Foto: Denis Conrado (CC BY 3.0) via Wikimedia
Jatobá-do-cerrado
Hymenaea stigonocarpa
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: jatobá-capão, jatobá-da-casca-fina, jatobá, jatobeiro, jatobá-açu, jatobá-do-campo, jataí-de-piauí, jatobá-de-vaqueiro, jatobai, jatobá-da-serra, jatobá-de-caatinga, jataí-do-campo, jatobeira, jitaé, jutaé, jutaí, jutaicica
Botânica
Pertencente à família Caesalpiniaceae (Leguminosae: Caesalpinioideae) e ao gênero Hymenaea, a espécie foi descrita como Hymenaea stigonocarpa Mart. ex Hayne. Já recebeu os sinônimos botânicos Hymenaea chapadensis Barb. Rodr. e Hymenaea correana Barb. Rodr. O nome do gênero vem do grego hymen, divindade do casamento, em referência aos folíolos dispostos aos pares nas folhas.
Árvore decídua que, quando adulta, chega a cerca de 20 m de altura e 50 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é tortuoso e de fuste curto, com ramificação dicotômica e copa baixa. A casca atinge até 3 cm de espessura: por fora apresenta cor parda-avermelhada, sulcos profundos e cristas planas e duras; por dentro é estratificada, exibindo faixas paralelas claras e escuras. As folhas são alternas, pecioladas e compostas por dois folíolos curto-peciolulados e quase sésseis, com estípulas que caem cedo; o limbo varia de 6 a 23,5 cm de comprimento por 3,5 a 7 cm de largura, tem formato elíptico a ovado-reniforme, textura pergaminosa a coriácea e, com frequência, pontuações translúcidas. As inflorescências são cimeiras terminais bracteadas, reunindo até 30 flores grandes, cujas pétalas ultrapassam pouco o cálice. O fruto é um legume alongado, seco, indeiscente, em geral com várias sementes (raramente apenas uma), de ápice e base arredondados e margem inteira a levemente ondulada; mede de 8,7 a 20 cm de comprimento, 2,1 a 6,5 cm de largura e 2,0 a 4,3 cm de espessura, tem superfície rugosa por causa de pequenas pontuações salientes e uma linha de sutura proeminente que o contorna, variando do marrom-claro ao marrom quase preto, com 1 a 6 sementes por unidade. A semente é globosa a largo-oblonga ou obovada, comprimida, de ápice arredondado a levemente truncado e base arredondada ou afinada, com superfície irregular e algumas depressões, medindo de 17,8 a 28,4 mm de comprimento e 9,3 a 19,7 mm de espessura; é envolvida por um arilo amarelo-esverdeado, macio e fibroso-farináceo, de cheiro próprio e sabor adocicado, que forma a polpa.
Uso e ecologia
A madeira é densa (massa específica aparente de 0,90 g/cm³ e básica de 0,775 g/cm³) e muito valorizada nas construções civil e naval, tanto serrada quanto em forma roliça. Como combustível, fornece lenha e carvão de boa qualidade, com poder calorífico do carvão vegetal em torno de 7.445 kcal/kg, mas não serve para a produção de celulose e papel. Os frutos têm polpa farinácea muito apreciada pelas populações rurais, consumida in natura ou transformada em geleia, licor, farinha para bolos, pães e mingaus, e, misturada ao leite, em uma pasta espessa; são vendidos em diversos mercados, com destaque para o de Belo Horizonte. Na medicina popular, a polpa serve como laxante e a resina é apontada como afrodisíaca; a infusão é usada internamente contra cistite, a polpa misturada à cachaça atua como tônico, e o chá ou xarope da casca do caule funciona como depurativo contra queimaduras e tosse. A planta também tem potencial melífero.
Trata-se de uma espécie secundária tardia, comum nas formações abertas do Cerrado lato sensu, da Savana e do Campo Cerrado. Em Assis (SP) foi observada em regeneração sobre pastagem de Brachiaria decumbens. No bioma Cerrado aparece na Savana ou Cerrado lato sensu (Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Piauí e São Paulo), com 2 a 43 indivíduos por hectare, e na Savana Florestada ou Cerradão (Bahia, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais e São Paulo), com até 18 indivíduos por hectare. Na Mata Atlântica ocorre na Floresta Estacional Decidual submontana de Minas Gerais, com até três indivíduos por hectare, e na Caatinga aparece na Savana-Estépica do Semiárido, na Bahia e em Pernambuco. Também é encontrada em ambientes ripários (Distrito Federal e Minas Gerais), no Campo Cerrado de Vochysia rufa (raro em Mato Grosso e em São Paulo), no carrasco cearense e em áreas de contato entre Floresta Amazônica e Cerrado, em Mato Grosso. Fora do Brasil, vegeta nas savanas arborizadas da Bolívia.
