Foto: André Ribeiro Cardoso (CC BY) via GBIF
Jatobá
Hymenaea courbaril var. stilbocarpa
- 8 a 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: jataí, jataí-açu, jatobá-da-mata, jatobá-mirim, jatobá-roxo, jatobá-da-caatinga, jatobá-do-sertão, jutaí, jutaí-açu, jataíba, árvore-copal, castanheiro-de-bugre, farinheira, imbiúva, quebra-facão
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Fabales e família Caesalpiniaceae (Leguminosae Caesalpinioideae). O táxon foi descrito como Hymenaea courbaril Linnaeus var. stilbocarpa (Hayne) Y. T. Lee & Langenheim. Já foi conhecido pelos sinônimos Hymenaea confertifolia Hayne e Hymenaea stilbocarpa Hayne. O gênero Hymenaea tem origem grega, fazendo referência ao deus do matrimônio, em alusão aos dois folíolos pareados; o epíteto stilbocarpa quer dizer 'fruto duro'. O nome popular jatobá deriva do tupi va-atã-yba, ou seja, 'árvore de fruto duro'.
Trata-se de árvore semicaducifólia que costuma medir de 8 a 15 m de altura e apresentar tronco com 40 a 80 cm de DAP. Em matas do Brasil Central pode chegar a 20 m, enquanto no Paraguai exemplares adultos alcançam até 35 m de altura e 120 cm de DAP. O tronco é reto e cilíndrico, com fuste de até 15 m. A ramificação é racemosa e irregular, formando copa ampla e arredondada de folhagem densa. A casca tem até 10 mm de espessura: a parte externa é cinza-clara, de quase lisa a áspera, com pequenos sulcos superficiais, e a interna é rosada, liberando resina avermelhada. As folhas são alternas, compostas e coriáceas, com dois folíolos brilhantes de bases assimétricas, medindo de 6 a 14 cm de comprimento por 3 a 5 cm de largura. As flores variam de brancas a bege e se agrupam em inflorescências racemosas terminais, com cerca de 14 flores cada. O fruto é uma vagem lenhosa, indeiscente, dura e de cor marrom-brilhante, internamente preenchida por polpa carnosa e farinácea de aroma adocicado e sabor comestível; mede de 9 a 17 cm de comprimento por 4 a 5,5 cm de largura, pesa de 42 a 107 g e abriga de 2 a 8 sementes. As sementes são ovaladas, de cor vinho e cerca de 2 cm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira do jatobá é densa (0,90 a 1,10 g/cm³ a 15% de umidade; massa específica básica de 0,75 g/cm³). O alburno é espesso e branco levemente amarelado, e o cerne varia do castanho-claro-rosado ao castanho-avermelhado. A superfície é pouco lustrosa e um tanto áspera, com textura média e uniforme e grã de regular a irregular, em geral reversa, sem cheiro ou gosto perceptíveis. Sua resistência ao ataque de organismos xilófagos é de média a alta, e estacas de cerne mostram boa resistência a fungos e cupins, embora a durabilidade em contato com o solo seja inferior a 9 anos. É pouco permeável a soluções preservantes sob pressão, seca ao ar com poucas deformações (rachando e empenando se a secagem for muito rápida) e tem trabalhabilidade de difícil a moderadamente fácil, aceitando pintura, verniz, lustro e emassamento com bom acabamento. A madeira serrada e roliça serve à construção civil e à carpintaria em geral, em acabamentos internos (vigas, caibros, ripas, batentes, tacos de assoalho, cabos de ferramentas), construções externas (obras hidráulicas, postes, dormentes, cruzetas, esquadrias), além de folhas faqueadas decorativas, móveis, peças torneadas, carroçarias, vagões e tonéis. Como lenha tem qualidade baixa (poder calorífico de 17.191,5 kJ/kg) e não se presta à produção de celulose e papel. O tronco, ramos e raízes liberam resina avermelhada, chamada jutaicica, empregada na fabricação de verniz e em rituais indígenas. A espécie também é fonte tradicional de tanino na Chapada do Araripe, no sul do Ceará. Os frutos são comestíveis e comercializados na Região Metropolitana de Belo Horizonte; do tronco perfurado com trado extrai-se o 'vinho de jatobá'. As flores são melíferas, rendendo néctar e mel de alta qualidade. Na medicina popular, a resina é usada contra bronquite, asma, deficiência pulmonar e laringite; a casca, adstringente, é empregada em bronquite aguda e tuberculose; a polpa do fruto e o chá das raízes auxiliam em afecções pulmonares, gripes, tosses, sendo o chá também diurético. A planta é ainda tida como vermífuga, estomáquica, antidiarreica, antitússica e tônica.
O jatobá é classificado como espécie secundária tardia ou clímax exigente de luz, típica do interior da floresta primária, onde os indivíduos aparecem bastante espaçados entre si; é árvore longeva. É característica da Floresta Estacional Semidecidual, formação Submontana, ocupando o estrato dominante, e ocorre também na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), na Floresta Estacional Decidual do Vale do Rio Paranã (GO) e do Baixo Paranaíba (MG), no Cerradão, principalmente em mata ciliar, e em encraves vegetacionais das serras do Nordeste. Levantamentos fitossociológicos no Sudeste e no Distrito Federal registraram densidades de 1 a 6 árvores por hectare.
