Foto: João de Deus Medeiros (CC BY 2.0) via flickr
Ipê-roxo
Tabebuia heptaphylla
- 8 a 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: cabroé, graraíba, ipê, ipê-cabroé, ipê-de-flor-roxa, ipê-piranga, ipê-preto, ipê-rosa, ipê-roxo-anão, ipê-uva, pau-d'arco, pau-d'arco-rosa, pau-d'arco-roxo, peúva, piúva
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie está posicionada na divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Scrophulariales e família Bignoniaceae. O nome aceito é Tabebuia heptaphylla (Vellozo) Toledo. Entre os sinônimos botânicos registrados estão Tabebuia avellanedae var. paulensis Toledo, Tabebuia ipe (Martius ex K. Schumann) Standley, Tecoma heptaphylla (Vellozo) Toledo e Tecoma ipe Martius ex K. Schumann. O termo Tabebuia tem origem indígena, designando a árvore Tabebuia uliginosa, enquanto o epíteto heptaphylla faz referência ao número de folíolos, em geral sete.
Árvore caducifólia que costuma medir de 8 a 20 m de altura, com DAP entre 30 e 60 cm, mas pode chegar a 35 m de altura e 150 cm de DAP; no Nordeste, porém, não passa de cerca de 11 m. O tronco é cilíndrico, de reto a levemente tortuoso, com fuste de até 18 m (registrou-se em Foz do Iguaçu, PR, um exemplar de 46 m de altura e 220 cm de DAP). A ramificação é cimosa, tortuosa a irregular, formando uma copa larga, porém rala e pouco enfolhada, de coloração verde-escura. A casca chega a 40 mm de espessura: a parte externa é grisácea a pardo-escura, rugosa, sulcada por fissuras longitudinais profundas e espaçadas que delimitam arestas largas; a interna é amarelada com tons róseos, repleta de fibras lamelares fortes e bem definidas. As folhas são opostas, compostas e digitadas, com 5 a 7 folíolos obovados, serreados e glabros, medindo de 3 a 10 cm de comprimento por 2 a 6 cm de largura. As flores, de tonalidade que vai do roxo ao rosa e com 5 a 8 cm de comprimento, surgem antes da folhagem e se agrupam em tirsos curtos e terminais com muitas flores. O fruto é uma cápsula linear de 20 a 35 cm de comprimento por 1,5 cm de largura, que passa de bege a quase preta após liberar as sementes e abriga até 192 delas. Cada semente é alada, com até 20 mm de comprimento e 7 mm de largura, corpo castanho e duas asas membranáceas esbranquiçadas, de aspecto mais ou menos brilhante.
Uso e ecologia
A madeira do ipê-roxo é densa (0,90 a 1,07 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno branco-amarelado a creme e cerne que varia do amarelo-escuro ao marrom-oliva, podendo chegar ao castanho-esverdeado. Tem textura fina, grã oblíqua a entrelaçada e aparência suave, além de alta durabilidade natural e resistência ao ataque de cupins; em compensação, é difícil de trabalhar. Por ser bastante maleável e resistente, alcança bom valor no mercado nacional. Serrada ou em forma roliça, é empregada em construção civil e naval, carpintaria, marcenaria e na fabricação de tacos de assoalho e de bilhar, pontes, parquetes, vigas, postes, dormentes e mourões. Também fornece lenha de boa qualidade e serve à produção de carvão, embora não seja adequada para celulose e papel (comprimento de fibra entre 0,60 e 1,14 mm). Da casca extraem-se ácidos tânico e lapáchico e sais alcalinos, além de um corante usado para tingir algodão e seda. A forragem contém 21% de proteína bruta e 8,8% de tanino.
Trata-se de uma espécie secundária tardia, comum em vegetação secundária como capoeiras e capoeirões, e bastante longeva — pode alcançar até 800 anos. Ocupa diversas regiões fitoecológicas: a Floresta Estacional Semidecidual, em formações submontanas, onde é frequente; a Floresta Estacional Decidual, na bacia do Rio Uruguai, em formações montana e baixo-montana; a Floresta Ombrófila Mista (com araucária), onde aparece de forma esparsa; a Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica); a Caatinga arbórea, no norte de Minas Gerais; e a Savana Estépica ou Chaco sul-mato-grossense, em trechos secos por vezes sujeitos a inundação. Foi observada ainda em áreas erodidas de calcário bambuí, no sudoeste da Bahia. Fora do país, ocupa a Selva Tucumano-Boliviana e a Selva Misioneira.
