Foto: João Medeiros (CC BY 2.0) via Wikimedia
Jenipapo
Genipa americana
- 5 a 15 m, podendo chegar a 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: jenipapeiro, jenipá, jenipaba, jenipaca, jenipapinho, jenipapo-bravo, jenipapo-do-mato, jenipapo-da-américa, jenipapo-branco, jenipapo-comum, jenipapo-manso, jenipapo-de-cavalo, jenipava, janipapeiro, janipaba, janipapo, cabaçu
Botânica
Pela classificação de Cronquist, Genipa americana pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Rubiales e família Rubiaceae. A espécie foi descrita por Lineu e tem como sinônimo botânico Genipa americana var. caruto (H.B.K.) K. Schum. O nome do gênero deriva do tupi e significa mancha-escura ou fruto-de-esfregar, enquanto o epíteto americana indica sua origem nas Américas. O nome popular jenipapo também vem do tupi, a partir de yanipab ou yandipab, expressão que se refere a um fruto das extremidades que produz suco.
Árvore geralmente perenifólia, mas que se comporta como caducifólia no Acre. Costuma medir de 5 a 15 m de altura e ter 20 a 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP), embora exemplares adultos possam alcançar 30 m e 90 cm de DAP. O tronco é reto e cilíndrico, com fuste em geral curto (3 a 8 m) quando a árvore cresce isolada, mas que pode chegar a 15 m dentro da floresta. A ramificação é dicotômica e a copa, estreita e arredondada. A casca tem cerca de 6 mm de espessura: a externa varia de pardo-clara a cinza-esverdeada, lisa a áspera por causa das lenticelas e com placas brancas, ao passo que a interna é branco-amarelada e macia. As folhas são simples, opostas, oblongo-obovadas, coriáceas e de pecíolo curto, com até 5 cm; verde-escuras e brilhantes, medem de 15 a 35 cm de comprimento por 3 a 10 cm de largura e concentram-se nas pontas dos ramos. As flores são hermafroditas, campanuladas, com corola branca a amarela de 1,8 a 4 cm, levemente perfumadas, reunidas em dicásio axilar ou solitárias. O fruto é um anfissarcídio ovoide e indeiscente, de cor amarelo-alaranjada, com 9 a 15 cm de comprimento por 6,5 a 8,5 cm de diâmetro e peso entre 200 e 400 g; tem epicarpo pardo, polpa carnosa, mole, suculenta e comestível, além de aroma forte e levemente fermentado quando maduro. As sementes são ovoides e achatadas, de tegumento duro e coriáceo, coloração castanho-escura e 10 a 12 mm de comprimento. Há ainda uma variedade sem sementes, bastante procurada.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,62 a 0,71 g/cm³ a 15% de umidade, podendo chegar a 0,85 g/cm³), com alburno marfim e cerne branco-acinzentado a cinza-pardacento, às vezes com leve tom violáceo. Tem textura fina, grã irregular a ondulada, cheiro discreto e gosto imperceptível. É fácil de trabalhar e recebe bem o verniz, embora seja suscetível a cupins de madeira seca e a fungos apodrecedores; tanto o alburno quanto o cerne aceitam preservação por pressão a vácuo. Considerada madeira de primeira qualidade, elástica e flexível, é empregada em construção naval e civil, carroçaria, tanoaria, móveis de luxo, marcenaria, palitos de fósforo, fôrmas de sapato, espadas de esgrima, coronhas de armas, cabos de ferramentas, torneados e chapas decorativas. Serve ainda para lenha (de baixo poder calorífico) e para fabricação de papel. O fruto é o produto mais conhecido: consumido in natura, lembra maçãs secas, mas é mais apreciado em compotas, doces, geleias, vinhos e licores; com adição de vinho ou limão produz-se um xarope e a bebida refrescante conhecida como jenipapada. Do pericarpo do fruto ainda verde extrai-se um líquido amarelado que escurece até virar azul-escuro; em contato com a pele desenvolve uma coloração negra muito fixa, tradicionalmente usada pelos indígenas em pinturas corporais e tatuagens, e hoje empregada na marcação de roupas e no tingimento de tecidos. O tronco fornece um suco tintorial amarelo (jenipapina) e, por incisão, uma resina branca a amarelada e adocicada. A casca contém cerca de 0,70% de tanino, útil para curtume, além de cumarina. As folhas servem de forragem para o gado, sobretudo na época seca, e a espécie também é usada no artesanato, em esculturas, gamelas e utensílios de madeira.
