Foto: João Medeiros (CC BY 2.0) via Wikimedia
Guarantã
Esenbeckia leiocarpa
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: durão, goiabeira, jurema, guarataia, guarataia-vermelha, pau-duro, antã-forte, guamixira, guará-árvore
Botânica
Pertencente à ordem Sapindales e à família Rutaceae, o guarantã foi descrito como Esenbeckia leiocarpa por Engler, com publicação original na Flora Brasiliensis de 1874. O gênero Esenbeckia presta homenagem aos botânicos alemães da família Nees von Esenbeck. Já o epíteto leiocarpa quer dizer "fruto liso", em referência à ausência de ornamentações, enquanto o nome popular guarantã carrega o sentido de "madeira dura".
Trata-se de uma árvore perenifólia que, na fase adulta, pode chegar perto de 30 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito. O tronco é reto, com fuste de até 20 m, e a ramificação é dicotômica; os ramos são castanhos, cobertos por indumento tomentoso e translúcido, frequentemente marcados por cicatrizes foliáceas. A casca atinge cerca de 10 mm de espessura, com superfície externa lisa e cinzenta, finamente fissurada no sentido longitudinal. As folhas são simples, alternas a subopostas, de 5 cm a 20 cm de comprimento por 3,3 cm a 7 cm de largura, com lâmina obovada a largo-elíptica, ápice em geral obtuso ou arredondado e consistência cartácea; os pecíolos medem de 1,8 mm a 2,5 mm. As flores, de cor creme a amarelo-claro e revestidas de pelos, têm de 2 mm a 5 mm de diâmetro e surgem em panículas terminais e axilares de 6,5 cm a 12 cm, mais longas que as folhas. O fruto é uma cápsula equinada de deiscência loculicida, com 2,3 cm a 4,5 cm de diâmetro e quatro lóculos, que se abre de forma explosiva e lança as sementes. Cada lóculo abriga duas sementes oleíferas, globosas e truncadas em uma das pontas, envoltas por membrana elástica, com cerca de 1,9 mm de diâmetro por 7,8 mm de comprimento.
Uso e ecologia
A madeira do guarantã é densa, com massa específica entre 0,85 g/cm³ e 1,04 g/cm³ a 15% de umidade. O cerne tem cor amarelo-limão uniforme logo após o corte e escurece para amarelo-dourado com a exposição ao ar, às vezes com veios vermelho-escuros decorrentes de lesões. A superfície é lustrosa e um pouco áspera, com cheiro agradável característico, textura média e uniforme e grã direita a ondulada. É uma das madeiras mais resistentes ao ataque de organismos xilófagos, ainda que tenha baixíssima permeabilidade a soluções preservantes. Por sua resistência, é empregada em estruturas externas e obras expostas, como dormentes, postes, esteios, mourões, estacaria, travessões, cruzetas e vigamentos de pontes; na construção civil, serve para vigas, caibros, ripas, marcos de portas e janelas, tábuas e tacos de assoalho, além de cabos de ferramentas, implementos agrícolas, barris e carrocerias. Também é usada em cercas, mangueirões, esquadrias e forros. Por tender a fendilhar, não é boa para serraria, mas se sai muito bem em cabos de ferramentas e picaretas. A lenha e o carvão são de boa qualidade, porém a madeira é inadequada para celulose e papel.
É uma espécie secundária tardia a clímax, característica das fases finais da sucessão. Tem distribuição restrita e descontínua, com indivíduos agrupados em colônias ou núcleos espaçados; chega a formar reboleiras de até 100 plantas, chamadas subpopulações. Na região de Cosmópolis (SP), formava capões quase puros e em grande quantidade. Regenera-se com abundância à sombra, em geral ao redor da árvore-mãe. Ocorre no bioma Pantanal, no Pantanal Mato-Grossense em Mato Grosso do Sul, e no bioma Mata Atlântica, na Floresta Estacional Semidecidual da formação Montana em Minas Gerais e São Paulo, e na Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas na Bahia, onde aparece com frequência de 1,4 árvore por hectare.
A floração é sazonal e bastante intensa, o que ajuda a identificar a planta mesmo a distância: ocorre de setembro a março em São Paulo e em outubro em Pernambuco. Os frutos amadurecem de junho a setembro em São Paulo e de agosto a setembro no Paraná. O processo reprodutivo costuma começar por volta dos 8 anos de idade.
