Foto: Carol Fontes (CC0) via GBIF
Guaçatonga
Casearia sylvestris
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: cafezeiro-do-mato, café-do-mato, caferana, caiubim, marinheiro, marinheiro-bravo, são-gonçalo, café-bravo, língua-de-tiú, pau-de-lagarto, erva-de-lagarto, erva-de-tiú, chá-de-frade, espeto, café-de-bugre, chá-de-bugre, erva-de-bugre, cafeeiro, canela-de-veado, lagarteira
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Violales e família Flacourtiaceae, dentro do gênero Casearia. Foi descrita por Swartz e publicada em 1798 (Fl. Ind. Occid. 2.752). A espécie acumula uma extensa lista de sinônimos botânicos, compilada por Sleumer. O nome do gênero homenageia o missionário holandês Casearius, enquanto o epíteto sylvestris deriva do latim e significa 'da floresta' ou 'silvestre'.
Trata-se de uma planta perenifólia cuja forma varia bastante: pode apresentar-se como subarbusto, arbusto, arvoreta ou árvore. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 20 m de altura e 40 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, tomado a 1,30 m do solo) quando adultos. Essa variação é extrema conforme o ambiente: no Pico das Almas, na Chapada Diamantina (BA), os indivíduos medem apenas 0,50 m, enquanto na Serra do Cipó (MG) podem alcançar 3 m. O tronco tem seção cilíndrica, pode ser reto ou tortuoso, com base normal a levemente canaliculada e muitos galhos; o fuste costuma ser curto, com até 5 m. A ramificação é dicotômica e simpódica, formando copa baixa e densa, fastigiada ou arredondada, de folhagem verde-escura; os ramos têm pontas glabras a pubescentes e lenticelas esparsas ou abundantes. A casca chega a 5 mm de espessura: a externa (ritidoma) é cinza-escura, fissurada e se desprende em pequenas escamas, e a interna é amarelada, de textura curto-fibrosa e estrutura trançada. As folhas são simples, de formato oblongo, elíptico ou ovado-oblongo, com base atenuada simétrica ou assimétrica; a lâmina mede de 4 a 14 cm de comprimento por 1 a 4 cm de largura, com consistência membranácea a papirácea. São geralmente glabras e, contra a luz, revelam numerosas pontuações translúcidas distribuídas por toda a lâmina. A margem é levemente glandular-serrulada a serrada e o pecíolo, glabro a pubescente, mede de 0,5 a 0,6 cm; as estípulas são caducas. Como ocupa ambientes muito diversos, a planta varia bastante no tamanho, forma e textura das folhas, bem como na pilosidade dos ramos jovens. Suas folhas dísticas lembram folhas compostas, podendo confundir-se, aos olhos de leigos, com bicuíba (Virola bicuyba), cedro (Cedrela fissilis), canjarana (Cabralea canjerana subsp. canjerana) e cuvatã (Cupania vernalis). As inflorescências são sésseis, reunidas em pequenas umbelas congestas e curto-pedunculadas, com 20 a 40 flores na axila das folhas. As flores são pequenas e numerosas, dispostas ao longo dos ramos, de coloração branca, esverdeada, verde-amarelada ou creme, pouco vistosas e escondidas entre a folhagem. O fruto é uma cápsula ovóide de cerca de 5 mm de diâmetro, vermelha, com cálice persistente, contendo de 1 a 7 sementes. As sementes são glabras, de testa foveolada e arilo amarelo e pegajoso.
Uso e ecologia
A madeira é densa (massa específica aparente de 0,84 g/cm³), de cor pardo-amarelada e resistente ao cupim. Apesar do baixo valor comercial, na Região Metropolitana de Curitiba (PR) é aproveitada para cabos de ferramentas e utensílios domésticos. Como lenha, tem pouco valor energético. É adequada à produção de papel, com fibras de 1,54 mm de comprimento e teor de lignina com cinza de 25,61%. As folhas contêm óleo essencial (terpenos e triterpenos), além de esteroides ou triterpenoides, flavonoides, ácidos graxos e antocianosídeo; outras partes da planta apresentam taninos, saponinas e resinas. A forte presença de óleo essencial fundamenta seu emprego como cicatrizante, antisséptico, antimicrobiano e fungicida. O uso medicinal das folhas é tradicional no Brasil, sobretudo para queimaduras, ferimentos, herpes e pequenas lesões de pele; folhas e casca são tidas como tônicas, depurativas, antirreumáticas e anti-inflamatórias, propriedades em parte já confirmadas por estudos clínicos. Em Minas Gerais é usada contra doenças de pele e como depurativo do sangue, e em diversos países sul-americanos integra produtos dentários e antissépticos. Entre as indicações fitoterápicas, em forma de chá, estão úlcera gástrica, feridas, eczemas, pruridos, distúrbios da pele, picadas de insetos, hidropsia e afecções da orofaringe (aftas, herpes simples e mau hálito). A infusão das folhas também é empregada por veterinários no tratamento de vacas com retenção de placenta. A planta tem ação antiúlcera relevante, reduzindo a produção de ácido clorídrico sem prejudicar a digestão nem a absorção de proteínas, e protege a mucosa gástrica contra o estresse; pela presença de taninos, forma películas protetoras na pele e nas mucosas. Estudos farmacológicos com ratos, usando extrato da casca, demonstraram ação anti-inflamatória e proteção contra o veneno da jararaca (Bothrops jararaca), o que explica seu uso popular contra picada de cobra.