A floração ocorre de janeiro a julho em Santa Catarina, em fevereiro na Bahia, de abril a setembro no Paraná, de junho a setembro no Rio de Janeiro e em São Paulo, de julho a setembro em Mato Grosso do Sul, em agosto no Espírito Santo e em Mato Grosso, e em setembro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de julho a agosto no Paraná, de julho a novembro em São Paulo, em setembro em Mato Grosso do Sul, em outubro no Rio de Janeiro, de outubro a novembro no Espírito Santo e de novembro a dezembro no Rio Grande do Sul. Em plantios, a reprodução começa entre os 4 e os 7 anos de idade.
Planta hermafrodita e autoincompatível, depende de polinizadores para frutificar, tendo na abelha-mamangava (Bombus morio) seu principal agente de polinização. A dispersão das sementes é anemocórica, realizada pelo vento.
Plantio e silvicultura
A maturidade fisiológica das sementes acontece por volta de cem dias após o florescimento, quando atingem teor de umidade próximo a 24,85%. A colheita deve ser feita diretamente na árvore, no momento em que os frutos passam do verde para uma tonalidade quase preta e antes que liberem as sementes, que podem ser extraídas manualmente. Cada quilo reúne de 13.500 a 35.000 sementes, que não exigem tratamento para quebra de dormência por não apresentarem esse comportamento. Quanto ao armazenamento, as sementes são consideradas ortodoxas e podem ser guardadas a -20 ºC desde que o grau de umidade fique abaixo de 10%; ainda assim, Eibl e colaboradores as classificam como recalcitrantes. Sementes mantidas em sala perdem totalmente a capacidade de germinar em 60 dias, mas conservam a viabilidade por até 15 meses em câmara fria/seca (12 ºC e 50% de UR) ou em câmara seca (12 ºC e 50% de UR), com queda acentuada em câmara fria (5 ºC e 90% de UR) já no sétimo mês e em laboratório (28 ºC e 50% de UR) no quinto mês.
Recomenda-se semear em sementeira e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio; a repicagem é feita de 2 a 3 semanas após a germinação. A germinação é epígea e começa entre 7 e 30 dias após a semeadura, com poder germinativo bastante variável — em média 40%, podendo chegar a 80%. As mudas atingem o porte ideal para plantio cerca de 8 meses após a semeadura. Como a espécie desenvolve uma raiz principal vigorosa, é preciso atenção: mudas com enovelamento de raízes saem fora do padrão e tendem a comprometer a sobrevivência dos plantios.
O ipê-roxo é semi-heliófilo, suportando sombreamento de intensidade média quando jovem, e tem tolerância mediana às baixas temperaturas. Seu hábito é irregular, sem dominância apical bem definida, com bifurcações em várias alturas e próximas entre si; como a desrama natural é deficiente, exige podas frequentes de condução e de galhos para ganhar altura comercial. Pode ser conduzido a pleno sol em plantio puro, desenvolvendo-se bem em solos férteis embora com forma inadequada; em plantio misto, associado a pioneiras e secundárias, melhora a forma do fuste; e ainda em vegetação matricial arbórea, em faixas na vegetação secundária e em linhas. A espécie rebrota da touça após o corte. No Paraná, consta da lista de plantas ameaçadas de extinção, na categoria rara.
O crescimento é lento a moderado. Em plantios, a produção volumétrica máxima registrada foi de 6,60 m³/ha/ano, com fator de forma de 0,80.
A precipitação média anual em que a espécie ocorre vai de 850 mm, em Minas Gerais, a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto o norte do Paraná), no litoral paulista e em parte do litoral fluminense, e periódicas, concentradas no verão, nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula no Sul; moderada no inverno no oeste de São Paulo, norte e noroeste do Paraná, sul de Mato Grosso do Sul, leste de Minas Gerais, nordeste do Espírito Santo e faixa litorânea interior da Bahia; e de moderada a forte no inverno no centro de Mato Grosso. A temperatura média anual oscila entre 18,7 ºC (Chapecó, SC) e 25,6 ºC (Cuiabá, MT); a do mês mais frio fica entre 13,9 ºC (Chapecó, SC) e 22,1 ºC (Ilhéus, BA), e a do mês mais quente entre 22 ºC (Sete Barras, SP) e 27,4 ºC (Cuiabá, MT). A mínima absoluta chegou a -5,3 ºC (Guaíra, PR). O número de geadas varia de 0 a 10 por ano, com máximo absoluto de 23 na Região Sul. Os tipos climáticos de Koeppen abrangidos são o tropical (Af, Am e Aw), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o subtropical úmido (Cfa).
Na natureza, a espécie cresce em diversos tipos de solo, em relevos planos a pouco ondulados. Em plantios experimentais, apresentou melhor desempenho em solos de fertilidade química média a alta e boas propriedades físicas — profundos, bem drenados e de textura franca a argilosa.