Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Ingá-feijão
Inga marginata
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: ingá-feijão, ingá-bainha, ingá-chinelo, ingá-facão, ingá, ingá-mirim, ingaí, angazeiro, ingá-miúdo, ingá-peludo, ingá-dedo, ingazinho, ingá-amarela, ingazeiro
Botânica
Pelo Sistema de Classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotyledonae), ordem Fabales, família Mimosaceae (das Leguminosae, subfamília Mimosoideae) e gênero Inga. O binômio aceito é Inga marginata Willdenow, descrito em 1805. Entre os sinônimos botânicos estão Mimosa semialata Vell., Inga semialata (Vell.) Mart. e Inga pycnostachya Benth. O nome do gênero deriva de ingá, designação indígena da planta, enquanto o epíteto marginata faz alusão à margem delgada da vagem (ou, segundo outros autores, à ala estreita ao longo do eixo das folhas). No tupi-guarani, a espécie recebe o nome ingaí, que significa "fruto-da-água".
Árvore ou arvoreta perenifólia que, na fase adulta, costuma alcançar cerca de 20 m de altura e 50 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo); no Equador, há registros de exemplares com até 30 m. O tronco é reto ou levemente tortuoso, com fuste curto, e a ramificação cimosa ou dicotômica se apresenta irregular e quase horizontal. A copa é ampla e arredondada, densamente foliada, de cor verde-escura intensa e ramos glabros. A casca chega a 6 mm de espessura, com superfície externa lisa a áspera, marrom-escura e provida de numerosas lenticelas dispostas de modo ordenado; quando raspada revela tom pardo, e a casca interna é fibrosa e rósea. As folhas são compostas, alternas, paripinadas e glabras, com 10 a 30 cm de comprimento e ráquis nua ou estreitamente alada, apresentando uma glândula entre cada par de folíolos. Os folíolos, em geral de 1 a 3 pares, são sésseis, elípticos ou lanceolados, peninérveos, caudados no ápice e membranáceos, medindo de 3 a 12 cm de comprimento por 1 a 4 cm de largura, de limbo verde-escuro e brilhante; os folíolos terminais são sempre maiores e assimétricos. As inflorescências surgem em espigas axilares vistosas, de 1 a 2 por axila, com 4 a 15 cm de comprimento. As flores são numerosas, brancas, vistosas e muito perfumadas, de odor agradável e característico, subsésseis e glabras ou levemente pubescentes. O fruto é um legume indeiscente, túrgido, séssil, cilíndrico-comprimido e glabro, de margens espessas, medindo de 5 a 15 cm de comprimento por 1 a 1,5 cm de largura; quando maduro fica verde-amarelado e contém até dez sementes envoltas por uma sarcotesta branca de polpa comestível. As sementes lembram grãos de feijão, têm cor castanho-esverdeada e formato de losango, com 0,9 a 1,2 cm de comprimento por 0,6 a 0,8 cm de largura.
Uso e ecologia
A madeira é leve (densidade aparente de 0,40 a 0,50 g/cm³), com alburno e cerne esbranquiçados e pouco distintos entre si, textura média, grã direita, medianamente resistente e moderadamente durável quando abrigada das intempéries. É aproveitada em obras internas, carpintaria e caixotaria, embora a ramificação acentuada do tronco dificulte a produção de tábuas. Também fornece lenha de boa qualidade e carvão, e presta-se à fabricação de celulose e papel. A casca contém de 10% a 15% de tanino, e a forragem reúne de 20% a 22% de proteína bruta e de 2,9% a 5,8% de tanino. Os frutos são comestíveis, refrescantes e de sabor agradável, com a polpa em torno das sementes muito apreciada pelas crianças. Na medicina popular, o fruto é empregado contra úlceras vaginais, e o decocto da casca atua como adstringente e hemostático.
