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Foto de Ipê-felpudo

Foto: Victor Hugo B. Galvão (CC BY) via GBIF

Ipê-felpudo

Zeyheria tuberculosa

Bignoniaceae Mata AtlânticaCerradoCaatinga
  • 6 a 20 mAltura
  • Grande portePorte
Raras / ameaçadasMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: bolsa-de-pastor, bordão-de-velho, pau-d'arco, bucho, bucho-de-boi, bucho-de-carneiro, camaruçu, carvoeiro, chá-de-frade, cinco-folhas, ipê-branco, velame-do-mato, culhões-de-bode, ipê-bóia, ipê-cabeludo, ipê-cascudo, ipê-combuca, ipê-cumbuca, ipê-preto, marfim, ipê-tabaco, ipeúna, mandioquinha, saco-de-carneiro, velame, velaminho-do-mato, veludinho, verga-de-anta

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Scrophulariales e família Bignoniaceae. Seu nome científico é Zeyheria tuberculosa (Vellozo) Bureau, publicado em 1893. Já foi descrita sob outros nomes, hoje considerados sinônimos: Bignonia tuberculosa Vellozo e Zeyhera tuberculata Bureau. O gênero Zeyheria homenageia o botânico alemão J. M. Zeyher.

Descrição botânica

Árvore semicaducifólia que normalmente mede de 6 a 20 m de altura e apresenta DAP de 30 a 50 cm, mas pode alcançar, no auge da maturidade, até 35 m e 90 cm de DAP. O tronco é reto e cilíndrico, com fuste que ocupa mais de dois terços da altura total. A ramificação parte de um padrão monopodial na juventude para dicotômico na fase adulta; a copa, colunar quando jovem, torna-se cônica a globosa com a idade, e os ramos exibem tricomas estrelados de cor marrom-escura. A casca chega a 5 cm de espessura: a externa varia de cinza-clara a pardo-amarelada, é profundamente sulcada e fissurada, com longas cristas longitudinais, enquanto a interna é cinza-amarelada e escurece em contato com o ar. As folhas são opostas e cruzadas, atingindo de 50 a 90 cm de comprimento no exemplar jovem e de 30 a 40 cm na fase adulta, compostas por cinco folíolos cartáceos, elípticos a obovais, de 6 a 12,7 cm de comprimento por 2,8 a 3,9 cm de largura, felpudos e pilosos; o pecíolo é longo (até 30 cm) e os peciólulos medem de 1,6 a 3,2 cm, com base truncada ou cordada e lâmina discolor — face inferior acinzentada, estrelado-tomentosa e lisa, e face superior verde-oliva escura e rugosa. As flores, de 0,8 a 1,5 cm, são amarelas a creme com manchas vermelhas e se agrupam em inflorescência do tipo tirso terminal de até 30 cm. O fruto é uma cápsula orbicular, lenhosa e deiscente, de 13 a 20 cm de comprimento por 9 a 15 cm de largura, achatada, externamente muricada e recoberta por densa pelagem de até 1 cm; cada cápsula guarda de 56 a 150 sementes e lembra uma bolsa de pastor ou um bucho de boi, o que explica vários de seus nomes populares. As sementes são aladas e achatadas, com 4 a 6,2 cm de diâmetro, envoltas por uma asa celulósica fina e com núcleo cordiforme, branco-amarelado e felpudo.

Uso e ecologia
madeireiroenergéticopaisagismorecuperação de áreasapícolaartesanatoforrageiro
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa (0,75 a 0,80 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno espesso e claro e cerne amarelo-escuro, por vezes com reflexos esverdeados, que escurece para castanho-amarelado ao ser exposto ao ar. Tem superfície irregular, lustrosa e lisa ao tato, às vezes de aspecto fibroso, textura média e grã direita, cheiro imperceptível e leve gosto amargo; destaca-se pela elevada durabilidade natural e pela flexibilidade. É o autêntico ipê-tabaco, apelido dado pelos serradores porque o pó da serragem provoca crises de espirros semelhantes às causadas pelo rapé. A madeira serrada e roliça serve à construção civil (estruturas de casas e telhados, pisos, paredes de tábuas), a obras externas como pontes, a tacos de assoalho e a usos rurais (cercas, mourões, postes, currais, paióis, cabos de ferramentas e instrumentos agrícolas), além de dormentes, sendo bastante empregada em pequenas propriedades. Por seu alto poder calorífico, presta-se muito bem a lenha e carvão, embora seja inadequada para celulose e papel. Da casca extrai-se saponina; as flores são melíferas; as folhas de árvores jovens servem de forragem para o gado na seca; e do fruto se confeccionam peças de artesanato, sobretudo cinzeiros.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie secundária, que vai da inicial à tardia na sucessão. O ipê-felpudo desponta nas primeiras fases da regeneração secundária, comportando-se como invasor de pastagens e colonizador de áreas degradadas ou abandonadas, e chega a regenerar naturalmente no sub-bosque de plantios de Pinus sp. após passagem do fogo; suas árvores são longevas. Ocorre na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), na Floresta Estacional Semidecidual de formação submontana e no Cerradão; no Ceará, ocupa o Planalto da Ibiapaba, integrando a vegetação higrófila da floresta pluvial de altitude. Em levantamento fitossociológico em São Paulo, registrou-se densidade de apenas um indivíduo por hectare.

Floração e frutificação

A floração acontece de outubro a fevereiro em São Paulo; de novembro a fevereiro em Minas Gerais; de dezembro a janeiro no Rio de Janeiro; em fevereiro na Bahia, no Espírito Santo e no Piauí; em abril no Maranhão; em junho no Ceará; e em julho em Pernambuco. Os frutos amadurecem de maio a julho no Paraná; de maio a outubro em São Paulo; de agosto a novembro em Minas Gerais; e em outubro no Rio de Janeiro. Em plantio, a reprodução começa por volta dos 3 anos de idade. A espécie exibe grande variação fenológica, sobretudo na queda das folhas.