A floração vai de setembro a novembro em Minas Gerais, de setembro a dezembro no Ceará e em Pernambuco, e de outubro a fevereiro em São Paulo. Os frutos amadurecem de junho a dezembro em São Paulo, de julho a agosto no Distrito Federal, de dezembro a abril em Minas Gerais e de novembro a dezembro no Paraná. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 10 anos de idade.
A planta é hermafrodita, com indícios de protoginia e alogamia. A polinização é feita sobretudo por morcegos, com participação também dos beija-flores. A dispersão é autocórica (principalmente barocórica, por gravidade) e zoocórica, realizada por mamíferos de grande porte como a anta (Tapirus terrestris), a paca (Agouti paca), a cutia (Dasyprocta azarae) e o macaco-prego (Cebus apella nigritus); ao passar pelo trato digestivo desses animais, a semente tem sua dormência superada.
Plantio e silvicultura
As sementes podem ser coletadas dos frutos caídos. A extração é manual, quebrando-se o fruto com martelo ou cacetete; depois as sementes são lavadas para separar a polpa farinhosa e selecionadas, descartando-se as perfuradas por pragas. Cada quilo contém de 250 a 300 sementes. Elas apresentam dormência tegumentar que dificulta a embebição, atribuída a pressões evolutivas do Oligoceno ligadas à dispersão por grandes herbívoros. Para superar a dormência recomendam-se: escarificação com ácido sulfúrico concentrado por 30 minutos; escarificação mecânica próxima ao embrião com abrasivo; ou escarificação apical tratada com fungicida seguida de imersão em água por 7 a 10 dias. A escarificação química com ácido aliada ao choque de temperatura alta mostrou-se mais eficaz que a mecânica, garantindo germinação mais alta e uniforme, sobretudo quando as sementes ficam ainda 12 horas em água fria. As sementes têm comportamento ortodoxo e alto potencial de conservação em câmara fria (5ºC a 6ºC), podendo até elevar a germinação em armazenamentos de até 260 dias; pelo teste de tetrazólio, um lote manteve 75% de viabilidade após 27 meses. Em laboratório, as melhores temperaturas de germinação são 25ºC e 30ºC, em substrato de terra e areia.
Recomenda-se semear uma semente por saco de polietileno de no mínimo 22 cm de altura por 10 cm de diâmetro, ou em tubete grande de polipropileno; a semeadura direta no campo também é viável. Quando preciso, a repicagem deve ocorrer de 1 a 2 semanas após a germinação, e mudas pequenas de raiz nua pegam bem. A germinação é epígea e inicia entre 12 e 60 dias após a semeadura. Sem a dormência superada, ela se prolonga por até 10 meses e atinge taxas baixas (cerca de 40% em 11 semanas); com a dormência superada chega a 98%, contra até 30% sem o tratamento. As mudas alcançam tamanho adequado para plantio por volta de 3 meses após a semeadura. Para rustificá-las, recomenda-se déficit hídrico moderado até o início da murcha foliar. As raízes do jatobá não formam nódulos com Rhizobium.
Espécie semi-heliófila, o jatobá pode ser plantado de bordas e clareiras até o fechamento do dossel, mas não suporta baixas temperaturas. Tem ramificação simpodial irregular e variável, tronco curto, sem dominância apical definida, com muitas bifurcações e desrama natural deficiente, exigindo podas periódicas de condução e de galhos para formar fuste. Pode ser plantado a pleno sol em plantio puro com espaçamento denso, mas seu desempenho é melhor em plantio misto associado a espécies pioneiras, como observado em consórcio bem-sucedido com Centrolobium tomentosum; o consórcio com Pinus sp. prejudicou seu crescimento. Cresce menos à sombra ou meia-sombra do que a pleno sol e rebrota da touça após corte. É indicado para sistemas silvipastoris na arborização de pastos e, na Bolívia, para quebra-ventos, com 4 a 5 m entre árvores. A espécie está ameaçada de extinção, sofrendo dupla pressão pela exploração madeireira e pela fragmentação florestal, que rompe a relação com os animais dispersores (antas e cutias); em muitos fragmentos restam apenas árvores adultas sem renovação natural.
O crescimento é lento a moderado, com incremento volumétrico de até 10 m³/ha/ano. A rotação estimada para produção de madeira destinada ao processamento mecânico é de 30 a 60 anos.
A precipitação anual média vai de 1.000 mm, na Bahia e em Minas Gerais, a 2.400 mm, no Maranhão, com chuvas periódicas concentradas no verão ou no inverno. A deficiência hídrica varia de leve, no norte e noroeste do Paraná, a moderada, com estação seca de até 5 meses, no centro-norte mineiro e no Nordeste. A temperatura média anual fica entre 18,1ºC (Diamantina, MG) e 26,2ºC (Natal, RN), com mínima absoluta de -2,2ºC registrada em Uberaba (MG). Geadas são ausentes ou raras (até cinco por ano) na porção sul da distribuição. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Af, As e Aw), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o subtropical úmido (Cfa), no norte do Paraná.
Na natureza, o jatobá ocupa solos secos e por vezes de baixa fertilidade, sendo raro em terra roxa. Em experimentos, cresce melhor em solos de fertilidade média a elevada, com drenagem boa a regular e textura de franca a argilosa.