Foto: Rosalinda Melendrez (CC BY) via GBIF
Ingá-cipó
Inga edulis
- até 28 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: ingá-de-metro, ingá, ingá-doce, ingá-timbó, ingá-verdadeiro, ingá-rabo-de-macaco, ingá-macarrão, ingá-banana, ingá-rabo-de-mico, ingá-da-praia, ingá-de-quatro-quinas, ingazeira
Botânica
Pelo sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Eurosídeas I, ordem Fabales, família Fabaceae (Leguminosae na classificação de Cronquist), subfamília Mimosoideae, tribo Ingeae, seção Inga e gênero Inga. O binômio aceito é Inga edulis Martius, descrito originalmente em 1837 (Flora 20). Mimosa ynga Vell. figura como sinônimo botânico. O nome do gênero, Inga, vem da designação indígena da planta, enquanto o epíteto edulis quer dizer comestível, em referência à polpa adocicada que envolve as sementes. A palavra ingá tem origem tupi-guarani, de ib (fruto) e cá (caroço), ou pode derivar de y-igá, que significa algo úmido ou embebido, aludindo à polpa que cobre a semente. Fora do Brasil é conhecida como guamo (Colômbia), guaba mansa (Equador), pois sucre (Guiana Francesa) e guaba, guabo ou guava (Peru).
Árvore perenifólia, de folhagem sempre verde. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 28 m de altura e 90 cm de DAP na fase adulta, embora o mais comum seja encontrar indivíduos entre 5 m e 10 m. O tronco costuma ser tortuoso e bastante esgalhado, com fuste curto ou praticamente ausente. A ramificação é dicotômica e a copa, densa, achatada e bem aberta; os ramos terminais são angulares, semicilíndricos, lenticelados e cobertos por pelos de tom ferrugíneo. A casca tem cerca de 10 mm de espessura, sendo a parte externa acinzentada, lisa e com poucas fissuras. As folhas são compostas, alternas e paripinadas, de 22 a 29 cm de comprimento por 16 a 25 cm de largura, com 4 a 6 pares de folíolos cartáceos e discolores, oblongo-lanceolados (3,8 a 19 cm de comprimento por 1,9 a 8,9 cm de largura), de margem inteira e ápice variável (agudo, obtuso, cuspidado ou atenuado) e base arredondada, truncada ou assimétrica; a venação vai de eucampdódroma a broquidódroma, com 6 a 20 pares de nervuras secundárias. Há um nectário foliar reniforme, séssil e achatado na inserção dos folíolos, de 1 a 3 mm de diâmetro. As estípulas, de 2 a 6 mm, são oblongas ou lanceoladas e caducas; o pecíolo é cilíndrico, não alado, pubescente e ferrugíneo, com 2 a 5 cm de comprimento. As inflorescências são espiciformes, condensadas no ápice, isoladas ou agrupadas em fascículos, de 4 a 13 cm. As flores são hermafroditas, perfumadas e sésseis, com corola tubular ou infundibuliforme de coloração dourado-serícea e 0,9 a 1,9 cm de comprimento. O fruto é um folículo notavelmente longo, de 30 cm a 200 cm de comprimento por 2 a 5 cm de largura, reto, curvo ou torcido, profundamente sulcado, coriáceo e levemente tomentoso, variando de verde a castanho quando maduro. As sementes são elipsoides, lisas e glabras (2 a 3 cm por 1 a 1,5 cm), envoltas por um arilo branco, macio, fibroso e de sabor adocicado.
Uso e ecologia
A polpa branca e adocicada que recobre as sementes é comestível e muito apreciada nas várias regiões onde a espécie ocorre, valorizada pela maciez e doçura. A planta tem grande potencial melífero, fornecendo néctar e pólen. Na medicina popular, o xarope feito da polpa é usado contra bronquite, e a casca, no tratamento de feridas e diarreia (esses registros têm caráter informativo e não substituem orientação médica). No Acre, a casca também é empregada no curtimento de couro. A madeira apresenta massa específica aparente de 0,71 a 0,75 g/cm³, com cerne pouco diferenciado do alburno, opaco e sem brilho. Não é recomendada para uso comercial, sendo aproveitada eventualmente em obras internas, caixotaria e fabricação de cangalhas, mas serve bem para celulose e papel e tem excelente desempenho como lenha e carvão.