Trata-se de espécie pioneira, secundária inicial ou clímax exigente em luz. É abundante às margens de rios e frequente em formações secundárias, como capoeiras e capoeirões, sendo comum em florestas semidevastadas e bastante rara na mata primária; em solos úmidos das matas e na orla florestal pode tornar-se muito frequente. No bioma Mata Atlântica habita a Floresta Estacional Decidual (formações Baixo-Montana e Montana, no Rio Grande do Sul, com até oito indivíduos por hectare), a Floresta Estacional Semidecidual (formações Aluvial, Submontana e Montana, em Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com 2 a 41 indivíduos por hectare), a Floresta Ombrófila Densa (no litoral e interior de São Paulo) e a Floresta Ombrófila Mista (formação Aluvial do Paraná, onde é rara). Na Amazônia aparece na Floresta Ombrófila Densa de Terra Firme (Amapá) e de Várzea (Amazonas). No Cerrado, ocorre no cerrado lato sensu do Amapá e no cerradão de Minas Gerais. Está ainda presente em ambientes ripários (Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, com 8 a 13 indivíduos por hectare), brejos de altitude do Nordeste, encraves vegetacionais e várzeas litorâneas do Ceará.
A floração ocorre em agosto em São Paulo, de agosto a fevereiro no Paraná e de outubro a fevereiro no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Os frutos amadurecem de março a maio no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e de março a junho no Paraná.
A espécie é monóica e tem como principais polinizadores abelhas, mariposas e beija-flores. A dispersão de frutos e sementes é feita por animais (zoocoria), com destaque para morcegos, sobretudo Artibeus lituratus, e para o macaco-bugio (Alouatta guariba), além de aves; há também dispersão pela água (hidrocoria). É apontada como grande produtora de néctar e pólen, o que a torna muito visitada pelas abelhas, com bom potencial apícola.
Plantio e silvicultura
As vagens devem ser colhidas diretamente da árvore quando começam a cair naturalmente, ou recolhidas do chão logo após a queda, sendo abertas à mão para retirar as sementes envoltas pelo arilo. Cada quilo reúne de 680 a 3.100 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Por terem comportamento recalcitrante, não toleram armazenamento prolongado e devem ser semeadas logo após a coleta.
Recomenda-se a semeadura direta em sacos de polietileno ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio, com repicagem cuidadosa para não danificar o sistema radicial. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com emergência entre 10 e 30 dias após a semeadura e poder germinativo elevado, em torno de 80%. A espécie forma simbiose com Rhizobium, originando nódulos globosos de baixa atividade da nitrogenase. Para melhor desenvolvimento das plântulas, sugere-se aplicar 5 mg de nitrogênio ((NH4)2SO4) e 20 mg de fósforo por quilo de substrato. No viveiro, prefere meia-sombra, devendo-se evitar a exposição ao sol direto nas horas mais quentes, com uso de esteiras ou cultivo sob a sombra de árvores.
Espécie heliófila ou esciófila, medianamente tolerante a geadas na fase jovem, apresenta tronco de ramificação acentuada e capacidade de regenerar-se por brotação de toco e de raízes. É bastante usada em sistemas agroflorestais para sombreamento e pelos frutos, servindo às vezes como sombra de café graças à folhagem densa. Na Bolívia, é indicada para cortinas de uma só fileira e para a bordadura de quebra-ventos de três ou mais fileiras. Deve ser plantada com espaçamento de 3 a 5 m entre as árvores.
O crescimento é lento. Aos 8 anos de idade, a espécie registrou incremento médio anual em volume de 1,85 m³/ha/ano.
A precipitação anual média varia de 950 mm, em Minas Gerais, a 3.000 mm, no Pará. As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná) e periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula no Sul, de pequena a moderada na faixa litorânea da Paraíba e na região Norte, e moderada a forte no inverno do oeste de Minas Gerais e do centro de Mato Grosso. A temperatura média anual oscila entre 15,5 ºC (Caçador, SC) e 26,7 ºC (Itaituba, PA, e Manaus, AM), com mínima absoluta de -10,4 ºC em Caçador (chegando a -15 ºC na relva). O número de geadas vai de 0 a 30 em média, podendo atingir 57 no Sul. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af, Am, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb, conforme a região.
Cresce naturalmente em diversos tipos de solo, de textura leve a pesada, tolerando solos ácidos e mal drenados.