Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Jacarandá-da-bahia
Dalbergia nigra
- 10 a 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: caviúna, cabiúna, caábiuna, cabeúna, graúna, jacarandá-caviúna, jacarandá-preto, jacarandá-roxo, jacarandá-verdadeiro, jacarandá-violeta, pau-preto, camburana, uraúna
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (Leguminosae, subfamília Papilionoideae) e à ordem Fabales, a espécie foi descrita como Dalbergia nigra (Vellozo) Freire Allemão ex Bentham, tendo Pterocarpus niger Vellozo como sinônimo botânico. O nome do gênero presta homenagem ao médico sueco N. Dalberg, enquanto o epíteto nigra remete à coloração bastante escura da madeira.
Trata-se de uma árvore semicaducifólia que costuma medir de 10 a 20 m de altura, com diâmetro do tronco (DAP) entre 15 e 45 cm, mas que excepcionalmente pode alcançar até 35 m e 155 cm de DAP quando adulta. O tronco é tortuoso e irregular, com fuste de até 10 m, e a copa, formada por ramificação cimosa, apresenta-se larga, achatada e bem enfolhada. A casca, de até 7 mm de espessura, tem a face externa pardo-acinzentada, áspera e dividida no sentido vertical em finas placas retangulares que se desprendem aos poucos, marcada por numerosas lenticelas horizontais; internamente é avermelhada. As folhas são compostas, alternas e paripinadas, com 10 a 20 folíolos de 0,7 a 2,5 cm de comprimento por 0,4 a 1,0 cm de largura, pilosos quando jovens e glabros na maturidade. As flores, branco-amareladas e perfumadas, medem de 0,5 a 1,0 cm e reúnem-se em cachos axilares de até 6 cm que formam panículas de até 20 cm. O fruto é uma sâmara achatada, elíptica ou oblonga, membranácea e indeiscente, com 3 a 8 cm de comprimento e 18 a 22 mm de largura, contendo em geral uma semente, podendo abrigar até duas. As sementes são castanhas, lisas, reniformes, achatadas, pequenas e de tegumento delgado.
Uso e ecologia
Por reunir retratibilidade média, resistência mecânica de média a alta e, sobretudo, aparência singular e atraente, sua madeira é destinada à fabricação de móveis de luxo, lâminas faqueadas decorativas, revestimentos, peças torneadas, cabos de escovas e de cutelaria, marchetaria, entalhes, objetos de adorno, mesas de bilhar, carrocerias e à construção civil (caibros, forros, ripas, tabuados, tacos e vigamentos), além de instrumentos musicais e caixas de pianos. Também rende lenha e carvão de boa qualidade. Para celulose e papel, contudo, é considerada inadequada. A madeira contém óleo essencial de aroma muito agradável e é tradicionalmente empregada no artesanato. Conhecida comercialmente há mais de três séculos, é tida como a mais valiosa entre as madeiras nativas do Brasil, exportada desde o período colonial pelos portos baiano e fluminense, e na Europa recebe os nomes de palissandre ou rosewood; o cerne que origina a célebre madeira forma-se muito lentamente, sobretudo em árvores velhas. Fisicamente, é densa, com massa específica entre 0,75 e 1,22 g/cm³ (em geral de 0,80 a 1,00 g/cm³ a 15% de umidade); o alburno varia de branco a amarelado e bem demarcado, e o cerne costuma ser pardo-escuro arroxeado com listras pretas. De superfície lisa, textura fina e oleosa e grã de reta a irregular, exala cheiro suave e peculiar e tem sabor adocicado. É madeira muito durável e resistente a organismos xilófagos, porém de baixa permeabilidade a preservantes, mesmo sob pressão; trabalha-se com facilidade, bom acabamento e alto polimento natural, embora exemplares muito oleosos possam dificultar o polimento. Apesar do baixo rendimento na serragem, por rachar e fender com facilidade, seu valor — cerca de US$ 5 mil o metro cúbico serrado — compensa amplamente, e uma árvore adulta chega a produzir aproximadamente 2 m³ de madeira.
Classificada como secundária tardia, é uma espécie característica e exclusiva da Floresta Ombrófila Densa Submontana (Mata Atlântica), ocorrendo também na floresta pluvial de tabuleiro e, na região de Caratinguetá (SP), na transição entre a Floresta Estacional Semidecidual e a Floresta Ombrófila Densa. No sul da Bahia, sua melhor zona de ocorrência, aparece em densidade de cerca de 0,8 árvore por hectare, equivalente a um volume de 1,4 m³/ha. Em seu hábitat raramente é vista em regeneração natural, pois o coelho-do-mato (Sylvilagus brasiliensis) consome avidamente as plântulas dos gêneros Dalbergia e Machaerium, o que torna a espécie rara na fase inicial de vida. Consta da lista oficial da flora brasileira ameaçada de extinção, na categoria vulnerável, sendo apontadas como principais ameaças a exploração desordenada e a falta de plantios de reposição.
A floração ocorre de setembro a novembro em Minas Gerais, de outubro a novembro na Bahia, de outubro a maio no Espírito Santo e de novembro a janeiro em São Paulo. Os frutos amadurecem de maio a outubro no Espírito Santo, de agosto a janeiro em São Paulo, de setembro a dezembro em Minas Gerais e em dezembro na Bahia. No Espírito Santo, a espécie floresce e frutifica em intervalos de 2 a 3 anos, com produção de sementes variável de um ano para outro. Quando introduzida no centro-oeste do Paraná, a primeira frutificação aconteceu sete anos após o plantio, em outubro.