Há divergência entre autores quanto ao grupo sucessional do jenipapeiro, que é classificado ora como pioneiro, ora como secundário inicial a tardio. Apresenta regeneração intensa em capoeirões e áreas perturbadas, colonizando bem locais abertos; é comum em florestas secundárias e raro nas primárias, frequente em matas ciliares e também em áreas mais secas, ocupando posição média a superior no dossel. Por sua grande plasticidade ecológica, ocorre em diversas formações de toda a América Tropical. No Brasil, está presente na Floresta Ombrófila Densa Aluvial (amazônica e atlântica), na Floresta Estacional Semidecidual Submontana, no cerradão, no chaco sul-mato-grossense, no Pantanal e na caatinga arbórea aberta ao longo dos rios Verde e São Francisco, no norte de Minas Gerais.
A floração varia conforme a região: de novembro a dezembro em Minas Gerais, de novembro a março em São Paulo, de dezembro a fevereiro na Bahia e em Pernambuco, em janeiro no Rio de Janeiro e em fevereiro no Mato Grosso do Sul. A frutificação também acompanha a localidade: junho e julho no Pará, agosto no Rio de Janeiro, outubro a dezembro em Minas Gerais, dezembro no Distrito Federal, janeiro a março em São Paulo, fevereiro a março no Acre, fevereiro a abril em Pernambuco e abril no Espírito Santo e no Mato Grosso do Sul. O fruto leva cerca de 10 meses para se formar e mais 2 para amadurecer por completo. Em plantios, a reprodução começa por volta do quinto ano, e árvores de 15 a 20 anos chegam a produzir de 400 a 600 frutos.
A polinização é feita sobretudo por abelhas, como a mamangava (Bombus morio, Epicharis rustica flava), abelhas sociais (Apis mellifera, Trigona truculenta) e abelhas sem ferrão (Augochlora sp., Tetragonisca angustula); na região de Manaus destaca-se Melipona compressipes manaosensis. O jenipapeiro reproduz-se por apomixia e alogamia. A dispersão combina várias estratégias: autocórica/barocórica (frutos caem sob a copa), zoocórica (morcegos, macacos como o sauá e o macaco-prego, além de serelepes), hidrocórica (os frutos flutuam nos cursos d'água) e ictiocórica, quando caem na água e são comidos por peixes como o pacu (Colossoma mitrei); secundariamente há mirmecoria por formigas que despolpam as sementes. A árvore oferece abrigo e alimento a aves, mamíferos e peixes.
Plantio e silvicultura
A colheita deve ser feita quando os frutos começam a cair, aproveitando apenas os bem maduros e descartando os já fermentados no chão. As sementes são extraídas por maceração e lavagem dos frutos em água e, em seguida, secas à sombra sobre peneiras, em local ventilado. Cada quilo contém de 12.000 a 33.700 sementes. Não há dormência, mas a imersão em água à temperatura ambiente por 48 horas torna a germinação mais rápida e uniforme. Trata-se de semente de comportamento recalcitrante, que não tolera dessecamento nem temperaturas baixas: lotes recém-colhidos germinam em torno de 85%, índice que cai de forma acentuada com o armazenamento, sobretudo em geladeira e, principalmente, no freezer. Nos testes de germinação em laboratório recomendam-se substratos como vermiculita, rolo de papel-toalha ou papel de filtro, em temperaturas constantes de 25ºC e 30ºC ou alternadas de 25ºC a 35ºC; areia também teve bom desempenho. Há indícios de adaptação à germinação em pequenas clareiras, mas a influência da luz é controversa entre os autores.
