voltar ao catálogo
Foto de Imburana-de-espinho

Foto: Rapper Ouriço (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia

Imburana-de-espinho

Commiphora leptophloeos

Burseraceae Mata AtlânticaCaatingaPantanal
  • até 12 mAltura
  • Médio portePorte
FrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: falsa-imburana, imburana-de-abelha, imburana-vermelha, umburana, imburana, imburana-brava, imburana-de-cheiro, cambão, amburana, amburana-de-cambão, falsa-amburana, imburana-de-cambão

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie é uma angiosperma do clado das Eurosídeas II, ordem Sapindales, família Burseraceae, tribo Bursereae e gênero Commiphora. Seu nome científico é Commiphora leptophloeos (Mart.) J. B. Gillett., publicado em Kew Bull. 34 (3): 582. Já recebeu os sinônimos botânicos Bursera leptophloeos (Mart.) Engl. e Icica leptophloeos Mart. O nome popular imburana origina-se da junção das raízes tupis y-mb-ú (árvore de água) e ra-na (falso), resultando em algo como falso-imbu.

Descrição botânica

Trata-se de uma árvore decídua e armada de espinhos, que pode chegar a cerca de 12 m de altura e 60 cm de DAP na fase adulta. O tronco é tortuoso, bastante ramificado e provido de espinhos fortes e pontiagudos. A ramificação é cimosa e a copa, ampla e de contorno irregular. A casca, de até 0,63 cm de espessura, tem ritidoma liso e lustroso que se descama em lâminas finas, enroladas e muito irregulares — característica que não deve ser confundida com a do cumaru (Amburana cearensis), que não tem espinhos e exala forte cheiro de cumarina. Sua cor muda com a idade: verde nas plantas jovens, laranja-avermelhada nas mais velhas e acinzentada (plúmbea) nos períodos de seca intensa ou em indivíduos próximos da morte. As folhas são alternas e compostas, imparipinadas, com 3 a 9 folíolos ovais de 1,5 cm a 3,5 cm de comprimento e margem inteira; quando bem novas têm tom verde-claro-rosado e, ao serem amassadas, liberam leve odor de resina. As flores, reunidas em panículas axilares, são pequenas (3 mm a 4 mm), de coloração verde bem clara, isoladas ou em pequenos grupos. O fruto é um drupóide do tipo filotrimídio, verde, de cerca de 1,5 cm de diâmetro, que se abre ao meio sob o sol e libera uma única semente. A semente é rígida, rugosa, com mais de 1 cm de diâmetro, negra (exceto na base, esbranquiçada) e recoberta na base por um arilo vermelho.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalalimentícioapícola
Produtos e utilizações

A madeira é leve (densidade de 0,43 g/cm³), com cerne amarelo-avermelhado e alburno espesso de cor pardo-avermelhada; tem textura média, grã direita, homogênea e rija. É fácil de trabalhar, de resistência mediana e suscetível ao apodrecimento. Aplica-se em marcenaria, móveis e construção civil (portas, janelas e esquadrias), além de trabalhos leves como entalhe, caixotaria, objetos e utensílios domésticos; serve também como estaca em obras externas — e as estacas com frequência enraízam, gerando novas plantas. É usada ainda para lenha e carvão, mas é inadequada para celulose e papel. No artesanato, destaca-se na confecção das esculturas conhecidas como carrancas e no uso como cangalha ou cambão, peça que impede a fuga de animais pelas cercas. As folhas, verdes ou secas, servem de forragem, e os frutos bem maduros são comestíveis, de polpa agridoce. A casca e a semente entram em garrafadas e xaropes contra males do estômago, enjoo e tosse; o infuso, o decocto e o xarope da casca do caule atuam como tônico e cicatrizante no tratamento de feridas, gastrite e úlcera, e ainda são indicados contra tosse, bronquite e inflamações urinárias. Das sementes extrai-se um óleo medicinal e, em Alagoas e Sergipe, os índios kariri-shokó e shokó queimam a casca e a madeira como incenso para combater diabetes e diarreia. Por incisão, o tronco libera um bálsamo verde-dourado, sucedâneo da terebintina, muito usado pelos sertanejos e aproveitado na fabricação de vernizes e lacres, aos quais confere menor fragilidade.

