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Jaracatiá
Jacaratia spinosa
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: jacaratiá, mamão-de-veado-branco, mamão-brabo, mamão-do-mato, mamão-jacatiá, mamão-bravo, mamãozinho, mamoeiro-bravo, mamoeiro-do-mato
Botânica
O nome científico aceito é Jacaratia spinosa (Aubl.) A. DC., publicado em 1864 (DC. Prodr. 15(1): 419). A espécie pertence à família Caricaceae, ordem Violales. Na literatura aparece também sob os sinônimos Carica spinosa Aubl. e Jacaratia dodecaphylla (Vell.) DC. O nome do gênero vem do tupi-guarani iaracatia, que significa "árvore parecida com o mamoeiro", enquanto o epíteto spinosa faz referência aos acúleos presentes no caule. No Brasil recebe diversos nomes regionais, como jaracatiá no Acre, mamão e mamão-de-veado-branco na Bahia, mamão-jacatiá no Espírito Santo e Rio de Janeiro, mamãozinho e mamão-bravo em Minas Gerais, e mamoeiro-do-mato no Rio Grande do Sul. Nas colônias alemãs de Santa Catarina é chamado de kohlruebenbaum, por causa de sua medula carnosa e branca.
Pode se apresentar como arbusto, arvoreta ou árvore, com folhagem que varia de perene a decídua. Os maiores exemplares chegam a cerca de 30 m de altura e 1 m de DAP na fase adulta. O tronco é reto, grosso, francamente cônico e coberto de acúleos; quando golpeado, soa oco. A ramificação é cimosa e a copa, arredondada em forma de guarda-chuva, é relativamente pequena, com galhos finos, fracos, quase horizontais e pendentes que partem de um único tronco. Nas pontas dos ramos concentram-se folhas verdes-brilhantes que dão à árvore um aspecto inconfundível. A casca, de até 3 mm de espessura, é externamente acinzentada, quase lisa, com descamação fina, lenticelas horizontais e espinhos achatados de até 5 mm (às vezes ausentes); por baixo dela há uma polpa branca e mole que libera látex também branco ao ser cortada. As folhas são alternas, digitadas e pecioladas, com 5 a 12 folíolos quase sésseis, ovais a estreitamente lanceolados e lustrosos, medindo de 4,5 a 18 cm de comprimento por 1,5 a 6 cm de largura; têm a face superior verde-escura e a inferior esbranquiçada. As inflorescências masculinas são axilares, racemosas e com muitas flores esverdeadas de abertura noturna, ao passo que as femininas são axilares, solitárias e de cor creme-esverdeada, pouco vistosas. As flores são unissexuais, branco-amareladas e bastante aromáticas: as masculinas, numerosas, medem de 10 a 14 mm e têm corola de cinco lóbulos; as femininas, amarelas e solitárias, têm cinco pétalas carnosas e medem de 2 a 3 cm. O fruto é uma baga angulosa ou sulcada, de formato elipsoide, com 3 a 8 cm de comprimento por 1 a 5 cm de largura, lustrosa e amarelo-ouro quando madura; a polpa, de cerca de 1 cm de espessura, é sucosa, doce, comestível, de cor avermelhada a alaranjada, e abriga muitas sementes. As sementes são ovoides, amarelas, de 1 a 3 mm de diâmetro, envolvidas por mucilagem e com sarcotesta carnosa e esclerotesta marrom-escura, semelhantes às do mamoeiro (Carica papaya).
Uso e ecologia
A madeira não tem aproveitamento serrado ou roliço, mas em vários países pedaços do tronco são aproveitados para fabricar barris. O lenho é mole e oco, de cor esbranquiçada e densidade extremamente baixa. O grande destaque da espécie é o uso alimentício: produz frutos doces, comestíveis e abundantes, com sabor parecido ao do mamão (Carica papaya), porém mais leitoso e cáustico. Por isso, os frutos só devem ser consumidos bem maduros ou assados no borralho, pois crus irritam os lábios — depois de tostados, ganham sabor agradável. A polpa pode ser comida com açúcar ou cortada e tostada, e os frutos verdes servem para doces ou como verdura. Com a parte macia do caule ou da raiz prepara-se uma massa que, combinada ao coco-da-bahia, rende um doce saboroso; no Paraná, a medula é usada na fabricação de doces e como substituto do coco em cocadas. No campo medicinal, o leite dos frutos verdes (uma colher de sopa em jejum, para adultos) é indicado contra a opilação, e o consumo diário dos frutos maduros tem ação anti-helmíntica, sendo apontado também contra a ancilostomíase. Na Bolívia é empregado para tratar infecções hepáticas e dores no corpo.
