Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Guaraperê
Lamanonia ternata
- 3,5 a 15 m (até 30 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: açoita-cavalo, cedrilho, salgueiro, salgueiro-do-mato, três-folhas, cajacatinga, cangabicho, canga-de-bicho, cangalheira, cangalheiro, carne-de-vaca, carvalho, cedro-do-campo, guareperê, maria-preta, sacopeba, sacopema, ubatinga
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Rosales, dentro da família Cunoniaceae. Foi descrita como Lamanonia ternata por Velloso, em 1825. Entre seus sinônimos botânicos figuram Belangera speciosa Cambessèdes, Belangera tomentosa Cambessèdes e Lamanonia speciosa (Cambessèdes) L. B. Smith. O nome do gênero presta homenagem a Lamanon, que acompanhou Peyroux em viagens de circunavegação, enquanto o epíteto ternata deriva do latim ternatus ("dividido em três partes"), em alusão aos folíolos.
Árvore semicaducifólia que normalmente mede de 3,5 a 15 m de altura, com diâmetro de tronco (DAP) entre 20 e 40 cm, podendo chegar a 30 m de altura e 80 cm de DAP quando adulta; no Nordeste brasileiro não costuma passar dos 12 m. O tronco é cilíndrico, reto ou levemente inclinado e coberto de lenticelas, com fuste em geral curto, que atinge no máximo cerca de 10 m. A ramificação é cimosa, dicotômica a tricotômica, formando copa larga e frequentemente achatada, com folhagem pouco densa. A casca tem até 17 mm de espessura: a externa varia de acastanhada a cinza-escura, é sulcada e se desfaz em fendas curtas, e a interna é bege-rosada ou alaranjada. As folhas são opostas, compostas, em geral com cinco folíolos dispostos de forma palmada e acompanhadas de grandes estípulas membranáceas; os folíolos são elíptico-lanceolados, sésseis, densamente pilosos na face inferior, com ápice e base agudos, margem serrilhada e faces de cores distintas, sendo o folíolo terminal o maior (cerca de 8 cm), e o pecíolo mede até 3 cm. Na primavera, a folhagem assume tons avermelhados. As flores são pequenas, de cor amarelo-esbranquiçada, agrupadas em inflorescências racemosas axilares vistosas de até 20 cm, com 20 a 40 flores cada. O fruto é uma cápsula lenhosa bilocular, oblongo-elíptica, esverdeada, de deiscência septicida, medindo de 10 a 18 mm de comprimento por 3 a 5 mm de largura e contendo, em média, 38 sementes. As sementes são oblongas, aladas e laminares, com 2 a 6 mm de comprimento e 1 a 2 mm de largura, e o núcleo seminal fica na base da asa.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,55 a 0,75 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno bege a bege-rosado-claro e cerne bege-escuro levemente rosado; tem superfície lisa e de brilho discreto, textura fina, grã direita e gosto e cheiro indistintos, costumando apresentar alto teor de sílica. A madeira serrada e roliça é aproveitada localmente em serrarias, marcenaria, tabuado de obras abrigadas e na fabricação de lápis. Fornece lenha de boa qualidade e é apta para a produção de celulose e papel. A casca contém taninos usados em curtimento rudimentar de couro e, em banhos ou compressas, atua como adstringente, sendo indicada na cura de feridas e úlceras externas. As flores melíferas a tornam interessante para a apicultura. Como árvore ornamental, presta-se a parques, praças e arborização urbana, e é recomendada na recuperação ambiental de matas ciliares em áreas sujeitas a inundações periódicas e breves.
Trata-se de uma espécie secundária inicial, de origem antártica, que prefere áreas abertas e vegetação secundária, surgindo em capoeirões e florestas secundárias, muitas vezes em touças com até cinco troncos. É mais comum no estrato intermediário e na vegetação secundária da Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), nas formações Montana e Submontana, mas também ocorre em campos rupestres ou de altitude, na Floresta Estacional Semidecidual Montana e na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), nas formações Submontana, Alto-Montana/Montana e na restinga. No Nordeste, aparece esporadicamente nos encraves vegetacionais conhecidos como brejos de altitude. Sua densidade é baixa: levantamentos em matas de galeria de Minas Gerais e do Distrito Federal registraram de 1 a 4 árvores por hectare, e no Cerrado paulista foram encontrados cerca de dois exemplares por hectare.
É uma planta hermafrodita. A floração varia conforme a região: de agosto a outubro no Distrito Federal; de outubro a fevereiro no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina; de novembro a dezembro em São Paulo; e de março a abril na Bahia. Os frutos amadurecem de dezembro a março no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, de janeiro a fevereiro em São Paulo, de março a abril no Paraná e de maio a junho no Distrito Federal. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 3 anos de idade.
A polinização é feita sobretudo por abelhas, enquanto a dispersão dos frutos e sementes ocorre pelo vento (anemocórica).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando maduros, mas ainda fechados, e mantidos em local arejado para que abram e liberem as sementes, extraídas manualmente. Cada quilo reúne cerca de 1,5 milhão de sementes, que não apresentam dormência e, portanto, dispensam tratamento para superá-la. Em ambiente não controlado, mantêm a viabilidade por cerca de um ano.
Recomenda-se semear em sementeiras e, de 2 a 4 semanas após a germinação, repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio. As plântulas têm sistema radicial pivotante, com raiz axial cilíndrica e farta ramificação lateral. A germinação é epígea, com hipocótilo curto, e começa entre 20 e 60 dias após a semeadura; o poder germinativo é irregular e costuma ser baixo, entre 5% e 15%. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio cerca de 9 meses após a semeadura.
Espécie heliófila, suporta sombreamento de baixa a média intensidade e baixas temperaturas, e árvores adultas em florestas naturais toleram mínimas de até -11 ºC. O hábito é irregular, com bifurcações e brotações laterais e basais, exigindo poda de condução e desrama artificial periódica. Para o plantio, recomenda-se o sistema misto, associando-a a espécies pioneiras ou à vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na capoeira ou na floresta secundária, dispondo-a em linhas ou grupos. Após o corte, rebrota da touça, geralmente formando vários troncos.
O crescimento é lento. O maior incremento médio observado foi de 2,45 m³/ha/ano, aos 5 anos, em Rolândia (PR).
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 700 mm na Bahia a 2.300 mm no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, com chuvas bem distribuídas no Sul e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul, de pequena a moderada (com estação seca de até 5 meses) na Bahia e em Pernambuco, e forte no Mato Grosso. A temperatura média anual oscila entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 25 ºC (Corumbá, MS); a média do mês mais frio fica entre 8,2 ºC (Campos do Jordão, SP) e 21,3 ºC (Rio de Janeiro, RJ), e a do mês mais quente entre 17,2 ºC (São Joaquim, SC) e 27,2 ºC (Corumbá, MS), com mínima absoluta registrada de -11,6 ºC (Xanxerê, SC). O número de geadas anuais varia de 0 a 30 em média, chegando ao máximo absoluto de 81 na Região Sul e em Campos do Jordão (SP). Predomina em climas temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa) e subtropical de altitude (Cwa e Cwb), e, com menor frequência, em clima tropical (Af, Am e Aw).
É uma espécie plástica quanto ao tipo de solo, embora mais frequente em terrenos úmidos. Desenvolve-se melhor em solos de drenagem boa a regular e textura que varia de franca a argilosa.