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Foto de Guaçatunga

Foto: Patrícia Mees (CC BY) via GBIF

Guaçatunga

Casearia decandra

Salicaceae AmazôniaCerradoMata Atlântica
  • até 18 mAltura
  • Médio portePorte
FrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: guaçatunga-miúda, guaçatonga, cafezeiro-do-mato, café-do-mato, café-de-bugre, canela-espeto, cambroé, pau-de-lagarto, erva-lagarto, pitumba, vidro-branco, pau-vidro-branco, pururuca, espeteiro, pau-espeto, canela-de-veado, carvalinho, vareta, terra-seca, pitiá, assa-peixe, brogogó, agustinho

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à família Salicaceae (anteriormente enquadrada em Flacourtiaceae no sistema de Cronquist), ordem Malpighiales, dentro do clado das eurosídeas I. O gênero é Casearia e a espécie, Casearia decandra Jacq., descrita pela primeira vez em 1760. São reconhecidos como sinônimos botânicos os nomes Casearia parvifolia Willdenow, Casearia floribunda Briquet e Casearia albicaulis Rusby, havendo ainda extensa sinonímia compilada por Sleumer. O nome do gênero homenageia o missionário holandês Casearius, enquanto o epíteto decandra deriva do grego deca (dez) e anér, andrós (homem), em referência aos dez estames presentes na flor.

Descrição botânica

Trata-se de uma planta de hábito que varia de arbustivo a arbóreo, decídua, cujos maiores indivíduos chegam a cerca de 18 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo) na fase adulta. O tronco é reto a pouco tortuoso, com fuste em geral curto, de até 5,5 m. A ramificação é cimosa ou dicotômica, e a copa, alta, de folhagem rala a densa, com forma que vai de leque a arredondada; os ramos são finos e horizontais, semelhantes aos do bacupari (Garcinia gardneriana), e os raminhos delgados têm pontas pubérulas, partes mais velhas glabrescentes recobertas de cortiça parda e extremidades com lenticelas. A casca atinge até 10 mm de espessura: a externa (ritidoma) é marrom, áspera e finamente fendilhada, soltando-se em pequenas placas, ao passo que a interna é creme, de textura arenosa e estrutura compacta e heterogênea. As folhas são simples, alternas e dísticas, de contorno elíptico-lanceolado a elíptico ou ovado-elíptico, com ápice mais ou menos longo-acuminado e agudo e base levemente assimétrica, cuneada ou arredondada; quando maduras tornam-se cartáceas a subcoriáceas, pardas ao secar, um pouco brilhantes na face superior e em geral glabras nas duas faces; a margem é serrulada a serreada ou crenada e a lâmina mede de 3 a 7,5 cm de comprimento por 1,5 a 3 cm de largura, com 4 a 8 pares de nervuras laterais curvado-ascendentes; o pecíolo tem de 2 a 10 mm e as estípulas linear-suladas, de 3 a 5 mm, são caducas. As inflorescências surgem em fascículos sésseis, com 10 a 15 flores cada, geralmente nos nós sem folhas, brotando com ou um pouco antes das folhas novas. As flores são brancas, de aroma forte e característico, com botão floral elipsoide. O fruto é uma cápsula globosa e tricostulada, vermelha a alaranjada, muitas vezes lustrosa, glabra ou esparsamente pilosa, de 8 a 12 mm de diâmetro, que se abre em três valvas e contém de 2 a 5 sementes; cada semente é ovoide e comprimida, de 4 a 5 mm, com testa lisa.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalalimentícioapícola
Produtos e utilizações

Os frutos são comestíveis e a análise bromatológica indicou de 16,77% a 17,26% de proteína bruta e de 8,31% a 16,63% de tanino, o que confere valor à espécie na alimentação animal. As flores têm bom potencial apícola: fornecem pólen que origina mel de excelente qualidade, e a espécie é apontada por Backes e Irgang como uma das poucas árvores melíferas de inverno, sobretudo no Planalto Meridional do Sul do Brasil. Na medicina tradicional, indígenas do Paraná e de Santa Catarina empregavam a casca do caule contra problemas estomacais, dores diversas, reumatismo, aftas e feridas; as folhas, em uso externo, têm ação anti-séptica, e a casca macerada em álcool era aplicada sobre picadas de cobra e de insetos. Quanto à madeira, é moderadamente densa (0,56 a 0,70 g/cm³), de cor castanho-clara sem distinção entre alburno e cerne, textura fina e grã direita; tem baixa resistência e apodrece com facilidade quando exposta às intempéries. É usada como lenha e carvão e, na região metropolitana de Curitiba, na fabricação de cabos de ferramentas e utensílios domésticos. Não se presta, contudo, à produção de celulose e papel.

