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Foto de Jacatirão-açu

Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF

Jacatirão-açu

Miconia cinnamomifolia

Melastomataceae Mata Atlântica
  • 8 a 15 mAltura
  • Médio portePorte
MadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: carvalho-vermelho, casca-de-arroz, guaratã, jacatirão, jacatirão-de-casca-lisa, jacatirão-de-copada, jacatirão-guaçu, jacatirão-miúdo, jaguatirão, jaquetirão, vassoura, vassoura-mansa, vassourão, vassourinha, nhacatirão, quaresma-branca, quaresminha, quaresmeira

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Melastomataceae e à ordem Myrtales, a espécie foi descrita como Miconia cinnamomifolia (A. DC.) Naudin, em 1851. Já recebeu os nomes de Cremanium cinnamomifolia DC. e Miconia candolleana Triana, hoje tratados como sinônimos. O nome do gênero homenageia o médico espanhol D. Micon, enquanto o epíteto cinnamomifolia faz alusão à semelhança de suas folhas com as do gênero Cinnamomum (a canela).

Descrição botânica

Árvore perenifólia que normalmente mede de 8 a 15 m de altura e apresenta diâmetro à altura do peito (DAP) de 20 a 50 cm, mas que pode chegar a 25 m e a 120 cm de DAP quando adulta. O tronco é reto, levemente cônico e em geral curto, com fuste de até 12 m. A ramificação é cimosa, densa e voltada para cima, formando uma copa arredondada a umbeliforme bastante característica, muito enfolhada e de tom verde-claro. A casca chega a 10 mm de espessura; por fora é marrom-escura, marcada por fissuras longitudinais finas, numerosas e rasas, e por dentro é esbranquiçada. As folhas são opostas, simples, de formato oval a elíptico, coriáceas, com lâmina de 5 a 12 cm de comprimento por 4 a 5 cm de largura e pecíolo de 1 a 2,5 cm; possuem pseudoestípulas interpeciolares, base aguda levemente decorrente, ápice agudo e curtamente acuminado, nervuras finamente reticuladas e margem espessa e ligeiramente revoluta, sendo ambas as faces glabras quando maduras. As flores são pequenas, brancas e perfumadas, reunidas em panículas terminais densas e multiflorais de até 10 cm, com ovário trilocular. Os frutos são pequenas bagas de cor violácea muito escura, com quase dez sementes por lóculo, e as sementes são minúsculas e avermelhadas.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasapícolaenergético
Produtos e utilizações

A madeira serve para construção civil (ripas, sarrafos, suportes de lajes, alinhamentos, tabuado e obras internas), carpintaria, mourões de cerca, dormentes, postes e laminação. Tem boa durabilidade natural, mas não resiste à umidade nem ao ataque de cupins; absorve mal os preservantes e tende a rachar na secagem e no desdobro, sendo o lixamento e o aplainamento prejudicados pela presença de nós e grã irregular. É moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,70 a 0,76 g/cm³ a 12% de umidade e massa específica básica de 0,58 g/cm³; o alburno é bege levemente rosado e o cerne, esbranquiçado a bege-claro, de superfície lisa, sem brilho, textura média e grã direita a irregular. Presta-se ainda a lenha e carvão vegetal e à produção de celulose de fibra curta (fibras de 0,87 a 0,90 mm, 64,3% de holocelulose e 20,2% de lignina no lenho). A casca fornece tanino usado em curtume e um corante preto que, em Santa Catarina, era empregado para tingir redes de pesca de algodão. A forragem contém 10,5% de proteína bruta e 7% de tanino. É também planta melífera, produtora de pólen e néctar, considerada uma das melhores árvores da Floresta Atlântica catarinense para a apicultura. No paisagismo, é indicada para parques e arborização urbana.

Aspectos ecológicos

Sua produção de banco de sementes no solo sugeriria um caráter pioneiro, mas a forma de crescimento a classifica como secundária inicial. É frequente nas fases mais avançadas da vegetação secundária — capoeirões e florestas secundárias de encostas secas e íngremes, sobretudo até 200 m de altitude —, chegando a dominar capoeiras de 30 a 40 anos. Apresenta regeneração natural intensa em vários estágios; estudos no Rio de Janeiro a registraram em áreas de até 50 anos, embora o recrutamento ocorra apenas até cerca de 10 anos, restringindo-se depois a clareiras. É considerada especialista de pequenas clareiras e, como árvore rara, pode aparecer também em clareiras de floresta primária. É típica da Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), nas formações Submontana e Baixo-Montana, ocorrendo ainda na restinga e, em Minas Gerais, na Floresta Estacional Semidecidual (Mata Seca). No sul de Minas, inventários registraram 79 árvores por hectare com DAP acima de 30 cm e 1.656 árvores por hectare com DAP de 10 a 30 cm.

Floração e frutificação

A floração vai de novembro a janeiro no Paraná e em Santa Catarina, e de dezembro a janeiro em São Paulo. Os frutos amadurecem de fevereiro a março em São Paulo e de março a maio em Minas Gerais, no Paraná e em Santa Catarina. Em plantios, o início da reprodução se dá por volta dos 5 anos de idade.