Recomenda-se semear em sementeiras e repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes grandes de polipropileno, cerca de 2 a 3 semanas após a germinação, quando atingirem de 3 a 5 cm. A germinação é epígea e tem início entre 13 e 90 dias após a semeadura no verão, e entre 90 e 120 dias no inverno, com poder germinativo bastante variável (de 30% a 95%). No Pará, são necessários ao menos 4 meses para a muda chegar a 20-30 cm; em São Paulo, o ponto de plantio é alcançado por volta dos 8 meses. As mudas devem ficar sob ripado, protegidas de sol forte, ventos e chuvas intensas. As raízes formam associação com fungos micorrízicos arbusculares, sobretudo do gênero Glomus. A propagação vegetativa por enxertia (borbulhia em janela aberta ou garfagem de topo) também dá bons resultados.
Espécie semi-heliófila, tolera leve sombreamento na fase jovem, mas é sensível ao frio. Tem fuste reto e dominância apical bem definida, com crescimento monopodial do tronco; cerca de 15% dos indivíduos apresentam bifurcação. A desrama natural é razoável, mas convém podar os galhos para elevar a altura comercial. Pode ser conduzida em plantios mistos com pioneiras e secundárias, em faixas abertas na floresta secundária ou em linhas. No Pará prefere-se esse arranjo por causa do ataque de insetos ao broto terminal quando plantada a pleno sol, mas no Acre o melhor resultado, com 100% de sobrevivência, foi justamente a pleno sol. A árvore rebrota da cepa após o corte. Em sistemas silviagrícolas, é usada para produção de frutos nos primeiros anos, com covas de 60 x 60 x 60 cm adubadas com 20 a 30 L de esterco curtido um mês antes do plantio e espaçamento de 10 x 10 m. Também serve como quebra-vento (4 a 5 m entre árvores) e há variedades selecionadas no Horto Florestal de Ibura, em Sergipe, incluindo tipos de fruto grande, médio, pequeno e sem sementes.
O desenvolvimento é moderado. Em Dionísio (MG), a espécie alcançou incremento médio anual de 9,90 m³/ha/ano com casca aos 9 anos de idade, com fator de forma de 0,55.
A precipitação média anual em que ocorre vai de 800 mm, em Minas Gerais, a 3.000 mm, no Pará, com chuvas uniformemente distribuídas no noroeste do Amazonas, sul da Bahia e norte do Pará, e concentradas no verão ou no inverno nas demais regiões. A deficiência hídrica varia de nula, no sul da Bahia, a forte, com estação seca de 2 a 6 meses no norte e sudeste mineiro. A temperatura média anual situa-se entre 19,4ºC (Viçosa, MG) e 26,7ºC (Itaituba, PA), com mínima absoluta registrada de -2,2ºC em Uberaba (MG). As geadas são em geral ausentes ou pouco frequentes (média de 0 a 1 por ano, máximo de 5). Pelo sistema de Köppen, ocorre em climas tropicais (Af, Am, As e Aw), subtropical de altitude (Cwa) e subtropical úmido (Cfa, no extremo noroeste do Paraná).
Para se regenerar e competir naturalmente, o jenipapeiro precisa de solos periodicamente inundados. É espécie rústica e pouco exigente quanto às características físicas do solo, desenvolvendo-se em terrenos permeáveis, superficiais a moderadamente profundos e ácidos. Prefere áreas úmidas, encharcadas ou inundáveis, como margens de rios, baixadas e terrenos de aluvião, tolerando lençol freático a cerca de 1,50 m de profundidade. Em plantios experimentais no Paraná, cresceu melhor em solos de alta fertilidade química, bem drenados e de textura franca a argilosa.