reto, cilíndrico e colunar, com fuste de até 25 m e grandes raízes tabulares na base. A ramificação é dicotômica e simpódica, formando copa alta, em leque ou arredondada, de folhagem pouco densa; os ramos são grossos, angulosos e bastante recobertos por epífitas. A casca chega a 20 mm de espessura: a externa varia do cinza-claro ao marrom-escuro, é rugosa, sulcada e se solta em pequenas placas irregulares, enquanto a interna é cor de creme e algo suberosa. As folhas são simples, oblongo-elípticas a lanceoladas, com lâmina de 5 a 15 cm de comprimento por 1,5 a 6 cm de largura, margem serreada, ápice acuminado (acúmen de 2 a 5 mm, levemente curvo) e base cuneada; o pecíolo mede de 5 a 13 mm e tem cor avermelhada quando jovem. As flores são pequenas e branco-creme, agrupadas em racemos axilares solitários de 3 a 6 cm, com 5 a 15 flores. O fruto é um pixídio fibroso e lenhoso em forma de urna, cilíndrico-oblongo, de cor parda com poucas lenticelas claras, medindo de 5 a 11 cm de comprimento por 3 a 4 cm de diâmetro; tem abertura circular denticulada fechada por um opérculo cilíndrico semelhante a um prego de cabeça convexa, e abriga de 20 a 35 sementes, decompondo-se lentamente após cair. A semente é castanha, com testa prolongada em asa membranácea de até 4 cm e núcleo seminal basal mais ou menos piriforme, de 1,2 cm por 0,6 cm.
Uso e ecologia
A madeira do jequitibá-branco é moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,70 a 0,78 g/cm³ a 15% de umidade e massa específica básica de 0,60 a 0,69 g/cm³. O alburno é branco-encardido e o cerne, levemente rosado; a superfície é lisa, de pouco brilho, com textura média e grã direita, sem cheiro ou gosto perceptíveis. Tem baixa resistência natural ao apodrecimento, mas alta permeabilidade a soluções preservantes sob pressão. Seca rápido ao natural, com tendência a empenar e rachar, defeitos que podem ser evitados na secagem artificial bem conduzida. Responde bem ao corte e à usinagem, apesar de cerca de 0,05% de sílica, e é fácil de laminar. Lembra o mogno (Swietenia macrophylla) — nos Estados Unidos é chamada de brazilian mahogany —, sendo de qualidade inferior à do jequitibá-rosa (Cariniana legalis). É indicada para estruturas de móveis, molduras e guarnições internas, peças torneadas, cabos de ferramentas e implementos, tanoaria, saltos de calçados e fósforos, além de vigas, esquadrias, forros, caibros, ripas, tabuado e fôrmas de concreto na construção civil, e ainda compensados; preservada, pode ser empregada em ambientes externos. Produz lenha de qualidade inferior, mas boa celulose para papel (teor de celulose de 58,7% e de lignina de 24,2%). A casca rende boa estopa, usada na calafetação de embarcações, e contém alto teor de saponina e taninos (também presentes em folhas e lenho), além de baixo teor de cumarina no lenho. A forragem tem 9% de proteína bruta e 21,6% de tanino. Dos frutos, chamados de pitos, fazem-se cachimbos rústicos artesanais. Na medicina popular, a casca é usada em chás como adstringente e desinfetante, indicada para inflamações das mucosas, faringite, diarreias, anginas e afecções ginecológicas.
Trata-se de uma espécie secundária tardia ou clímax exigente de luz, que aparece em capoeirões e na floresta secundária e compõe as florestas clímax, sendo bastante longeva. Estudo da estrutura e dinâmica de uma população natural em reserva de Belo Horizonte (MG) observou elevada produção de sementes aliada a baixas taxas de crescimento e de mortalidade dos indivíduos já estabelecidos, sugerindo que a planta aposta na formação de banco de plântulas como estratégia reprodutiva. Ocorre na Floresta Ombrófila Densa amazônica, nos estratos dominante e codominante, e principalmente na Floresta Ombrófila Densa atlântica, em formações de Terras Baixas e Submontana e na Floresta de Tabuleiro do norte do Espírito Santo; aparece também na Floresta Estacional Semidecidual Submontana, onde costuma ser emergente, e Montana, alcançando o interior do Brasil Central pela mata ciliar. Levantamentos em Floresta Estacional Semidecidual Submontana de Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal registraram densidades de 1 a 27 árvores por hectare.
A floração varia conforme a região: de setembro a outubro no Distrito Federal; de outubro a novembro em Minas Gerais; de outubro a janeiro no Paraná e em Santa Catarina; de outubro a fevereiro em São Paulo; de outubro a abril em Goiás; de dezembro a março no Rio de Janeiro; de fevereiro a maio na Bahia; e de março a abril no Espírito Santo. Os frutos amadurecem de maio a outubro em São Paulo; de junho a julho no Distrito Federal; de julho a setembro em Santa Catarina; de agosto a outubro no Paraná, no Espírito Santo e em Minas Gerais; e de setembro a novembro no Rio de Janeiro. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 10 anos de idade.