Trata-se de uma espécie pioneira a secundária inicial, com ciclo de vida inferior a 20 anos. É típica de sub-bosque e frequente na vegetação secundária: em uma mata do sul da Bahia, 11 anos depois da remoção dos cacaueiros, registraram-se 81 indivíduos por hectare, com altura média de 6,27 m e DAP de 4,2 cm. Também foi observada regenerando-se em fragmento de Floresta Estacional Semidecidual Montana, em Viçosa (MG). No bioma Amazônia aparece em Floresta Ombrófila Aberta (Rondônia) e em Floresta Ombrófila Densa, de várzea ou de terra firme, no Amapá e no Pará, com frequência de até 11 indivíduos por hectare. Na Mata Atlântica, ocupa a Floresta Estacional Semidecidual em Minas Gerais e a Floresta Ombrófila Densa em formações de terras baixas, submontana e montana no Ceará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina, com até 16 indivíduos por hectare. Ocorre ainda em matas ciliares (Pará e Sergipe), brejos de altitude do Nordeste (Pernambuco), caxetais do litoral paranaense, manchas de cerrado em meio à mata semicaducifólia amazônica (Rondônia), paratudais no Mato Grosso do Sul e restingas em São Paulo.
A floração varia conforme a região: de setembro a dezembro no Amazonas, de outubro a dezembro em Pernambuco, de novembro a abril em São Paulo, de janeiro a março no Rio de Janeiro e de janeiro a maio no Acre. A frutificação é assincrônica dentro de cada população, o que permite a presença de frutos durante quase todo o ano. Frutos maduros são encontrados de outubro a novembro no Rio de Janeiro, de dezembro a janeiro no Paraná, de dezembro a março em Pernambuco e de maio a dezembro no Acre. Em cultivo, os indivíduos começam a frutificar antes de completar 2 anos.
A polinização provavelmente se dá por melitofilia, com abelhas e vespas atraídas pela forma, cor e aroma das flores. A dispersão dos frutos e sementes ocorre por zoocoria, sobretudo por aves, mamíferos e peixes, além de hidrocoria, pelo transporte das águas.
Plantio e silvicultura
As vagens devem ser colhidas diretamente da árvore quando começam a cair, ou recolhidas do chão, e em seguida abertas à mão para retirar as sementes envoltas pelo arilo. Cada quilo reúne de 565 a 1.250 sementes. Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento fisiológico recalcitrante, com baixo potencial de armazenamento (em torno de 60 dias), de modo que a estocagem não é recomendada. Em laboratório, a germinação foi melhor entre areia, entre rolo de papel e sobre papel, e a temperatura de 30 °C proporcionou a maior velocidade de germinação.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno de 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, em tubetes de polipropileno de 120 cm³ ou, eventualmente, em canteiros de areia cobertos com palha. A germinação é do tipo semi-hipógea e costuma ser precoce, muitas vezes ocorrendo ainda dentro do fruto maduro; a emergência se dá entre 4 e 30 dias, com índice de 71% a 100%, e as mudas ficam prontas de 3 a 4 meses após a semeadura. Sendo uma leguminosa fixadora de nitrogênio, a espécie forma nódulos esféricos e brancos de Rhizobium nas raízes, tanto em viveiro quanto em floresta secundária. Quanto à adubação, recomenda-se adubo orgânico (25% do volume de solo no saco plástico) ou químico (4 kg/m³ de NPK 4:14:8); em tubetes, indica-se 100 g de adubo de liberação lenta por saco de 25 kg de substrato. Se a muda permanecer mais de 90 dias no viveiro, deve-se complementar com adubação foliar (1 kg para 500 L de água).
Espécie heliófila ou esciófila, com tolerância moderada a geadas. O tronco apresenta ramificação acentuada. É uma boa opção para plantios florestais mistos nos trópicos, desenvolvendo-se bem em áreas abertas, e tem potencial para uso em capoeira inicial ou em consórcio com outras espécies de crescimento rápido, a pleno sol. Em sistemas agroflorestais, o sombreamento dos ingazeiros favorece culturas intercaladas como o café e o cacau; em toda a Amazônia e nos arredores de Manaus a espécie é cultivada para sombrear o café em quintais, e no Acre mostrou-se útil para sombrear espécies que precisam de proteção solar no início do desenvolvimento, passando depois a crescer bem em pleno sol.
Há poucos dados disponíveis sobre o desenvolvimento da espécie em plantios, mas seu crescimento é considerado rápido.
A precipitação média anual nos locais de ocorrência vai de 770 mm, no Rio de Janeiro, a 3.000 mm, em São Paulo. As chuvas são uniformes no litoral de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, e periódicas no restante da área, com deficiência hídrica nula nesse litoral. A temperatura média anual oscila entre 17,5 °C (Pindamonhangaba, SP) e 27,2 °C (Paragominas, PA); a média do mês mais frio vai de 13,4 °C (Passa Quatro, MG) a 25,4 °C (Altamira, PA) e a do mês mais quente, de 21,3 °C (Passa Quatro, MG) a 27,9 °C (Macapá, AP). A mínima absoluta registrada foi de -2,8 °C, em Blumenau (SC). Geadas são pouco frequentes em Santa Catarina e ausentes no restante da área. Conforme Köppen, a espécie ocorre nos climas Af, Am, As, Aw, Bsh, Cfa, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente em solos brejosos, de lençol freático superficial. Na Amazônia, aparece em solos de textura argilosa, cujo pH varia de 4,7 a 5,8.