Planta hermafrodita, é polinizada principalmente por abelhas e por diversos pequenos insetos. A dispersão de frutos e sementes é anemocórica, feita pelo vento. No Espírito Santo, várias espécies de papagaio se alimentam dos frutos imaturos, comprometendo a produção de sementes.
Plantio e silvicultura
As sementes podem ser colhidas independentemente da cor, já que na mesma árvore há frutos em diferentes estágios de maturação. Após a coleta, os frutos são deixados em ambiente arejado para abrirem, permitindo a extração manual das sementes. Cada quilo reúne de 7.000 a 16.360 sementes, que não apresentam dormência, dispensando tratamentos para sua superação. Com 12% de umidade inicial, mantêm a viabilidade inalterada por 105 dias, tanto em sala quanto em câmara fria (10 ºC e 65% de UR), em embalagem semipermeável; armazenadas em pequenos tamboretes de papelão em câmara fria (3 ºC a 5 ºC e 92% de UR), germinaram 65% dois anos depois.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura e 7 cm de diâmetro, em tubetes grandes de polipropileno ou em sementeiras para posterior repicagem. Por causa da raiz pivotante, profunda, há quem indique a semeadura direta no campo e desaconselhe a repicagem, que pode provocar tortuosidade na região do colo e reduzir a sobrevivência; quando necessária, ela é feita de 3 a 5 semanas após o início da germinação. A germinação é faneroepígea, começa entre 6 e 66 dias após a semeadura e tem poder germinativo de 24% a 90%, ficando as mudas aptas ao plantio cerca de cinco meses depois. Em viveiro, recomenda-se sombreamento de até 30%, que favorece o crescimento em altura sem prejudicar a fotossíntese. A espécie associa-se a Rhizobium, formando nódulos globosos com atividade da nitrogenase, e a falta de inoculação com estirpe adequada tem sido apontada como causa de insucesso na produção de mudas; a inoculação com o fungo micorrízico arbuscular Glomus mosseae mostrou-se eficaz para o desenvolvimento, com ou sem bactérias fixadoras de nitrogênio. A propagação vegetativa por estaquia oferece bons resultados, havendo também recomendações de microestacas e técnicas de enraizamento in vitro.
Espécie semi-heliófila, tolera sombreamento de leve a moderado na fase juvenil, mas não suporta baixas temperaturas. Em plantios, exibe grande variação de forma: em um povoamento de 57 meses, apenas 7% das árvores tinham boa forma de fuste, 35% forma regular e 58% forma inadequada. A qualidade do fuste pode ser aprimorada com práticas como espaçamentos mais estreitos, podas de formação e desramas, iniciadas já no primeiro ano para reduzir bifurcações. Testes em Manaus (AM) mostraram que maior densidade de plantas favorece fustes mais retilíneos e melhor desrama natural, com destaque para os espaçamentos 2 x 2 m e 3 x 2 m, ainda que se mantenha a necessidade de poda de formação. Deve-se evitar o plantio puro a pleno sol, que gera muito esgalhamento, troncos curtos e maior suscetibilidade à broca-do-tronco, com alta mortalidade. Recomenda-se o plantio misto a pleno sol, associado a espécies pioneiras de crescimento mais rápido que mantenham baixa a ramificação — caso bem-sucedido da consorciação com sabiá (Mimosa caesalpiniifolia) na Zona da Mata de Pernambuco. Na Amazônia, indica-se a abertura de faixas de 3 m de largura, espaçadas 10 m entre as linhas de plantio, preservando faixas de capoeira de 7 m. A planta rebrota após o corte ou após danos por geada. É recomendada ainda para arborização de pastos e de culturas, como a sombra de cacauais no sul da Bahia.
O crescimento é de moderado a rápido e, curiosamente, mostra-se superior fora da área natural de ocorrência (Amazonas e Paraná) em comparação à região de origem (Espírito Santo). A rotação para a obtenção de madeira de dimensão comercial é estimada em 40 anos no Espírito Santo, com produção esperada de 100 a 150 m³/ha.
Na área de ocorrência natural, a precipitação anual média varia de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 2.100 mm, na Bahia, chegando a 2.500 mm em Manaus (AM), onde foi introduzida. As chuvas distribuem-se de modo uniforme no sul da Bahia e concentram-se no verão no norte do Espírito Santo, região em que ocorre déficit hídrico moderado por 2 a 4 meses; no sul baiano não há estação seca definida. A temperatura média anual oscila entre 19,4 ºC (Viçosa, MG) e 24,3 ºC (Ilhéus, BA), atingindo até 26 ºC na Amazônia, com mínima absoluta registrada de 4,2 ºC (Caratinga, MG); geadas são ausentes ou raras nas partes mais altas de Minas Gerais. Os tipos climáticos (Köppen) abrangem clima tropical (Af, Am, Aw), semiárido de transição (Am/BSh) e subtropical de altitude (Cwa, Cwb), tendo sido introduzida com êxito em clima tropical (Afi, Ami) na Amazônia e subtropical úmido (Cfa) no Paraná.
Desenvolve-se naturalmente em solos de baixa fertilidade química, como os de tabuleiro, com pH acima de 5,2. No sul da Bahia, em 89% dos casos, ocupa terrenos ondulados e montanhosos, nos topos e encostas de elevações onde predominam solos argilosos e argilo-arenosos, profundos e bem drenados, mostrando-se muito resistente à deficiência de umidade. Nos solos mais férteis, onde a floresta é mais densa, há menos árvores e fustes mais finos. Pouco exigente em fósforo, prefere solos com baixo teor de alumínio. Foi implantada com sucesso na Amazônia, em Latossolo Amarelo distrófico de textura argilosa a muito argilosa, e no Paraná, em Latossolo Vermelho distroférrico argiloso.