A floração ocorre de setembro a outubro em São Paulo, de outubro a dezembro em Mato Grosso do Sul, de outubro a abril no Distrito Federal e em dezembro no Piauí. Os frutos amadurecem de abril a julho no Distrito Federal, de julho a novembro em Mato Grosso do Sul e em agosto em Minas Gerais.
É uma espécie monoica e autoincompatível. A polinização é feita sobretudo por morcegos, enquanto a dispersão dos frutos e sementes é essencialmente zoocórica, realizada pela avifauna.
Plantio e silvicultura
No beneficiamento, indica-se quebrar os frutos com martelo de borracha. Depois de extraídas, as sementes ficam de molho em um balde com água por cerca de 6 horas para que a polpa fermente, e a polpa é então removida atritando-as sobre uma peneira de 5 mm. Cabem de 290 a 320 sementes por quilo, havendo registro de variação média de 238 a 338 em estudo com cinco procedências. Para acelerar a germinação, faz-se escarificação manual com lixa na extremidade oposta ao eixo embrionário. As sementes têm comportamento ortodoxo e podem ser guardadas em câmara fria, a 5 ºC a 6 ºC.
Recomenda-se semear uma semente por saco de polietileno de pelo menos 22 cm de altura e 10 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno; a semeadura direta no campo também é viável. Quando necessária, a repicagem é feita 1 a 2 semanas após a germinação, que é epígeo-carnosa ou fanerocotiledonar. A emergência começa de 9 a 60 dias após a semeadura, com taxa de germinação entre 7% e 78,3%, e as mudas ficam prontas para o plantio cerca de 3 meses depois da semeadura. Não se aconselha sombrear a fase de germinação, pois sem sombra obtêm-se mais mudas em menos tempo. As raízes não formam nódulos com Rhizobium e apresentam baixa incidência de micorriza arbuscular. A propagação vegetativa pode ser feita por estacas de raiz.
Espécie heliófila, que não suporta temperaturas baixas. Tem ramificação simpodial irregular e variável, tronco curto sem dominância apical definida, copa pesada e várias bifurcações, além de desrama natural deficiente, o que exige podas periódicas de condução e de galhos para formar um fuste definido. Pode ser plantada a pleno sol em maciço puro com espaçamento denso, mas o desempenho silvicultural melhora em plantio misto, também a pleno sol, em associação com espécies pioneiras. A forma antes chamada Hymenaea chapadensis rebrota bem da touça, permitindo manejo por talhadia.
Há poucos dados disponíveis sobre o desenvolvimento da espécie, mas sabe-se que seu crescimento é lento.
A precipitação média anual varia de 760 mm, no Ceará, a 1.800 mm, em Goiás, com regime de chuvas periódicas. A deficiência hídrica de inverno vai de pequena a moderada no Distrito Federal e no sul de Minas Gerais, de moderada a forte no oeste mineiro, no sul de Goiás e no centro de Mato Grosso, de moderada a forte no Ceará, no norte do Maranhão e no oeste baiano, e forte no norte do Piauí e no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 18,1 ºC (Diamantina, MG) e 27 ºC (Floriano, PI); a média do mês mais frio entre 15,3 ºC (Diamantina, MG) e 25,8 ºC (Caxias, MA); e a do mês mais quente entre 20 ºC (Diamantina, MG) e 30,2 ºC (Floriano, PI), com mínima absoluta de -2,2 ºC registrada em Uberaba (MG). As geadas são ausentes a raras em São Paulo. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Aw (tropical úmido de savana, com inverno seco), Cwa (subtropical úmido de inverno seco e verão chuvoso) e Cwb (subtropical de altitude, de verões chuvosos e invernos frios e secos).
Cresce naturalmente em solos secos e de baixa fertilidade química, desde que sejam bem drenados.