Fauna associada

Planta hermafrodita de polinização cruzada, é visitada principalmente por abelhas dos gêneros Melipona e Trigona, além de diversos pequenos insetos. A dispersão ocorre por barocoria (autocoria), muitas vezes em associação com a zoocoria. Os frutos maduros atraem aves, mamíferos — em especial o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia rosalia) — e formigas saúvas do gênero Atta. Em Linhares (ES), observou-se que a espécie é excelente recurso de forrageio para a anta (Tapirus terrestris), e há indícios de que as antas possam influenciar a estrutura e a arquitetura das plantas que utilizam.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos amadurecem de forma irregular, tanto na copa quanto dentro de cada infrutescência, e são rapidamente consumidos por pássaros. É possível colher tanto frutos maduros, de cor violácea escura, quanto frutos verdes, já que estes contêm sementes viáveis ao longo de toda a safra, que dura de 7 a 8 meses; quando os dois tipos aparecem juntos na árvore, recomenda-se aproveitar ambos. O beneficiamento pode ser feito macerando os frutos em água e deixando as sementes decantarem até perderem a cor arroxeada: as sementes afundam e o material inerte fica na superfície, facilitando a separação; em seguida, secam-se à sombra e em local ventilado, pois fora dessas condições a germinação cai muito. Cada quilo reúne de 1.900.000 a 2.925.000 sementes. Elas têm acentuado fotoblastismo positivo e os próprios frutos sintetizam substâncias que inibem a germinação interna, de modo que esta depende da liberação da semente na natureza, por degradação ou ingestão por animais; na prática, recomenda-se semear sobre pó de xaxim para superar a dormência. O comportamento de armazenamento é ortodoxo: sementes de frutos verdes e maduros, beneficiadas e guardadas a +3 ºC e -1 ºC, mantiveram pleno poder germinativo por 24 meses. Em laboratório, germina numa ampla faixa de temperatura, em torno de 25 a 35 ºC.

Produção de mudas

Recomenda-se semear em sementeira e repicar as plântulas para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, cerca de 3 meses após a germinação; na prática, costuma-se colocar de 7 a 10 sementes por recipiente. A germinação é epígea e começa entre 22 e 90 dias após a semeadura, com poder germinativo bastante variável e irregular (de 0% a 81%). As mudas atingem tamanho adequado para o plantio por volta de 15 meses após a semeadura. As raízes abrigam fungos micorrízicos arbusculares.

Características silviculturais

Espécie semi-heliófila e sensível ao frio. Tem crescimento monopodial e boa desrama natural em espaçamentos pequenos, exigindo desrama artificial quando plantada de forma mais espaçada. Pode ser cultivada a pleno sol, em plantio puro ou misto, servindo de tutoramento para espécies secundárias e clímax; rebrota da touça após o corte e tolera a competição com a vegetação invasora, sem exigir muitas capinas. Presta-se a sistemas agroflorestais silviagrícolas (arborização de culturas) e silvipastoris (arborização de pastos). No litoral norte de Santa Catarina, é comum preservarem-se árvores espaçadas de jacatirão-açu ao desmatar a capoeira para plantar bananeiras, prática multiestrato incipiente que poderia ser melhor estruturada para diversificar a renda do produtor.

Crescimento e produção

Há pouca informação sobre o desenvolvimento da espécie em plantios experimentais. Sob manejo da regeneração natural, registrou-se incremento volumétrico de 14 m³/ha/ano com casca. Estima-se rotação de 10 a 15 anos para lenha e de 20 anos para uso industrial, com bitola de 40 a 60 cm. Em plantio no espaçamento inicial de 2 x 2 m, recomenda-se desbastar o povoamento para 1.250 plantas por hectare entre 7 e 8 anos e para 625 plantas por hectare aos 12 anos.

Clima

A precipitação anual média varia de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 2.700 mm, em São Paulo. As chuvas são bem distribuídas do litoral de Santa Catarina a São Paulo, em parte do litoral fluminense e na faixa costeira do sul da Bahia, e concentradas no verão nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula do litoral catarinense ao fluminense, pequena na costa sul da Bahia e moderada no inverno do norte do Espírito Santo. A temperatura média anual fica entre 19,3 ºC (São Paulo, SP) e 23,7 ºC (Rio de Janeiro, RJ); a média do mês mais frio vai de 15,4 ºC (Viçosa, MG) a 21,3 ºC (Rio de Janeiro, RJ) e a do mês mais quente, de 22,1 ºC (Lavras, MG) a 26,5 ºC (Rio de Janeiro, RJ). A mínima absoluta registrada foi de -3,4 ºC (Indaial, SC). As geadas variam de 0 a 1 por ano em média, com máximo de sete no Sul, mas predominam regiões sem geada ou com geadas raras. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Af e Aw), o subtropical de altitude (Cwb) e o subtropical úmido (Cfa).

Solos

Cresce naturalmente em diversos tipos de solo, inclusive em areia quartzosa. Em geral, prefere solos bem drenados, de textura arenosa a areno-argilosa.