Foto: maurohalpern (Public domain) via Wikimedia
Guanandi
Calophyllum brasiliense
- 16 a 40 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: jacareúba, landim, landi, olandi, cedro-do-pântano, cedro-mangue, guanandi-cedro, guanandi-amarelo, pau-de-santa-maria, pau-de-azeite, bálsamo-jacareúba, mangue, pindaíva, guanandi-piolho, guanandi-vermelho, guanandi-da-praia
Botânica
Pela classificação de Cronquist, o guanandi pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Theales, dentro da família Clusiaceae (também conhecida como Guttiferae). A espécie foi descrita como Calophyllum brasiliense por Cambessèdes em 1828. Entre os sinônimos botânicos registrados estão Calophyllum chiapense, Calophyllum ellipticum e Calophyllum rekoi. O nome do gênero remete a "folha bonita", enquanto o epíteto específico indica origem brasileira; já a designação popular guanandi deriva do tupi gwanã'di, com o sentido de "o que é grudento", uma referência ao látex pegajoso da planta.
Árvore perenifólia que perde apenas parte das folhas durante a seca. O porte varia bastante conforme a região: cerca de 16 m no Nordeste, até 25 m no Sul e até 40 m de altura com 150 cm de DAP na Amazônia, quando adulta. O tronco costuma ser reto e cilíndrico, com fuste que chega a 15 m, e a casca pode alcançar 40 mm de espessura. Externamente, a casca é parda a marrom-escura, com fissuras finas no sentido vertical e desprendimento em pequenas placas retangulares; por dentro é rósea, aromática, de sabor amargo e ácido, liberando lentamente um látex amarelo-esverdeado e pegajoso. A copa é larga, arredondada e densa, com folhagem verde-escura sustentada por ramificação dicotômica vigorosa. As folhas são simples, opostas em cruz, elípticas e coriáceas, medindo de 5 a 15 cm de comprimento por 3 a 7 cm de largura, com numerosas nervuras laterais paralelas que vão até a borda e pecíolo grosso de até 2 cm. A árvore reúne dois tipos de flores brancas — masculinas e hermafroditas — agrupadas em racemos axilares curtos ou pequenas panículas de 2,5 a 6 cm. O fruto é uma drupa globosa, carnosa e indeiscente, com 19 a 30 mm de diâmetro, pericarpo verde leitoso quando maduro e polpa oleaginosa que envolve uma única semente; a massa média do fruto é de cerca de 3,74 g. A semente é globosa, de cor castanha, com 14 a 22 mm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira do guanandi serve para móveis e diversos usos na construção civil, como caibros, ripas, rodapés, molduras, tábuas, embalagens, dormentes, mourões, estacas, pontes e postes, além de cabos de ferramentas e implementos agrícolas, marcenaria, carpintaria, parquete e lâminas faqueadas decorativas. Tem boa aceitação na fabricação de barris para vinho e, na Bolívia, é muito usada em canoas, vigas de casas e instrumentos domésticos. Esteticamente pode substituir o mogno (Swietenia spp.) e o cedro (Cedrela spp.), embora ainda seja pouco aproveitada no Brasil. Em termos físicos, é de leve a moderadamente densa (0,45 a 0,65 g/cm³ a 12–15% de umidade; massa específica básica de 0,49 a 0,51 g/cm³), com alburno bege-rosado e cerne que vai do róseo-acastanhado ao castanho. A superfície é levemente lustrosa e áspera, de textura média a grossa e grã irregular entrecruzada, sem cheiro ou gosto perceptíveis. É durável a moderadamente durável contra fungos de podridão e considerada praticamente imputrescível submersa, mas tem baixa permeabilidade a preservantes devido aos poros parcialmente ocupados por óleo-resina, e a secagem é moderadamente difícil, com tendência a rachaduras e empenamentos. Retém bem pregos e parafusos e cola sem grandes problemas. Outros produtos incluem: madeira boa para celulose e papel (fibras de 0,60 a 1,27 mm); uso energético com produção regular de álcool, coque e carvão; goma-resina amarela e aromática exsudada pela casca, com aplicação veterinária; óleo industrial extraído do fruto (44% de pureza); saponina nas folhas; e tanino em folhas e casca.