Aspectos ecológicos

É classificada como espécie pioneira a secundária tardia ou clímax exigente em luz. Comporta-se como arvoreta típica do estrato médio do sub-bosque dos pinhais do Planalto Meridional do Sul do Brasil, onde se mostra particularmente abundante, e atua como colonizadora de clareiras com mais de 100 m². Foi registrada no Pará em floresta secundária de 70 anos e, em um povoamento de Araucaria angustifolia em Telêmaco Borba (PR), Speltz contou 1.225 indivíduos em regeneração natural. Na Mata Atlântica habita a Floresta Estacional Decidual, a Floresta Estacional Semidecidual (com até 50 indivíduos adultos por hectare), a Floresta Ombrófila Densa (até 30 por hectare) e a Floresta Ombrófila Mista (até 60 por hectare); na Amazônia, ocorre na Floresta Ombrófila Densa de terra firme do Amapá e do Pará, com cerca de um indivíduo por hectare; no Cerrado, aparece no cerrado stricto sensu e no cerradão de Minas Gerais e São Paulo. É também frequente em ambientes ripários (matas ciliares), com até 59 árvores por hectare, e foi encontrada em 30,4% dos levantamentos de floresta ciliar analisados por Rodrigues e Nave, além de áreas alagáveis, brejos, florestas higrófilas, turfosas e psamófilas e restingas.

Floração e frutificação

A floração é do tipo explosiva e varia conforme a região: ocorre de maio a outubro em São Paulo, de julho a setembro no Paraná, de setembro a novembro em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul e de setembro a dezembro em Alagoas. Os frutos amadurecem de setembro a janeiro no Paraná e de dezembro a fevereiro em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Fauna associada

A polinização é feita essencialmente por abelhas e por diversos pequenos insetos. A dispersão dos frutos e sementes é predominantemente zoocórica, com destaque para as aves, principais responsáveis pela ampla disseminação da espécie, que também foi detectada na chuva de sementes da Floresta Ombrófila Mista em Caçador (SC).

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos quando passam de verde para amarelo e beneficiados no mesmo dia da coleta, pois, se guardados para o dia seguinte, escurecem e começam a mofar. Cada quilo reúne cerca de 47 mil sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Não se recomenda armazená-las.

Produção de mudas

Indica-se a semeadura direta em sacos de polietileno de 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de 120 cm³. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa de 20 a 30 dias após a semeadura, atingindo em média 50%; as mudas alcançam cerca de 20 cm de altura aos 6 meses. Na adubação, recomenda-se, para sacos de polietileno, esterco orgânico (25% do volume de solo) ou adubo químico (4 kg/m³ de NPK 4:14:8) e, para tubetes, 100 g de adubo de liberação lenta por saco de 25 kg de substrato. Na propagação vegetativa por estacas de ramos do ano e de brotação basal, Inoue e Putton obtiveram enraizamento de 11,1% com ácido indol butírico (AIB) a 3.000 mg/kg, 23,6% com enraizante natural comercial e 20,8% na testemunha sem regulador vegetal.

Características silviculturais

Espécie de comportamento que vai de lucífera a esciófila. Possui forma tortuosa, sem dominância apical bem definida, ramificação pesada, bifurcações e múltiplos troncos, com desrama natural fraca, o que exige podas frequentes de condução e de galhos; rebrota da touça emitindo vários brotos. Desenvolve-se melhor em plantios sob cobertura ou mistos.

Crescimento e produção

As informações sobre o desempenho da espécie em plantios são escassas, mas seu crescimento é reconhecidamente lento.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.100 mm, em Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul, a 3.200 mm, no litoral paulista, com chuvas uniformemente distribuídas no Sul (exceto no norte do Paraná) e periódicas nos demais locais. A deficiência hídrica é nula no Sul e pode chegar de moderada a forte no inverno do oeste de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila entre 16,2 ºC (Castro, PR) e 25 ºC (Corumbá, MS), com mínima absoluta de -8,4 ºC registrada em Castro (PR). Geadas são frequentes no inverno do Planalto Sul-Brasileiro e raras no litoral do Paraná e de Santa Catarina, podendo haver até neve em parte da área. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af, Am, As, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.

Solos

Cresce naturalmente em solos bastante úmidos de várzea ou em solos compactos, onde muitas vezes chega a predominar.