O guarantã é monoico e alógamo. A polinização fica a cargo de agentes de voo curto, como moscas e diversos insetos pequenos. A dispersão é por autocoria, sobretudo barocoria: a deiscência explosiva da cápsula arremessa as sementes com auxílio de uma mola pergaminhosa, alcançando até cerca de 10 m de distância, o que resulta em farta regeneração sob as árvores adultas.
Plantio e silvicultura
Os frutos, ainda verde-claros, devem ser colhidos diretamente da árvore antes da abertura natural e postos ao sol para completar a deiscência e liberar as sementes. Como a abertura é explosiva, convém cobri-los com tela fina para evitar perdas. A separação das sementes é feita por abanação em peneiras, e a relação entre peso líquido e peso bruto fica entre 5% e 10%. Cada quilo reúne de 9.500 a 12.500 sementes. A pré-hidratação antecipa e acelera a germinação. As sementes têm comportamento fisiológico ortodoxo: armazenadas sob frio a 5 ºC, mantêm o poder germinativo por 2 anos, e em frascos hermeticamente fechados e protegidos da luz conservam-se bem por até 440 dias. Em laboratório, as melhores taxas e velocidades de germinação ocorrem entre 15 ºC e 30 ºC, e a boa germinação no escuro indica que as sementes não são fotossensíveis.
A semeadura pode ser feita em canteiros ou diretamente em sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno; mudas de canteiro devem ser repicadas para recipientes individuais ao atingirem de 4 cm a 6 cm. A germinação é epígea e fanerocotiledonar, começando entre 8 e 30 dias após a semeadura, com taxas geralmente altas, de 76% a 100%. As mudas ficam prontas para o plantio em 8 a 12 meses. Como têm raiz pivotante, o transplante de plantas de regeneração natural é difícil e deve ocorrer quando atingirem de 10 cm a 15 cm de altura. Recomenda-se sombreamento de 70% no viveiro e adubação orgânica (25% do volume de solo) ou química (4 kg/m³ de NPK 4:14:8) no caso de sacos de polietileno. A propagação vegetativa pode ser feita por enxertia de garfagem em fenda de topo, usando o ramo terminal.
Espécie umbrófila e muito tolerante à sombra, o guarantã é sensível a baixas temperaturas e não suporta geadas quando jovem. Seus galhos saem em intervalos regulares de tempo, distando de 80 cm a 1 m entre si, e em povoamentos densos a desrama e a cicatrização são muito boas; em alguns indivíduos surge brotação intensa ao longo do tronco, o que causa engrossamentos e defeitos no fuste. Devem-se evitar plantios puros a pleno sol, pois as árvores tendem a bifurcar-se e exigem poda para não se deformarem. O plantio misto, sob sombreamento de outras espécies, dá bons resultados, como ocorreu em consórcio com o pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha). Quanto ao espaçamento, a espécie mostrou-se indiferente aos arranjos testados.
O crescimento é lento. Em plantios, a espécie pode alcançar produção volumétrica de até 7,55 m³ por hectare ao ano aos 20 anos de idade. Em ensaios no Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, observaram-se, por exemplo, alturas médias de cerca de 13,7 m aos 20 anos em Cosmópolis (SP) e de 11,8 m aos 14 anos em São Simão (SP). A espécie consta da lista de árvores ameaçadas de extinção no Estado de São Paulo, sendo recomendada a conservação genética in situ e ex situ, já que fragmentos menores apresentam menor variabilidade genética.
A precipitação média anual varia de 1.100 mm, na Bahia, a 2.500 mm, em Pernambuco, com chuvas uniformemente distribuídas ou periódicas no litoral sul baiano e periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica vai de nula a forte conforme a região. A temperatura média anual fica entre 18,1 ºC (Diamantina, MG) e 25,5 ºC (Paulista, PE), com mínima absoluta de -2,2 ºC registrada em Uberaba (MG). As geadas são ausentes no sul da Bahia, em Goiás e em Pernambuco, e raras em São Paulo. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af, Am, Aw, Cwa e Cwb.
Prefere solos de textura arenosa, porém férteis, sendo raramente encontrada em terras roxas e em baixadas úmidas.