Classifica-se como espécie secundária a clímax tolerante à sombra, ainda que no litoral do Paraná surja em condições pioneiras de influência fluvial, formando guanandizais quase puros. Apresenta regeneração natural abundante na sombra e mostra-se em expansão em matas pouco perturbadas, tendo sido observada inclusive regenerando sob plantios de Pinus. Suas sementes mantêm a viabilidade mesmo submersas e as plantas crescem bem em solo encharcado, de modo que a saturação hídrica não prejudica seu ciclo de vida — característica que, somada à variedade de formas de dispersão, explica sua ampla distribuição e seu papel marcante nas florestas de áreas inundáveis, o que lhe rendeu o apelido de árvore-dos-alagadiços. Ocorre em todas as bacias brasileiras, sempre em planícies temporariamente inundadas: na Floresta Ombrófila Densa (formações Aluvial, das Terras Baixas e Baixo-Montana, tanto na Mata Atlântica quanto na Amazônia, onde é frequente nos igapós), na Floresta Estacional Semidecidual (formações Aluvial e Montana), no Cerradão paulista, nas matas ciliares do Brasil Central, em campos rupestres, no Pantanal Mato-Grossense e na Restinga. Em solos brejosos de Santa Catarina chega a ser dominante; em matas de galeria do Distrito Federal foram registradas dez árvores por hectare e, em Itutinga (MG), treze indivíduos.
A floração é bastante variável em razão da extensa área de ocorrência: de setembro a outubro no Distrito Federal, de novembro a junho em São Paulo, em dezembro na Paraíba e de janeiro a março no Paraná. Os frutos amadurecem de março a junho em Minas Gerais, de abril a maio no Rio de Janeiro, de abril a outubro em São Paulo, de maio a junho no Distrito Federal, de maio a fevereiro no Paraná e de julho a novembro em Santa Catarina. Em plantios sobre solo fértil e bem drenado, a reprodução pode começar aos 5 anos, mas normalmente se inicia por volta dos 10 anos.
Planta hermafrodita ou monóica, polinizada sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão pode ser autocórica, hidrocórica e zoocórica, com predomínio da zoocoria. A dispersão por morcegos frugívoros (como Platyrrhinus lineatus e Artibeus lituratus) é especialmente importante: eles consomem o epicarpo e o mesocarpo e depois regurgitam as sementes ainda com restos do endocarpo. Também contribuem o macaco-bugio (Alouatta fusca) e aves como a gralha-azul (Cyanocorax caeruleus), no Sul do país. A dispersão pela água é favorecida pela proximidade dos cursos d'água — as sementes não germinam submersas, mas permanecem viáveis e flutuam, embora a água parada das inundações limite o transporte a longas distâncias. Já a dispersão autocórica é principalmente por gravidade, com os frutos caindo diretamente ao chão; eles costumam permanecer disponíveis na árvore-mãe por cerca de dez meses e, em grande quantidade, formam um banco de sementes no solo. Os frutos são muito procurados pela fauna, incluindo tucanos e veados.
Plantio e silvicultura
A coleta das sementes geralmente é feita no chão, onde nos guanandizais é comum encontrar amontoados de frutos e sementes já despolpados, sobretudo pela ação de morcegos. Para extrair a semente, faz-se a maceração que remove o epicarpo e o mesocarpo, ficando o endocarpo aderido à testa — situação semelhante à das sementes recolhidas no solo das florestas; há, porém, a recomendação de semear o fruto inteiro, como se fosse a própria semente, dispensando o despolpamento. Cada quilo reúne de 415 a 750 sementes, e um quilo de frutos contém cerca de 160 unidades. A espécie tem dormência tegumentar, causada pelo endocarpo rígido ou por substância inibidora, sendo indicada escarificação mecânica ou estratificação em areia úmida por 60 dias; sem esse tratamento, a germinação pode se estender por até 6 meses. Sementes despolpadas por morcegos, contudo, não precisam de tratamento prévio, pois a remoção do pericarpo acelera a emissão da radícula. São sementes fotoblásticas neutras, ou seja, germinam tanto na luz quanto no escuro. Armazenadas em sala, mantêm a viabilidade por cerca de oito meses.