Fauna associada

Planta hermafrodita, possivelmente polinizada por abelhas. A dispersão de frutos e sementes é anemocórica (pelo vento), e em ventanias fortes as sementes aladas podem ser levadas a mais de 100 m de distância.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos quando começam a mudar para a cor marrom ou quando parte deles inicia a deiscência. Depois de coletados, espalha-se os frutos em bandejas para secar à sombra e, em seguida, expõe-se ao sol por cerca de 3 dias até abrirem; as sementes aladas podem então ser retiradas à mão. Em Viçosa (MG), constatou-se que são necessários, em média, 32 kg de frutos para obter 1 kg de sementes. Cada quilo reúne de 10 mil a 15 mil sementes, que não apresentam dormência, dispensando qualquer tratamento de superação. O comportamento de armazenamento é ortodoxo: mantidas em câmara fria e seca (18 ºC e 60% de UR), conservam a viabilidade inicial por 18 meses; a partir daí a germinação cai de cerca de 90% para 30%, podendo chegar a 12% após 2 anos.

Produção de mudas

Recomenda-se semear uma única semente por recipiente, em saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 10 cm de diâmetro ou em tubete grande de polipropileno. Quando preciso, a repicagem é feita 1 a 2 semanas após a germinação ou quando as mudas atingem 4 a 6 cm. O sistema radicial é pivotante e profundo. A germinação é epígea e começa entre 7 e 67 dias após a semeadura, com poder germinativo variável, de até 90%; as mudas ficam prontas para o plantio cerca de 4 meses depois de semeadas. A espécie também se propaga com facilidade por estacas de ramos ou de raízes.

Características silviculturais

Espécie heliófila, mas com notável plasticidade fenotípica em relação à luz na fase de viveiro: adapta-se desde pleno sol até 82% de sombreamento, ainda que um nível de até 42% de sombra seja o mais favorável, confirmando sua tendência heliófila no estágio juvenil. Não tolera temperaturas baixas. Tem crescimento marcadamente monopodial, sobretudo quando jovem, fase em que as próprias folhas fazem as vezes de copa, sem emissão de ramos laterais; a arquitetura da copa permite empregá-la em diferentes sistemas de plantio. A desrama natural é boa, formando fustes retilíneos com mais de dois terços da altura total mesmo a pleno sol. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro — com espaçamento sugerido de 2 x 2 m — ou em plantio misto, sombreando espécies clímax ou servindo de tutora a espécies secundárias; rebrota da touça após corte em diferentes idades, o que indica aptidão para manejo em talhadia. É indicada para sistemas agroflorestais, tanto silviagrícolas (arborização de culturas) quanto silvipastoris (arborização de pastagens), e tende a formar colônias puras naturais em áreas de pasto. A espécie apresenta variabilidade de altura e de forma das folhas, com diferenças expressivas de crescimento entre procedências nos plantios da Embrapa Florestas — as subpopulações Grota Funda e Lagoa Santa, ambas mineiras, se destacaram, sendo o crescimento volumétrico de Grota Funda 77,8% superior ao da subpopulação Pagão (MG) no oitavo ano. Está na lista de plantas ameaçadas de extinção do Paraná, na categoria rara, e em São Paulo integra programas de conservação in situ e ex situ.

Crescimento e produção

O ritmo de crescimento vai de moderado a rápido, chegando a 24 m³/ha/ano. Estima-se rotação de 5 a 10 anos para fins energéticos e de 15 a 20 anos para madeira; no Espírito Santo, a rotação para madeira comercial é calculada em 40 anos. Em Ilha Solteira (SP), exemplares plantados apresentaram, aos 12 meses, alturas entre 0,40 e 3,35 m.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 850 mm, na Bahia, a 1.700 mm, no Rio de Janeiro, com chuvas ora uniformemente distribuídas (sudoeste paulista), ora concentradas no verão ou no inverno. A deficiência hídrica é nula na Serra da Cantareira (SP); de pequena a moderada no inverno em parte de São Paulo, no sul de Minas Gerais, no sudoeste do Espírito Santo e no sul de Goiás; moderada no inverno no oeste paulista, no noroeste do Paraná e no sul do Mato Grosso do Sul; de moderada a forte na Bahia, no noroeste do Ceará e no Maranhão; e forte no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila entre 17,7 ºC (Teresópolis, RJ) e 24,2 ºC (Vitória, ES); a média do mês mais frio fica entre 13,7 ºC e 21,7 ºC, e a do mês mais quente entre 20,0 ºC (Diamantina, MG) e 26,9 ºC (Vitória, ES), com mínima absoluta de -2,0 ºC em Assis (SP). As geadas chegam ao máximo absoluto de cinco por ano no extremo sul da distribuição, sendo no geral raras ou inexistentes. Pela classificação de Köppen, prevalecem os tipos tropical (Am e Aw), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e subtropical úmido (Cfa, no noroeste do Paraná).

Solos

Cresce naturalmente até em afloramentos rochosos e em solos lateríticos rasos de baixa fertilidade química, revelando-se pouco exigente quanto à nutrição, com pequena resposta à adubação. No Paraná, em plantios experimentais, desenvolveu-se melhor em solos férteis, profundos, bem drenados e de textura franca a argilosa; já no Espírito Santo teve desempenho satisfatório mesmo em solo de baixa fertilidade e textura franco-arenosa.