Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Jacarandá-do-litoral
Platymiscium floribundum
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: ipê-rosa, jacarandá-branco, jacarandá-canudo, sacambu, carrancudo, rabugeira, rabugem, ipê-candeia, araribá-preto, jacarandá-do-brejo, jacarandá-pitanga, jacarandá-prateado, jacarandá-rosa, caixa-d'água, jacarandá, jacarandá-vermelho, amendoeira-do-campo, jacarandá-tã
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (antiga Leguminosae), subfamília Faboideae (Papilionoideae), a espécie foi descrita por Vogel e publicada pela primeira vez em 1837 (Linnaea 11: 199). Pelo sistema de classificação APG III, está posicionada na ordem Fabales, dentro do clado das eurosídeas I. O epíteto floribundum faz referência à floração farta da planta, enquanto a origem do nome do gênero Platymiscium permanece desconhecida.
Trata-se de uma árvore de folhagem decídua, cujos exemplares mais desenvolvidos alcançam por volta de 20 m de altura e 70 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, aferido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco costuma ser reto, com fuste de no máximo 10 m. A ramificação é cimosa ou dicotômica, e a copa apresenta-se globosa, ampla e irregular, com galhos marcados por lenticelas grandes; os ramos terminais são cilíndricos a comprimidos, glabros, lenticelados e ocos, enquanto os râmulos, verdes e curtos, concentram as folhas nas extremidades. A casca chega a 10 mm de espessura, sendo a externa (ritidoma) castanha e percorrida por fendas irregulares de largura variável. As folhas, dispostas de forma oposta, são compostas, imparipinadas e de coloração verde-clara, reunindo de 5 a 7 folíolos opostos, glabros e sem estipelas; cada folíolo é elíptico, mede de 6 cm a 12 cm de comprimento por 2,5 cm a 4 cm de largura, tem ápice obtuso ou retuso, base cuneada e margem plana, com pecíolo glabro de cerca de 5 cm e peciólulos sulcados na face superior. As inflorescências surgem em racemos axilares poucos floridos, de 9 cm a 14 cm de comprimento, com pedicelos de flores caducas. As flores medem de 1,2 cm a 1,5 cm, têm cálice glabro de base aguda, corola amarela, estames monadelfos e anteras dorsifixas. O fruto é uma sâmara indeiscente de cor marrom-clara e consistência papirácea, com 5,5 cm a 7 cm de comprimento por 2 cm a 3 cm de largura, formato lenticular e um núcleo seminífero central que geralmente abriga uma única semente. A semente é grande, achatada, comprimida e tem formato de feijão (riniforme).
Uso e ecologia
A madeira é densa (0,88 g/cm³ a 0,89 g/cm³ a 15% de umidade), com cerne de coloração irregular em que predomina o castanho ou o castanho-avermelhado, frequentemente com veios escuros longitudinais e reflexos arroxeados; o alburno é bem diferenciado e branco-amarelado. A superfície é lisa ao tato e de brilho irregular, com textura média e grã irregular, sem cheiro ou gosto perceptíveis. Por observações práticas, mostra-se resistente ao ataque de organismos xilófagos, embora, por ter poros parcialmente obstruídos por óleo-resina, deva apresentar baixa permeabilidade a soluções preservantes sob pressão. É empregada na fabricação de móveis finos de alto valor, folhas faqueadas decorativas, lambris, peças torneadas, cabos de escovas e talheres, peças de cutelaria e puxadores de gaveta, além de diversos usos na construção civil (vigas, ripas, tábuas, tacos de assoalho, forros, marcos de portas e janelas, parquete, portas maciças, batentes e acabamentos internos) e peças de adorno. Também fornece lenha de boa qualidade. Como forrageira, contudo, é pouco indicada, já que sua folhagem tem de 12,5% a 17% de proteína bruta e de 7% a 8% de tanino. Para celulose e papel, a madeira é considerada inadequada.