Trata-se de espécie pioneira a secundária tardia. Em fragmentos florestais costuma ocorrer em grupos, mas em florestas primárias ou áreas sem perturbação aparece dispersa e rara, em terrenos úmidos de planícies aluviais e depressões de encostas. Coloniza tanto clareiras pequenas, de menos de 60 m², quanto grandes, de mais de 100 m². Na Floresta Estacional Decidual aparece com frequência de 9 a 19 indivíduos por hectare, e na Floresta Estacional Semidecidual, de 3 a 21 por hectare; em ambientes ripários a frequência cai para cerca de 1 indivíduo por hectare. Está presente na Mata Atlântica (florestas estacional decidual, estacional semidecidual e ombrófila densa), na Amazônia (florestas ombrófila aberta e densa de terra firme, no Acre e no Pará), no Cerrado (cerradão, em Minas Gerais) e na Caatinga (caatinga arbórea, no sudeste de Minas Gerais), além dos brejos de altitude do Nordeste. No Paraná, consta da lista vermelha de plantas ameaçadas de extinção, na categoria rara.
A floração ocorre de setembro a janeiro no Paraná, de outubro a novembro no Espírito Santo e em Minas Gerais, de outubro a dezembro no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e de dezembro a março em São Paulo. Os frutos amadurecem de novembro a março em Minas Gerais, de dezembro a março em São Paulo, de dezembro a abril no Rio Grande do Sul e de janeiro a junho no Paraná.
É uma espécie dioica. A polinização é feita principalmente por mariposas, seguidas de borboletas, esfingídeos e beija-flores (como Chlorostilbon aureoventris, Amazilia lactea, A. versicolor e Eupetomena macroura). A dispersão é autocórica, do tipo barocórica (por gravidade), já que o sabor um tanto cáustico dos frutos dificulta seu consumo por aves e outros animais; ainda assim, há registros de zoocoria. No Paraguai, macacos-prego (Cebus apella) se alimentam dos frutos, que são importantes nas cadeias alimentares.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos maduros, diretamente da árvore ou do chão após a queda. Em seguida são abertos manualmente para retirar as sementes, que precisam ser lavadas em água corrente e secas à sombra. Cada quilo reúne cerca de 28.700 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo, mas a viabilidade sob armazenamento é muito curta. A sarcotesta e a mucilagem que envolvem a semente contêm inibidores e formam grande quantidade de gel em contato com a água, reduzindo a germinação; sementes com esses envoltórios removidos germinam bem melhor.
As sementes devem ser semeadas logo após a colheita, em canteiros semissombreados. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 10 e 27 dias após a semeadura e poder germinativo geralmente alto. A repicagem é feita quando as plântulas atingem de 4 a 5 cm de altura, cerca de 2 meses após a germinação. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio em torno de 4 meses após a semeadura.
Espécie esciófila, que não suporta baixas temperaturas. Tem hábito monopodial, com tronco reto que vai se afinando em direção à copa. Para o plantio, recomenda-se o sistema misto.
Apresenta crescimento moderado, com produção volumétrica estimada em até 11 m³ por hectare ao ano já aos 4 anos de idade.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 1.000 mm (Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo) a 2.600 mm, chegando ao limite de 3.000 mm no Rio de Janeiro. As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto norte do Paraná) e no sul da Bahia, e periódicas na maior parte das demais áreas. A deficiência hídrica vai de nula (noroeste do Rio Grande do Sul, litoral catarinense e centro-leste do Paraná) a moderada ou forte (norte do Maranhão e noroeste de Minas Gerais). A temperatura média anual fica entre 18,3 ºC (Telêmaco Borba, PR) e 26,1 ºC (São Luís, MA), com mínima absoluta de -5 ºC. As geadas variam de 0 a 3 por ano em média, podendo chegar a 18 no Paraná, embora geralmente sejam raras ou inexistentes. Pela classificação de Köppen, ocorre nos climas Af, Am, Aw, Cfa, Cwa e Cwb.
Cresce de forma espontânea em solos úmidos das planícies aluviais e nas depressões das encostas. Em terrenos férteis desenvolve árvores grandes e bonitas, mas vegeta com menos vigor em solos fracos.