Foto: João Medeiros (CC BY 2.0) via Wikimedia
Guarapoca
Maytenus robusta
- até 18 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: café-do-mato, cafezinho, fruto-de-macuco, periquiteira, voadeira, coração-de-bugre, seca-ligeiro, cafezinho-do-mato, laranjinha
Botânica
Segundo a classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Eurosídeas I, ordem Celastrales, família Celastraceae e gênero Maytenus. O nome aceito é Maytenus robusta Reiss., descrito originalmente em 1861 por Reissek na obra Flora Brasiliensis (Martius). Entre os sinônimos botânicos figuram Maytenus alaternoides var. angustifolia Reiss. e Maytenus alaternoides var. latifolia Reiss. Quanto à etimologia, o nome do gênero deriva de maitén, palavra do idioma mapuche (povo aborígene chileno) usada para uma celastrácea arbórea do Chile, a Maytenus boaria. Já o epíteto robusta tem origem no latim robustus (duro, forte), aludindo ao porte avantajado da planta dentro de um gênero formado por muitas espécies arbustivas.
Trata-se de uma planta que varia de arbusto a árvore, sempre-verde (perenifólia), cujos exemplares maiores chegam a cerca de 18 m de altura e 40 cm de DAP na fase adulta. O tronco é reto, de seção cilíndrica e base normal, com fuste em geral curto, que não passa de 5 m. A ramificação é simpódica, formando copa alta, pouco densa, de contorno irregular a arredondado, com ramos jovens glabros, de cilíndricos a achatados. A casca atinge até 10 mm de espessura: a parte externa (ritidoma) é cinza-escura e finamente fissurada, enquanto a interna varia de rósea-clara a carmim, com textura curto-fibrosa e estrutura trançada. As folhas, de consistência cartácea a coriácea, medem de 3,3 a 12,5 cm de comprimento por 1 a 6,4 cm de largura, com ápice agudo a acuminado, base cuneada a obtusa e margem sub-revoluta crenado-dentada; a nervura central é saliente nas duas faces e as secundárias destacam-se na face inferior, e o pecíolo tem de 0,5 a 1,2 cm. A forma das folhas apresenta grande variação fenotípica. As inflorescências são cimeiras subsésseis ou pedunculadas, ramificadas e frouxas, reunindo de 10 a 20 flores. As pétalas medem 3 mm por 2 mm, com estames de filetes alargados na base, e as sépalas, ovais e de margem subciliada, têm cerca de 2 mm; o pedicelo, bracteolado na base, mede de 4 a 5 mm. O fruto é uma cápsula piriforme, com frequência de estilete persistente e pericarpo amarelo na maturação. A semente é pequena, escura e recoberta por um arilo esbranquiçado.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,77 g/cm³ a 15% de umidade), com cerne e alburno pouco distintos e de tom esbranquiçado, textura fina, grã reta, boa resistência mecânica e durabilidade moderada. Por causa do tronco de pequenas dimensões, tem pouco valor comercial e aplicação limitada, prestando-se à confecção de utensílios domésticos e ao uso como lenha (com restrições). Não é indicada para celulose e papel. De porte ornamental, a espécie funciona bem no paisagismo, sobretudo na arborização de ruas e avenidas, e é muito útil na restauração de matas ciliares e de áreas degradadas.
No processo de sucessão, a guarapoca enquadra-se entre secundária inicial e secundária tardia. Possui grande amplitude ecológica, ainda que sua ocorrência seja esparsa e descontínua. Na Mata Atlântica, aparece na Floresta Estacional Decidual (formação submontana, em MG e SP), na Floresta Estacional Semidecidual (formações submontana e montana, em GO, MG, PR e SP, com até 5 adultos por hectare), na Floresta Ombrófila Densa (formações submontana, montana e alto-montana, no ES, MG, RJ e SP, chegando a 72 indivíduos por hectare) e na Floresta Ombrófila Mista com araucária (formação montana, no PR e SP). No Cerrado, surge na Savana Florestada (cerradão), em SP. Também é encontrada em ambientes ripários (mata ciliar) no DF, GO, MG e SP, em restingas no PR e SP, em zonas de ecótono entre Cerrado e Floresta Estacional Semidecidual no PR e na Floresta Estacional Decidual do nordeste de Goiás.
A espécie é hermafrodita. A floração acontece de maio a setembro no Paraná, em setembro no Distrito Federal e de setembro a dezembro em São Paulo. Os frutos amadurecem de outubro a janeiro no Paraná e de novembro a maio em São Paulo.
A polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão de frutos e sementes é predominantemente zoocórica, com papel de destaque para o bugio ou guariba (Alouatta guariba) e para o macuco (Tinamus spp.).
Plantio e silvicultura
Os frutos são colhidos da árvore já maduros, quando as valvas se abrem, o pericarpo fica vermelho-escuro e o arilo se expõe. Depois da colheita, devem ficar à sombra até abrirem por completo e soltarem as sementes, das quais o arilo é retirado manualmente. Cada quilo reúne cerca de 13.500 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. O comportamento fisiológico é ortodoxo, mas, fora da câmara fria, as sementes perdem a viabilidade depressa.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio (120 cm³). A repicagem, quando necessária, deve ser feita assim que as plântulas tiverem de 4 a 5 folhas. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a taxa fica entre 50% e 80% quando a semeadura é feita logo após a coleta e a remoção do arilo. Por volta dos 9 meses após a semeadura, as mudas alcançam cerca de 25 cm de altura.
A guarapoca é heliófila e tolera baixas temperaturas. Não possui dominância apical definida e ramifica-se desde a base, com desrama natural fraca, o que exige podas frequentes de condução e de galhos. O plantio recomendado é consorciado ou em linha, em floresta secundária no estágio de capoeirão.
Há poucos dados sobre seu desempenho em plantios, mas o crescimento é considerado moderado, atingindo cerca de 2 m de altura aos 2 anos após o plantio.
A precipitação média anual na área de ocorrência vai de 770 mm, no Rio de Janeiro, a 3.200 mm, no litoral paulista, com chuvas bem distribuídas no Sul (exceto no norte do PR) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Planalto Meridional do Sul, de pequena a moderada no inverno nos planaltos do centro e leste de SP, sul de MG e sudoeste do ES, e de forte a muito forte no centro da Bahia. A temperatura média anual varia de 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) a 23,7 ºC (Rio de Janeiro, RJ), com mínima absoluta registrada de -8,4 ºC em Guarapuava, PR. As geadas são frequentes no inverno dos planaltos do Sul e acima de 1.000 m nas serras da Mantiqueira e da Bocaina, tornando-se raras a ausentes no restante. Segundo Köppen, ocorre nos tipos Af, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Cresce de forma espontânea em terrenos que vão de rasos a profundos e de fertilidade química variável, predominando solos pobres e ácidos, com pH entre 3,5 e 5,5, textura de franca a argilosa e boa drenagem. Solos mal drenados, como os orgânicos e os Gleissolos Melânico alumínico e Háplico Tb Distrófico, são pouco favoráveis ao seu desenvolvimento.