Recomenda-se semear uma semente por saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubete de polipropileno grande. Em Porto Rico, a semeadura direta no campo dá bons resultados, com germinação próxima de 100%. Quando necessária, a repicagem deve ocorrer de 1 a 4 semanas após o surgimento do hipocótilo. A germinação é epígea, com os cotilédones permanecendo na semente, e começa entre 8 e 145 dias após o plantio; o poder germinativo é irregular, variando de 15% a 95%, independentemente de as sementes terem sido beneficiadas por morcegos ou não. As mudas atingem porte adequado para o plantio cerca de 2 meses após a semeadura. Na fase de muda, o sistema radicial é reduzido, mas a plântula aceita poda das raízes. No viveiro, recomenda-se sombreamento de 50% de intensidade luminosa. As raízes apresentam micorrizas arbusculares, com até 80% de infecção do fungo. A propagação vegetativa é difícil: estacas caulinares apicais enraízam com dificuldade mesmo com uso de AIB.
O guanandi é uma espécie heliófila e agressiva sobre a vegetação brejosa mais rala, mas há quem o classifique como esciófilo, dada sua regeneração abundante à sombra; por isso, na fase juvenil precisa de sombreamento de intensidade média. É intolerante a baixas temperaturas, mesmo sob plantio protegido por vegetação arbórea. O crescimento é monopodial, com galhos finos e desrama natural fraca, o que exige podas. Deve-se evitar o plantio puro a pleno sol; o ideal é o plantio misto a pleno sol associado a espécies pioneiras e secundárias, ou o plantio em linhas, em faixas abertas dentro da floresta. A árvore rebrota da touça após o corte. É empregada em sistemas agroflorestais — para sombreamento de café e cacau no México e de pastos em Cuba —, podendo render madeira para desdobro com rotação de corte estimada em 35 a 40 anos, além de servir para cercas vivas e quebra-ventos. A espécie consta das listas de conservação de recursos genéticos, in situ e ex situ; embora ainda frequente, sofre pressão pela exploração ilegal de madeira e pela destruição das matas ciliares, estando ameaçada de extinção no Paraguai.
Em vários países da América Central e do Caribe o guanandi é uma espécie florestal de destaque. No Brasil, o crescimento em altura e diâmetro é de lento a moderado. Em Manaus (AM), registrou-se incremento médio volumétrico anual de 8,40 m³/ha aos 9 anos de idade.
A precipitação anual em que ocorre vai de 1.100 mm em São Paulo a 3.000 mm no Pará, podendo chegar a 4.000 mm na Costa Rica. O regime de chuvas é uniforme do litoral baiano até Santa Catarina, na região de Belém (PA) e no noroeste do Amazonas, e periódico nas demais regiões, com concentração no verão e inverno seco. A deficiência hídrica é de até 3 meses de seca, com déficit moderado no Centro-Oeste. As temperaturas médias anuais variam de 18,1 ºC (Diamantina, MG) a 26,7 ºC (Itaituba, PA, e Manaus, AM); a mínima absoluta registrada foi de -2,2 ºC em Uberaba (MG). As geadas são raras, de 0 a 1 por ano em média e no máximo cinco no extremo sul de distribuição. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Af, Am e Aw), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o subtropical úmido (Cfa), neste caso no litoral catarinense.
Naturalmente, o guanandi cresce em solos aluviais de drenagem deficiente, em locais úmidos, brejosos e sujeitos a inundações periódicas, de textura arenosa a franca e ácidos (pH de 4,5 a 6,0). No Paraná, dentro da Floresta Ombrófila Densa, restringe-se a superfícies pleistocênicas e holocênicas, onde predominam organossolos e espodossolos hidromórficos, ambos de baixa fertilidade. Apesar disso, em plantios experimentais da Embrapa Florestas no Paraná, em solos de fertilidade alta a média, bem drenados e de textura franca a argilosa, a espécie cresceu de forma satisfatória, sem demonstrar exigência quanto à drenagem.