O posicionamento sucessional da espécie é controverso entre os autores, sendo classificada ora como planta de sub-bosque, ora como pioneira, secundária inicial, secundária tardia ou clímax exigente em luz. Tem preferência por floresta primária alterada, onde há menor entrada de luz, mas, após o desmatamento, pode comportar-se como invasora de pastagens cultivadas. Ocorre em ampla gama de formações: na Mata Atlântica está em Floresta Estacional Decidual (frequência de 1 a 6 indivíduos por hectare), Floresta Estacional Semidecidual (de 1 a 17 adultos por hectare, podendo chegar a 170 jovens), Floresta Ombrófila Densa (4 a 191 indivíduos por hectare), Floresta Ombrófila Mista ou de Araucária (2 a 57 por hectare) e restinga. Na Amazônia aparece na Floresta Ombrófila Densa de terra firme, no Amazonas. No Cerrado ocupa savana lato sensu (2 a 40 indivíduos por hectare), cerradão e campo cerrado. No Pantanal Mato-Grossense também está presente. Ocorre ainda em ambientes ripários (3 a 71 por hectare), brejos de altitude (30 a 45 por hectare), campos limpos, campos de murunduns, campos rupestres, capões, carrascos e florestas de pau-ferro (até 193 por hectare).
A floração varia conforme a região: de maio a dezembro em São Paulo, de junho a julho em Minas Gerais, de junho a novembro no Paraná, em agosto no Mato Grosso do Sul e de setembro a outubro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de agosto a outubro em Minas Gerais, de agosto a dezembro em São Paulo, em outubro em Santa Catarina e de novembro a dezembro no Paraná.
É uma espécie hermafrodita. A polinização é feita sobretudo por abelhas sem ferrão (Apidae: Meliponinae, como Melipona bicolor, M. marginata, M. rufiventris, Paratrigona subnuda, Partamona helleri, Plebeia droryana, Scaptotrigona bipunctata, Schwarziana quadripunctata, Trigona fulviventris e Trigona spinipes) e por moscas-das-flores (Diptera: Syrphidae). A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, com destaque para o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) e o muriqui ou mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides). As folhas integram a dieta do bugio ou guariba (Alouatta guariba).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a abrir espontaneamente e, em seguida, expostos ao sol para completar a abertura e liberar as sementes. Cada quilo reúne de 84 mil a 230 mil sementes. Não é preciso fazer tratamento pré-germinativo. As sementes são recalcitrantes e de viabilidade curta: perdem o poder germinativo cerca de 20 dias após a colheita. Em laboratório, germinam tanto na luz quanto no escuro.
Por serem pequenas, as sementes devem ser semeadas em sementeiras e depois repicadas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio; a repicagem é feita de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea ou fanerocotiledonar, com emergência entre 20 e 40 dias após a semeadura e poder germinativo baixo (10% a 50%). As mudas atingem porte adequado para o plantio por volta de 4 meses depois da semeadura. No viveiro, a planta tolera sombreamento médio, já que a pleno sol as plântulas crescem bem mais devagar do que à sombra.
Espécie esciófila e tolerante a baixas temperaturas. Tem hábito tortuoso, sem dominância apical definida, com ramificação pesada, bifurcações e múltiplos troncos, além de desrama natural fraca, o que exige podas frequentes de condução e de galhos. Desenvolve-se melhor em plantios sob cobertura e rebrota da touça, formando vários brotos.
Há poucos registros de crescimento da espécie em plantios, mas o que se conhece indica desenvolvimento lento.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 830 mm, na Chapada Diamantina (BA), a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP), com chuvas uniformemente distribuídas no Sul (exceto no norte do Paraná) e periódicas na maior parte dos demais locais. A deficiência hídrica varia de nula a forte conforme a região e a estação. A temperatura média anual oscila entre 16,2 ºC (Castro, PR) e 26,8 ºC (Caxias, MA); a mínima absoluta registrada é de -8,4 ºC (Castro, PR), podendo chegar a -12 ºC junto à relva. O número de geadas vai de 0 a 13 por ano em média, com máximo absoluto de 35 na Região Sul. Pela classificação de Köppen, ocorre em climas Af, Am, As, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente em solos muito variados, de fertilidade química baixa a alta, úmidos ou secos e de textura arenosa a argilosa, inclusive em solos pobres com altos teores de alumínio e pH baixo. Exige drenagem boa a regular. Em plantios, tem melhor desempenho em solos de fertilidade média a alta, bem drenados e de textura argilosa a areno-argilosa.