Aspectos ecológicos

É considerada uma espécie pioneira. Chega a compor de 90% a 95% do estrato arbóreo da Caatinga arbóreo-arbustiva, embora sua distribuição seja ampla e descontínua. Na Mata Atlântica, aparece na Floresta Estacional Decidual das formações das Terras Baixas e Submontana, em Goiás, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, com até 22 indivíduos por hectare. Na Caatinga arbóreo-arbustiva, presente no Ceará, em Minas Gerais, na Paraíba, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte e em Sergipe, atinge até 30 indivíduos por hectare. No Pantanal Mato-Grossense, ocupa as matas chaquenhas. Surge também em ambientes ripários na Paraíba e em Pernambuco, no carrasco do Ceará, nos campos rupestres de Minas Gerais e em áreas erodidas de calcário Bambuí, no sudoeste da Bahia.

Floração e frutificação

A floração ocorre em setembro, em Mato Grosso do Sul; de novembro a dezembro, em Pernambuco; e de dezembro a janeiro, no Ceará. Os frutos amadurecem de dezembro a janeiro, no Rio Grande do Norte, e de março a maio, no Ceará.

Fauna associada

É uma espécie dióica. A polinização é feita sobretudo pelas abelhas silvestres sem ferrão dos gêneros Melipona e Trigona, que costumam construir seus ninhos nos ocos da imburana-de-espinho. A dispersão das sementes e dos frutos é zoocórica, principalmente pela avifauna.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos direto da árvore assim que começam a se abrir sozinhos; em seguida, ficam expostos ao sol para completar a abertura e liberar as sementes. Cada quilo reúne cerca de 5.300 sementes, que dispensam tratamento pré-germinativo. A viabilidade em armazenamento é curta.

Produção de mudas

Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência em algumas semanas e taxa geralmente inferior a 50%; sementes oriundas da Caatinga apresentam 2% de poliembrionia. As mudas ficam prontas para o plantio de 5 a 7 meses após a semeadura. Além das sementes, a espécie propaga-se por estacas: plantadas antes do início das chuvas, pegam com grande facilidade e podem ser empregadas como estacas vivas em cercas.

Características silviculturais

Espécie heliófila, não tolera temperaturas baixas. Tem forma irregular, sem dominância apical, com caule acamado e ramificação pesada; como a derrama natural é deficiente, exige desrama ou poda de condução e de galhos de forma frequente e periódica. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro, com crescimento razoável em solos de boa fertilidade química, ainda que de forma ruim, ou em plantio misto associada a espécies pioneiras ou secundárias. No Nordeste, recomenda-se o consórcio com o sabiá ou sansão-do-campo (Mimosa caesalpiniifolia), em faixas abertas na vegetação secundária e plantada em linhas. É muito indicada para quebra-ventos e faixas arbóreas entre lavouras, e suas estacas verdes são bastante usadas como mourões que, ao brotarem, formam renques de árvores nas divisas de propriedades.

Crescimento e produção

Há poucos dados sobre o desempenho da espécie em plantios, mas seu crescimento é lento.

Clima

A precipitação média anual vai de 316 mm, no Sertão dos Inhamuns (sudoeste do Ceará), a 1.200 mm, em Mato Grosso do Sul, com chuvas periódicas. A deficiência hídrica é de moderada a forte na depressão do sudoeste de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, e forte na região do Semiárido nordestino. A temperatura média anual fica entre 22,4 ºC (Montes Claros, MG) e 27,2 ºC (Mossoró, RN); a média do mês mais frio varia de 19,4 ºC (Montes Claros, MG) a 26,5 ºC (Caruaru, PE), e a do mês mais quente, de 23,2 ºC (Caruaru, PE) a 30,7 ºC (Serra Negra do Norte, RN). A mínima absoluta registrada foi de 1,4 ºC (Corumbá, MS). As geadas vão de ausentes, no Nordeste, a raras, em Mato Grosso do Sul. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos As (Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), Aw (nordeste de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais), BShw, típico do Semiárido (Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe), e Cwa (Goiás).

Solos

Prefere solos calcários, bem drenados e de profundidade mediana.