Foto: João de Deus Medeiros (CC BY 2.0) via Wikimedia
Jacarandá-do-cerrado
Dalbergia miscolobium
- até 16 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: canela-de-burro, jacarandá-caviúna-do-cerrado, cabiúna-do-cerrado, cabiúna, cabiúna-do-campo, caviúna, caviúna-do-cerrado, jacarandá, jacarandá-do-campo, amendoim-do-cerrado, amendoim-do-mato, anileira, anileiro, pau-preto, graúna, jacarandá-caviúna, jacarandazinho, sapuvuçu, uraúna
Botânica
Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à ordem Fabales, família Fabaceae e subfamília Faboideae (Papilionoideae), dentro do gênero Dalbergia. O nome científico válido é Dalbergia miscolobium Benth., publicado pela primeira vez em 1860 (J. Linn. Soc. 4, Suppl. 35). São registrados como sinônimos botânicos Dalbergia violacea (Vog.) Malme, Miscolobium violaceum Vogel e Miscolobium nigrum Martius. O nome do gênero homenageia o médico sueco N. Dalberg, enquanto o epíteto miscolobium combina os termos gregos misco (mistura) e lobium (vagem). Já o nome popular jacarandá tem origem tupi (ya'akã'ratã), com o sentido de "aquele que tem miolo duro".
Árvore de folhagem brevidecídua que, na fase adulta, chega a cerca de 16 m de altura e 50 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo); nos campos rupestres de Minas Gerais, porém, não passa de aproximadamente 4 m. O tronco é bastante tortuoso, com fuste curto de no máximo 6 m. A ramificação é dicotômica e a copa exibe ramos e gemas terminais castanhas. A casca chega a 20 mm de espessura, com ritidoma cinza ou castanho, duro, fissurado e que se desprende em pequenas placas. As folhas, compostas, têm de 15 cm a 22 cm de comprimento e reúnem de 4 a 8 folíolos subcoriáceos e glabros, de face inferior verde-arroxeada, medindo de 1,5 cm a 3,5 cm. As flores aparecem em panículas tirsoides terminais ou axilares, com 30 a 60 unidades cada; são aromáticas, variam do roxo-claro ao roxo-escuro, medem de 6 mm a 7 mm e têm cálice com dentes de cerca de 2 mm. O fruto é um legume samaroide plano, de 4 cm a 7 cm de comprimento por 1,5 cm a 2 cm de largura, contendo de 1 a 2 sementes planas e reniformes situadas no centro. Nas sementes, a composição de ácidos graxos difere entre o eixo embrionário e os cotilédones, com destaque para o alto teor de ácido linolênico no embrião, ausente nos cotilédones.
Uso e ecologia
A espécie tem grande potencial melífero, fornecendo néctar e pólen às abelhas. Seus frutos integram arranjos artesanais conhecidos como "flores do planalto", vendidos nas feiras de Brasília e exportados para outras regiões e países. A madeira rende lenha e carvão de boa qualidade, com rendimento em carvão de 33,5%, teor de carbono fixo de 75,5% e 32,31% de lignina; já não serve para celulose e papel. Por ser baixa, tortuosa e de fuste fino, a madeira é pouco aproveitada, mas, por seu aspecto decorativo, presta-se a tacos, estojos e pequenos móveis marchetados, como cômodas, baús e porta-joias; a casca grossa e rica em fibras mecânicas também pode ser usada na indústria de aglomerados. Quanto às propriedades, a massa específica aparente é de 0,81 g/cm³ e a básica varia de 0,77 a 0,80 g/cm³; o alburno é moderadamente escuro e o cerne, amarelo-escuro, com grande durabilidade natural.
Trata-se de espécie pioneira, mais comum em formações abertas secundárias, onde pode formar grandes agrupamentos. Em Bom Despacho (MG), foi observada em regeneração sob plantio de Eucalyptus grandis. Ocorre no Cerrado em campo cerrado (no Paraná e em São Paulo, com até oito indivíduos por hectare), em cerrado stricto sensu (em vários estados, alcançando até 58 indivíduos por hectare) e em cerradão (com até dez por hectare). Na Caatinga, aparece na savana-estépica do semiárido baiano. Na Mata Atlântica, está presente na floresta estacional semidecidual montana, na Bahia e em Minas Gerais. Também ocorre em matas ciliares (Distrito Federal e Minas Gerais, até três indivíduos por hectare), nos campos rupestres da Serra da Bocaina (MG), onde é rara, e em ecótono savânico-florestal em Bauru (SP).
A floração é anual e varia conforme a região: de janeiro a fevereiro em Minas Gerais, de fevereiro a março em Mato Grosso e de fevereiro a julho no Distrito Federal. Os frutos amadurecem de janeiro a agosto no Distrito Federal, de maio a setembro em Mato Grosso e em junho em Minas Gerais.
A espécie é hermafrodita e tem como polinizadores principalmente abelhas e diversos insetos de pequeno porte. A dispersão dos frutos e sementes é feita pelo vento (anemocoria).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começarem a se dispersar. Cada quilograma reúne cerca de 3.100 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Como apresentam comportamento fisiológico recalcitrante, mantêm a viabilidade no armazenamento por pouco mais de 4 meses.
A semeadura pode ser feita em sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, em tubetes grandes de polipropileno ou, eventualmente, em sementeiras para posterior repicagem. A germinação é epígea e as plântulas são fanerocotiledonares, com hipocótilo curto. A espécie estabelece associação simbiótica com bactérias do gênero Rhizobium. Em viveiro, sob diferentes níveis de sombreamento, demonstra pouca plasticidade de adaptação à redução de luz, desenvolvendo-se melhor em condições de maior luminosidade.
É espécie essencialmente heliófila e moderadamente tolerante ao frio. Em plantios, varia bastante quanto à forma do fuste, indo de boa a inadequada, e rebrota da touça. A forma das plantas pode ser melhorada com práticas como espaçamentos mais estreitos, podas de formação e desrama; podas de formação sucessivas, iniciadas já no primeiro ano, ajudam a reduzir o número de bifurcações. Recomenda-se o plantio misto, em consórcio com espécies de crescimento rápido. Pelo Decreto nº 14.783, de 17 de junho de 1993, foi tombada como Patrimônio Ecológico Distrital no Parque do Guará (DF).
Há poucas informações sobre o desempenho da espécie em plantios, mas o crescimento é considerado lento.
A precipitação média anual na área de ocorrência vai de 780 mm, no norte de Minas Gerais, a 1.700 mm, no Maranhão, com chuvas em geral periódicas, exceto na região de Jaguariaíva (PR), onde são uniformes. A deficiência hídrica é nula em Jaguariaíva, de pequena a moderada no sul de Minas Gerais, moderada no centro-oeste do Paraná e de moderada a forte no oeste da Bahia, no Maranhão e em Tocantins. A temperatura média anual fica entre 17,6 °C (Jaguariaíva, PR) e 26,1 °C (Carolina, MA); a média do mês mais frio varia de 13,2 °C a 25,2 °C e a do mês mais quente, de 21,3 °C a 27,8 °C, com mínima absoluta registrada de -3 °C em Jaguariaíva. As geadas vão de ausentes na maior parte da área a frequentes em Jaguariaíva, onde chegam a dez por ano. Na classificação de Köppen, abrange os tipos Am, Aw, Cfa, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente em terrenos arenosos e bem drenados. No Cerrado mineiro, esses solos têm pH entre 4,6 e 4,9.