A planta é hermafrodita e tem a polinização feita sobretudo por pequenos insetos e abelhas. A dispersão das sementes é anemocórica e, sob vento forte, pode levá-las a mais de 100 m da árvore-mãe; os macacos têm papel importante ao retirar o opérculo do fruto, o que facilita a liberação das sementes pelo vento. Frutos jovens e sementes são apreciados pelos macacos-bugios (Alouatta fusca).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando passam do verde para a cor escura, antes que macacos e o vento dispersem as primeiras sementes. Ainda fechados, são deixados em local arejado até abrirem, e as sementes aladas são liberadas pela agitação dos frutos; para obter apenas o núcleo seminífero, recomenda-se macerar as sementes e separar as impurezas por ventilação. Cada quilo contém de 9.320 a 32.000 sementes. Não há necessidade de quebra de dormência, embora a imersão em água fria por 2 horas antes da semeadura torne a germinação mais rápida e uniforme. As sementes têm baixa viabilidade natural fora de condições controladas. Em câmara fria (10 ºC e 65% de UR), a viabilidade se manteve por 7 meses, independentemente da embalagem; após 12 meses, lotes guardados em câmara fria (4 a 5 ºC), câmara seca (45% de UR) e laboratório apresentaram germinação de 48%, 0% e 5%, respectivamente. Sementes liofilizadas a 4% de umidade, com germinação inicial de 70% e acondicionadas em vidros lacrados envoltos em papel-alumínio, germinaram 46% após 600 dias, contra 0% das não liofilizadas. Em laboratório, a germinação foi mais veloz a 30 ºC.
Recomenda-se semear em sementeiras para posterior repicagem ou colocar duas sementes por saco de polietileno (no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro) ou em tubetes grandes de polipropileno; a repicagem ocorre de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea, com início entre 6 e 70 dias, e poder germinativo de 46% a 95% (em média 70%). Cerca de 6 meses depois da semeadura as mudas já têm porte adequado para o campo, e mudas pequenas de raiz nua apresentam bom pegamento.
É uma espécie heliófila que tolera sombreamento na juventude, mas não suporta bem o frio; sob geadas leves torna-se medianamente tolerante a partir do terceiro ano após o plantio. O hábito é variável: pode crescer sem dominância apical, com ramificação irregular e galhos grossos, ou com boa forma e ramificação lateral leve, às vezes com desrama natural bem cicatrizada — em geral, porém, exige poda verde dos galhos. Pode ser plantada a pleno sol em plantio puro, com espaçamento de 3 x 1 m e raleios após a segunda estação de crescimento até atingir 3 x 3 m, ou em plantio misto com espécies pioneiras ou secundárias; rebrota tanto do toco, após o corte, quanto das raízes. É indicada para arborização de culturas e de pastos e, na Bolívia, recomenda-se em quebra-ventos de três ou mais fileiras, na fileira central, e no enriquecimento de cortinas naturais, plantando-se de 4 a 5 m entre as árvores. A espécie consta como vulnerável no sul de Minas Gerais e entre as raras ou ameaçadas no Distrito Federal; em São Paulo, a conservação genética é feita in situ em reservas. Em plantios da Embrapa Florestas notou-se grande diferença de comportamento entre procedências, com a de Terra Boa (PR) registrando as menores taxas de sobrevivência.
O crescimento é variável, de moderado a rápido, com produtividade volumétrica máxima de 17,20 m³ por hectare ao ano, aos 25 anos.
A precipitação anual média varia de 1.000 mm a 2.700 mm nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. As chuvas são uniformes na Região Sul (exceto norte e noroeste do Paraná), na faixa costeira do Sudeste e no sul da Bahia, e concentradas no verão nas demais áreas. A deficiência hídrica vai de moderada, no norte do Espírito Santo, a forte no inverno, no oeste de Minas Gerais e no Centro-Oeste. A temperatura média anual fica entre 18,1 ºC (Nova Friburgo, RJ) e 25 ºC (Cruzeiro do Sul, AC); a média do mês mais frio varia de 13,5 ºC (Telêmaco Borba, PR) a 21,5 ºC (Ilhéus, BA) e a do mês mais quente, de 22,1 ºC (Lavras, MG) a 31,3 ºC (Cruzeiro do Sul, AC); a mínima absoluta registrada foi de -5 ºC (Telêmaco Borba, PR). As geadas variam de 0 a 10 por ano em média, com máximo de 18 na Região Sul, mas predominam locais sem geadas ou com geadas raras. Os tipos climáticos de Köppen são o tropical (Af, Am e Aw), o subtropical úmido (Cfa) e o subtropical de altitude (Cwa e Cwb).
Cresce em solos de baixa fertilidade natural, porém se desenvolve melhor em terrenos de boas propriedades físicas, profundos e férteis, de textura areno-argilosa a argilosa. Devem ser evitados solos muito arenosos ou mal drenados.