Classificada como espécie secundária tardia, é encontrada com regularidade nas planícies e encostas úmidas do litoral, em vegetação secundária e em capoeiras. É muito rara na Ilha de Santa Catarina e pouco comum na Mata Atlântica. Sua presença é registrada em diversas formações: na Caatinga arbórea (Ceará e norte de Minas Gerais, com até três indivíduos por hectare); em florestas estacionais semideciduais e deciduais e na floresta ombrófila densa em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais e Ceará; em matas ciliares (Distrito Federal, Espírito Santo, Paraíba, Pernambuco e Rio de Janeiro, com até quatro indivíduos por hectare); em brejos de altitude nordestinos em Pernambuco (até 40 indivíduos por hectare); em caxetais no litoral paranaense; em áreas de transição cerrado/mata seca no norte de Minas Gerais; e em restingas do Rio de Janeiro e de São Paulo.
A floração varia conforme a região: de setembro a outubro no Ceará, de outubro a novembro no Paraná e de outubro a dezembro em São Paulo. Em São Paulo, os frutos amadurecem entre agosto e novembro.
É uma planta hermafrodita, polinizada sobretudo por abelhas e por uma variedade de insetos. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, feita pelo vento. As folhas jovens integram a dieta do macaco-bugio (Alouatta fusca).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore, antes de começarem a cair, ou recolhidos do chão logo após a queda, podendo ser usados na semeadura sem maior preparo. Cada quilo reúne de 1.200 a 1.500 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. A viabilidade das sementes é mantida por pouco tempo.
Recomenda-se semear uma semente por recipiente, em sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio. As plântulas são faneroepígeas, com hipocótilo alongado, e a emergência ocorre entre 8 e 14 dias após a semeadura, com alto poder germinativo nas sementes recém-colhidas. O desenvolvimento das mudas é lento, de modo que ficam aptas para o plantio cerca de 9 meses depois da semeadura. As raízes estabelecem associação simbiótica com Rhizobium, formando nódulos globosos do tipo aeschynomenoide, de baixa atividade da nitrogenase.
Espécie esciófila, não tolera temperaturas baixas. Costuma desenvolver forma pouco satisfatória, sem dominância apical definida e com ramificação pesada, sendo necessária poda de condução e de galhos de modo frequente e periódico, uma vez que não apresenta boa derrama natural. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro, com crescimento moderado apesar da forma inadequada; em plantio misto a pleno sol, associada a pioneiras, sobretudo para melhorar a forma inicial do fuste; e em vegetação matricial arbórea, plantada em linhas, em faixas abertas dentro de vegetação secundária.
Apresenta crescimento moderado. Em floresta natural, o fator de forma calculado para a espécie é de 80,7. Em plantios no Paraná, aos 5 anos e espaçamento de 3 m x 3 m, registraram-se em Engenheiro Beltrão 80% de plantas vivas, 5,60 m de altura média e 8 cm de DAP médio, e em Fênix 80% de sobrevivência, 4,60 m de altura média e 6 cm de DAP médio, ambos em Latossolo Vermelho distroférrico.
A precipitação anual média na área de ocorrência vai de 600 mm, no Ceará, a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). O regime de chuvas é uniforme no litoral do Sul e Sudeste e no sul da Bahia, e estacional no norte do Espírito Santo, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, onde a estiagem se estende de maio a setembro. A deficiência hídrica é nula no litoral do Paraná e de Santa Catarina, moderada no centro da Bahia e em Pernambuco e forte no Ceará e no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 19,3 °C (São Paulo, SP) e 26 °C (Aracaju, SE), com a mínima absoluta de -0,9 °C registrada em Morretes (PR). Geadas são ausentes na maior parte da distribuição e raras no Sul e Sudeste. Pela classificação de Köppen, a espécie ocorre nos tipos Af, As, Aw, BShw', Cfa, Cwa e Cwb.
Em condições naturais, desenvolve-se em solos aluviais e em várzeas úmidas.